
História, Cultura & Memória. "... o que permaneceu incompreendido retorna: como uma alma penada, não tem repouso até que seja encontrada resolução e libertação." Sigmund Freud
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Paradise Lost - "As Horizons End"

sábado, 15 de agosto de 2009
Sete Bandas Gregas de Heavy Metal
Os gregos antigos abominavam a desmesura, ou seja, tudo que contrariava a busca do equilíbrio apolíneo ,das linhas harmônicas, na estética e na moral. A atitude mais reprovável que um grego podia cometer era denominada hybris, falta de equilíbrio, que compreendia orgulho exarcebado, presunção, arrogância, o fato de desejar mais daquilo que lhe foi concedido pelo destino. Ideal era buscar a areté, que significa mérito ou qualidade pelo qual algo ou alguém se mostra excelente.
Estas virtudes também estão presentes na contribuição dos gregos para a música pesada.
Abaixo estão sete bandas gregas de heavy metal, na ordem de descobrimento, ou seja, a primeira banda grega que conheci foi o Varathron, com o álbum abaixo. A mais recente é o Zemial, com o álbum In Monumentum, que é o único que conheço até agora, aliás excelente. A excelência serviu de guia para as escolhas, qualidade sonora e beleza das capas. O estilo predominante é o Death / Black Metal, com elementos Doom e Gothic. Som extremo que envolve excelente trabalho das guitarras e das baterias unido ao violão acústico e nos arranjos, coros e instrumentos étnicos do Mediterrâneo e Oriente Médio. Essa mestiçagem parece ser a marca do metal grego. Ecos profundos do Bathory são ouvidos na Theogonia do Rotting Christ, nos álbuns de Kawir, Varathron e Zemial. Influência também sentida em Astarte, Nightfall e Septic Flesh. Este último realiza experimentos com música erudita e a eletrônica/industrial em seus trabalhos. Salvo engano, o Nightfall parece ter encerrado atividades. I am Jesus é o seu melhor disco. Sirens consolidou o death/black sinfônico das mulheres do Astarte, lideradas por Tristessa.
A temática seguida é formada por temas mitológicos, épicos, crítica religiosa, terror lovecraftiano e aspectos sombrios da condição humana. Enorme poder de evocação de climas arcaicos, oníricos, paisagens do Mediterrâneo e Oriente antigos, quando a humanidade era mais jovem, áspera e ao mesmo tempo idealizadamente pura. Juntamente como a música medieval/renascentista e barroca constitui a minha trilha sonora para quando sou acometido de tristeza, dor, desespero ou aborrecimentos da faina diária.
VARATHRON - Walpurgisnacht [1995]

ASTARTE - Sirens [2004]

ROTTING CHRIST - Theogonia [2007]

NIGHTFALL - I am Jesus [2003]
Estas virtudes também estão presentes na contribuição dos gregos para a música pesada.
Abaixo estão sete bandas gregas de heavy metal, na ordem de descobrimento, ou seja, a primeira banda grega que conheci foi o Varathron, com o álbum abaixo. A mais recente é o Zemial, com o álbum In Monumentum, que é o único que conheço até agora, aliás excelente. A excelência serviu de guia para as escolhas, qualidade sonora e beleza das capas. O estilo predominante é o Death / Black Metal, com elementos Doom e Gothic. Som extremo que envolve excelente trabalho das guitarras e das baterias unido ao violão acústico e nos arranjos, coros e instrumentos étnicos do Mediterrâneo e Oriente Médio. Essa mestiçagem parece ser a marca do metal grego. Ecos profundos do Bathory são ouvidos na Theogonia do Rotting Christ, nos álbuns de Kawir, Varathron e Zemial. Influência também sentida em Astarte, Nightfall e Septic Flesh. Este último realiza experimentos com música erudita e a eletrônica/industrial em seus trabalhos. Salvo engano, o Nightfall parece ter encerrado atividades. I am Jesus é o seu melhor disco. Sirens consolidou o death/black sinfônico das mulheres do Astarte, lideradas por Tristessa.
A temática seguida é formada por temas mitológicos, épicos, crítica religiosa, terror lovecraftiano e aspectos sombrios da condição humana. Enorme poder de evocação de climas arcaicos, oníricos, paisagens do Mediterrâneo e Oriente antigos, quando a humanidade era mais jovem, áspera e ao mesmo tempo idealizadamente pura. Juntamente como a música medieval/renascentista e barroca constitui a minha trilha sonora para quando sou acometido de tristeza, dor, desespero ou aborrecimentos da faina diária.
VARATHRON - Walpurgisnacht [1995]

ASTARTE - Sirens [2004]

ROTTING CHRIST - Theogonia [2007]

NIGHTFALL - I am Jesus [2003]
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Pascal
"A maior baixeza do homem é a busca da glória, mas este é também o maior sinal de sua excelência; pois, não importa as posses que tenha na terra, a saúde e a comodidade essencial que possua, ele não estará satisfeito se não for estimado pelos homens. Julga tão grande a razão do homem que, mesmo tendo alguma vantagem na terra, não estará contente se não estiver vantajosamente situado também na razão do homem. É o mais belo lugar do mundo, nada pode desviá-lo desse desejo, e essa é a qualidade mais indelével do coração humano.E os que mais desprezam os homens, e os igualam aos animais, também querem ser admirados e acreditados por isso, e contradizem-se a si mesmos por seu próprio sentimento; sua natureza, que é mais forte que tudo, os convence da grandeza do homem mais fortemente que a razão os convence de sua baixeza."
"O homem é visivelmente feito para pensar; é toda a dignidade e todo o seu mérito; e seu dever é pensar corretamente. Ora, a ordem do pensamento é começar por si, e por seu autor e sua finalidade.
Mas em que pensa o mundo?Jamais nisso, mas em dançar, em tocar alaúde, em cantar, em fazer versos, em passear para se distrair, etc., em combater, em tornar-se rei, sem pensar no que é ser rei, e no que é ser homem."
"Justiça, força - É justo que o que é justo seja seguido, é necessário que o que é mais forte seja seguido. A justiça sem a força é impotente; a força sem a justiça é tirânica. A justiça sem a força será contestada, porque há sempre homens maus.; a força sem a justiça será acusada. é preciso, pois, reunir a justiça e a força, fazendo com que o que é justo seja forte, ou que o que é forte seja justo.
A justiça está sujeita à disputa, a força é muito reconhecível e sem disputa. Assim, não se pôde dar força à justiça, porque a força contestou a justiça dizendo que era injusta e que ela, a força, é que era justa. Desse modo, não se podendo fazer que o que é justo fosse forte, fez-se que o que é forte fosse justo."
Mas em que pensa o mundo?Jamais nisso, mas em dançar, em tocar alaúde, em cantar, em fazer versos, em passear para se distrair, etc., em combater, em tornar-se rei, sem pensar no que é ser rei, e no que é ser homem."
"Justiça, força - É justo que o que é justo seja seguido, é necessário que o que é mais forte seja seguido. A justiça sem a força é impotente; a força sem a justiça é tirânica. A justiça sem a força será contestada, porque há sempre homens maus.; a força sem a justiça será acusada. é preciso, pois, reunir a justiça e a força, fazendo com que o que é justo seja forte, ou que o que é forte seja justo.
A justiça está sujeita à disputa, a força é muito reconhecível e sem disputa. Assim, não se pôde dar força à justiça, porque a força contestou a justiça dizendo que era injusta e que ela, a força, é que era justa. Desse modo, não se podendo fazer que o que é justo fosse forte, fez-se que o que é forte fosse justo."
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Resenha do livro O Roubo da História, de Jack Goody.


Inicio aqui uma série de postagens sobre autores e livros que foram muito importantes em minha formação de historiador. Conheci alguns no final da adolescência, quando estava meio indeciso entre cursar História ou Biologia. Outros quando cursava História na FFLCH-USP, seja por sugestão dos professores, menção em algum texto ou ao acaso, revirando a biblioteca. Não endosso tudo que eles escreveram, porém são as matrizes com as quais aprendi a pensar e a interpretar o real. Sou relativamente eclético quanto às leituras, desde que seja material bem elaborado. Um conservador pode transmitir um grande ensinamento para mim, enquanto um progressista pode emitir grande asneira, constituindo uma perda de tempo, e vice-versa. Naturalmente abomino racistas, nazifascistas, antisemitas, literatura de auto-ajuda e fanáticos cientificistas e religiosos... Convivem em minha estante, com civilidadade, marxistas, liberais, filósofos analíticos, evolucionistas e culturalistas, freudianos e anti-freudianos, católicos, protestantes, pagãos, ateus e budistas.
Nascido em Londres no ano de 1919, o antropólogo e historiador britânico Jack Goody é, ao lado de Claude Levi-Strauss, Edgar Morin, Eric Hobsbawm, Rene Girard entre outros, um grandes cientistas sociais ainda vivos. Iniciou sua formação estudando literatura inglesa na Universidade de Cambridge, onde foi colega de E. P. Thompson, E. J. Hobsbawm e Raymond Williams. Seu interesse pela antropologia começou quando foi combatente na Segunda Guerra Mundial, lutando no deserto africano. Feito prisioneiro de guerra, passou por campos de internamento no Oriente Médio, Itália e Alemanha, travou contato com a diversidade humana, convivendo com beduínos, prisioneiros de guerra indianos, sul africanos, americanos e russos, com camponeses italianos, durante seis meses, numa de suas fugas. No campo de prisioneiros alemão de Eichsttat, que possuia uma biblioteca, Goody conheceu duas obras clássicas que marcariam sua formação intelectual: "O Ramo de Ouro" do antropólogo Sir James Frazer (1854-1941) e "O que aconteceu na História" do arqueólogo australiano V. Gordon Childe (1892-1957). Trabalhou com educação de adultos durante certo tempo. Este conjunto de experiências e leituras fizeram-no repensar seus interesses intelectuais. Com o fim da guerra, retornou à Universidade, trocando os estudos literários pela faculdade de arqueologia e antropologia. Foi aluno de Evans-Pritchard e Meyer Fortes, sucedendo este último como professor de antropologia em Cambridge. Estes dois mestres foram profundamente importantes para sua concepção de pesquisa antropológica indissociavelmente ligada à História, no caso de Pritchard. De Meyer Fortes veio o interesse pela dimensão psicológica da vida social, pela economia e o estudo do grupo doméstico e seu ciclo de desenvolvimento. Vale ressaltar o peso de Marx, Weber e Freud na constituição de seu pensamento.Sua vasta obra se desdobra em estudos sobre os efeitos do processo de letramento sobre as sociedades humanas, através da abordagem comparativa entre a Grécia Antiga, Mesopotâmia e África do século XX. Esta análise comparativa dos impactos da cultura letrada se desenvolve então, através do estudo de quatro parâmetros: religião, economia, administração e direito. Também são fundamentais seus estudos sobre História da Herança e da Família, do casamento e do amor romântico, da arte culinária e os processos de estratificação social entre outros temas. Disponíveis em português estão os seguintes títulos: A Domesticação do Pensamento Selvagem (Presença, 1988), A Lógica da Escrita e a Organização da Sociedade (Edições 70, 1991), As consequências do Letramento (em co-autoria com Ian Watt, Editora Paulistana, 2008), O Oriente no Ocidente (Difel), O Oriental, o Antigo e o Primitivo (Edusp, 2008) e finalmente o objeto deste ensaio, O Roubo da História (Contexto,2008).
O antropólogo entende que o "roubo" ou, mais elegantemente, "apropriação", foi o fato dos europeus escreverem sobre sua história e a do restante da humanidade a partir de seu ponto de vista, que enfatiza a excepcionalidade do Ocidente no tocante a criação da valores como a democracia, a defesa da liberdade, a igualdade de direitos, bem como instituições como as universidades e mesmo sentimentos como o "amor romântico" e o individualismo. Dessa maneira os europeus afirmam sua superioridade cultural e dão pouca atenção às realizações de outras sociedades, mais precisamente da Ásia e Oriente Próximo, que também desenvolveram estes conceitos. Goody tem por objetivo derrubar esta muralha etnocêntrica e mostrar que a Europa e a Ásia possuem pontos em comum, entretanto, sem abdicar a constatação de diferenças e particularides construídas ao longo do processo histórico.
Embora, numa primeira leitura, suas hipóteses e proposições causem muita estranheza ao leitor, isto é encontrar Capitalismos, Renascimentos, Processos de Modernização em outor lugares que não a Europa, não se trata de um texto planfetário, nutrido em atitudes de ressentimento e sentimentalismo politicamente correto. É o resultado de mais de 60 anos de leituras, pesquisa, rigor empírico e conceitual. Uma escrita densa e acessível (contanto que o leitor possua alguns conhecimentos básicos em história e ciências sociais).
Logo de início o autor não está interessado em fazer um tribunal histórico pois , muito ponderado, enuncia: "se a Europa não inventou o amor, a democracia, a liberdade e o capitalismo de mercado, ela também não inventou o etnocentrismo", ademais "essa tendência etnocêntrica é extensão de um impulso egocêntrico na base de grande parte da percepção humana e se realiza pelo domínio de fato de muitas partes do mundo" (1)
Boa parte dos capítulos do livro originaram-se de conferências. Acredito que após a leitura da introdução, seus capítulos podem ser lidos numa ordem aleatória, sem prejuízo da compreensão do todo, pois Jack Goody retoma várias vezes as idéias principais, esclarece algum ponto mais obscuro... Lamentavelmente inexistem índices de nomes,
O Roubo da História está dividido em três partes:
Na primeira parte "Uma Genealogia Sociocultural" o antropólogo estabelece quatro procedimentos para combater as visões etnocêntricas: 1. postura cética quanto a exclusividade européia na invenção de instituições e valores como a democracia ou liberdade, 2. estudar a história a partie da base (e não do presente) (2), 3. dar a importância devida ao passado não europeu e, 4. ter em mente "que até mesmo a espinha dorsal da historiografia - a localização dos fatos no tempo e no espaço - é variável, objeto de construção social, por isso sujeita a mudança." (3)
Goody discute as diferentes formas de calcular o tempo nas sociedades com (e também sem) escrita e a concepção de que o conceito linear seria criação da sociedade ocidental. Há que se diferenciar linearidade temporal de "progresso". Goody demonstra que existiam noções de linearidade em culturas orais, coexistindo junto com o tempo circular. Assim como as concepções de espaço e periodização histórica que também seguem padrões europeus. esta padronização foi-se estabelecendo com a conquista européia (processo de longa duração iniciado com as viagens de "descobrimento" e consolidada com a revolução industrial e o imperialismo do sec XIX).
O noção de "Antiguidade" também deve ser revista e, possivelmente ampliada. O "etapismo" de sociedade arcaica, Antiguidade, Feudalismo, Renascença e Capitalismo foi apropriado pelos europeus, pois outras sociedades passaram por processos semelhantes (4). A partir do conceito de "Revolução Urbana" (de V. Gordon Childe) Jack Goody trata do desenvolvimento paralelo, comercial e cultural, das sociedades da Mesopotâmia, Egito, Crescente Fértil e China. Existiam intercâmbios culturais, comerciais, relações diplomáticas tanto dentro destas sociedades como entre elas. Discute os limites de análises influentes como a de Moses Finley quanto a economia e democracia gregas. Desse modo a primazia dos gregos como inventores da democracia fica abalada, o que não significa menosprezo ao seu legado.
A segunda parte: "Três Perspectivas Acadêmicas" dedica-se à leitura crítica das obras de três grandes cientistas sociais: o biólogo e historiador da ciência Joseph Needham, que possui uma obra monumental lamentavelmente inédita em português chamada Science e Civilization in China (1954); o sociólogo alemão Norbert Elias e o historiador francês Fernand Braudel. Respectivamente são abordadas o desenvolvimento paralelo da ciências na Europa e na China até que no século XVI o Velho Mundo tomou a dianteira, enquanto a China teria estagnado.
Na minha opinião os juízos mais severos foram direcionados para Norbert Elias. Goody pretende demonstrar que falta rigor teórico e metodológico nas análises do sociólogo em relação ao processso civilizatório, que seria específico da socieda européia de fins da Idade Média e Renascimento. Processo fundamentado no controle comportamental, formação e centralização do Estado (e consequente monopólio da violência). Elias desconhecia pesquisas sobre culturas africanas e asiáticas, impossibilitando um trabalho comparativo mais consistente. Goody observa que estas sociedades possuíam controles e interditos quanto à sexualidade, uso da violência, ou sejs possuiam "regras de etiqueta" comparávéis aos europeus da Idade Moderna. O mais grave é que o sociologo alemão estaria alicerçado numa concepção de civilização do século XIX europeu, com todas as suas mazelas que são objeto de crítica de Jack Goody.
A obra de Braudel padece das mesmas vicissitudes: o capitalismo estaria plenamente estruturado na Europa Ocidental, enquanto estaria "travado" na Ásia após período de florescimento. Embora a Revolução Industrial européia estaria intimamente ligada aos desdobramentos da economia asiática, fatos que são muito obbscurecidos. Numa argumentação provocativa Goody questiona se o termo "capitalismo" deveria continuar a ser usado (5)
Finalmente a terceira parte "Três Instituições e Valores" trata das cidades, universidades, valores como igualdade, liberdade, individualismo e sentimentos como o amor. Naturalment os europeus reivindicam exclusividade ou, na melhor das hipóteses, fizeram um "trabalho melhor" nestes campos. Novamente existem similitudes e, as cidades européias possuem mais pontos de semelhança com as asiáticas do que pensa a vã filosofia. Algo parecido ocorre com as instituições de ensino superior, embora no Oriente pareça existir, em certas épocas, maior vigilância dos poderes religiosos quanto ao trabalho docente e liberdade de pensamento.
Quanto aos valores humanitários, individualismo,igualdade, liberdade, eles também estão presentes no pensamento muçulmano, hindu e budista. Evidentemente seguindo seus próprios parâmetros. Sociedades letradas, orais e não letradas da África e da Ásia promovem práticas que podemos considerar democráticas, onde existem participação e decisões compartilhadas em assembléias, rotatividade no poder etc. No tocante ao amor romântico, entendido como liberdade de escolha entre os parceiros, não foi uma invenção da Idade Média européia, ele pode ser encontrado na poesia romana (Catulo entre outros), na poesia árabe, indiana, japonesa e chinesa. No entanto, etnocentrismos à parte, observo que a situação das mulheres no Oriente contemporâneo não parece estar longe do ideal. Algo observado não apenas por ocidentais(6). Há que se questionar se este amor foi plenamente realizado tanto no Ocidente como no Oriente, algo a ser pensado com mais cuidados.
Jack Goody faz menção a um "desejo universal por representação" que, à revelia das elites e pressão do grupo social, é inerente à condição humana. Uma necessidade de se fazer ouvir que ultrapassa configurações sociais, no tempo e no espaço. Ideia interessante mas que não é muito bem delineada neste livro. Seria interessante comparar os conceitos de razão e verdade empregados pelos filósofos do ocidente e suas semelhanças e diferenças com relação à contrapartida oriental. Entretanto a Filosofia não parece ser terreno muito firme para Jack Goody, tão erudito em outros campos. Igualmente, elementos de teologia e história das religiões deveriam ser mais apurados. Por fim, algumas reflexões sobre a história contemporânea mais imediata, sobremaneira questões relacionadas à situação do Oriente Médio, parecem reiterar alguns lugares-comuns da mídia e da academia, parecendo ter sido escritos no calor do momento, com pouco distanciamento crítico. Mas estas questões ficam para serem comentadas em outra oportunidade.
O que tentei sintetizar é apenas uma pequena amostragem da riqueza de conteúdo deste livro, tal é a variedade de temas, subtemas e autores citados e comentados. É de se lamentar que muitos de seus interlocutores não estejam disponíveis em português. Ponto negativo é a falta de índices temático, de nomes e localidades.
Portanto, não se trata de um panfleto anti-ocidente, embora possa ser instrumentalizado neste sentido, segundo uma leitura estreita e superficial (tão arbitrária quanto a do eurocentrismo), seu autor não pretende começar do zero e se arvorar em monopolizador da verdade. Afinal, se o Ocidente não criou todos os benefícios da humanidade, divide com o resto do mundo a miséria humana.
Afinal, existe uma grande diferença entre criticar o eurocentrismo e todas as conseqüências espúrias que ele proporcionou e desqualificar conquistas civilizatórias da cultura ocidental como um todo. Nosso passado não foi um conto de fadas, mas é o nosso passado. Somos resultado de séculos de elaborações intelectuais, conflitos simbólicos e materiais. Destruição e esclarecimento são irmãos muito unidos. Cabe a nós compreender esta complexa herança. Apreender e reelaborar o que for preciso. Desprezar, nunca.
Predomina uma espécie de renúncia civilizatória, como se devêssemos nos envergonhar de nosso passado. Um legítimo diálogo de civilizações se faz com uma apropriação lúcida de nosso legado de milênios e séculos, sem chauvinismos, ressentimentos e idealizações.
Enfim um fabuloso trabalho de erudição e síntese. Todavia suas proposições demandam refinamento teórico e uma leitura tão crítica quanto a que ele inflige aos seus interlocutores.
Link para uma bela entrevista do antropólogo britânico está aí embaixo.
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-71832004000200013&script=sci_arttext
Notas:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-71832004000200013&script=sci_arttext
Notas:
1- O Roubo da História, p.23
2- Item polêmico sem dúvida. Seria igualmente uma prevenção contra o anacronismo?
3- op. cit, p.24. A meu ver, nomear, classificar, diferenciar e hierarquizar constituem características cognitivas humanas básicas e irreprimíveis. Temos que atentar para os pressupostos e consequencias destas operações que efetivamos. Nota-se o equilíbrio do autor, o passado existiu, vários aspectos deste passado podem ser conhecidos por nós, mas o conhecimento histórico é construído socialmente, ou seja, suas categorias estão sujeitas à releituras, confrontação de perspectivas diversas, revisões mais ou menos profundas, mas, sempre seguindo critérios científicos rigorosos. Não há uma defesa de relativismo e subjetivismo metodológicos. Portanto existem critérios de verdade e objetividade, o que afasta o autor do relativismo extremo dos pós-modernos. Ele acha pertinente a existência e manutenção de grandes narrativas.
4- Vale salientar que Jack Goody é evolucionista, acredita em certas constantes do comportamento individual e social humanos. O que não é demérito algum. O fato é que o evolucionismo na antropologia passou (e ainda passa) por grande descrédito. Em muito contribuíram suas leituras racistas, o equivocado "predomínio do mais forte", a eugenia etc. Certamente há resistências de quem trabalha com ciências humanas em dialogar com teorias evolucionidas, mesmo mais lapidadas e reconfiguradas, purificadas das apropriações nocivas de que foram objeto no passado.
5-Goody parece mais interessado em apreender processos e não ficar apegado à rigidez dos conceitos.
6-Questão complicadíssima. Uma voz forte é a da escritora somali Ayaan Hirsi Ali, autora de Infiel e A virgem na jaula. O número de autoras de origem muçulmana, criticando o tratamento que o Islã concede à mulher é considerável. Seja propondo outra leitura da tradição, purificada do fundamentalismo. Também extremamente importante é o livro Minha Briga Com O Islã de Irshad Manji. Outras autoras, adotanto ideias "ocidentais"(?), chegando a renegar sua tradição, ou mesclando conceitos da modernidade européia com ideais da tradição intelectual islâmica. Este assunto não é muito confortável para os multiculturalistas do ocidente, como podemos notar nesta entrevista, insatisfatória de meu ponto de vista, da antropóloga brasileira Denise Bandeira a respeito das críticas de Ayaan ao multiculturalismo [ver este link http://www.ufrgs.br/comunicacaosocial/jornaldauniversidade/111/pagina10.htm ]
Lembro que, em um dos ensaios do livro Em Defesa da História: Marxismo e Pós-modernismo, organizado por Ellen Meiksins Wood e John Bellamy Forsters, a bióloga indiana Meera Nanda falando das vicissitudes das mulheres de seu país em querer estudar e chegar à universidade.
terça-feira, 28 de julho de 2009
Meus Cinco Melhores Álbuns de Heavy Metal
JUDAS PRIEST - Painkiller [1990]
IRON MAIDEN – Powerslave [1984]

Aqui estão cinco álbuns de metal que considero perfeitos. Discografia básica para todo bom fã ou colecionador. A maioria eu conheci no começo de minha adolescência, no longínquo final da década de 1980. Esta pequena seleção segue critérios de gosto pessoal e de importância na história da música pesada. Considero "Painkiller", obra-prima do Judas Priest, simplesmente perfeito, seja no timbre dos instrumentos, seja na composição das letras e das músicas. Obra influente e muito bem gravada (só rivalizando com o Black Álbum do Metallica). Um paradigma para quem deseja cultivar o gosto por música pesada de excelente qualidade (seja como musico ou simples ouvinte). Vale destacar o nível de exigência, entrosamento e capacidade de auto-superação dos músicos, principalmente após dois álbuns sem grande fôlego (Turbo, de 1986, e Raw it Down, de 1988, embora não sejam totalmente desprezíveis). "Ride the Lightning" é a consolidação do Metallica no campo do Thrash Metal. "Powerslave", do Iron Maiden, é um cd que beira a perfeição. Paradise Lost é outra banda indispensável e fundamental, e que não hesita em redimensionar seu som, dialogando com outras sonoridades da música pesada, sem renunciar suas características, (ainda que sofra incompreensão, ou mesmo ódio, de seus admiradores mais fervorosos). "Draconian Times" é uma de suas obras-primas. Finalmente "Through the Darkest Hour", trabalho mais completo do Solitude Aeturnus, banda que conheci no limiar do século XXI. Portanto, para quem aprecia classificações, temos aqui dois representantes do Metal Tradicional, um ícone do Thrash Metal(pelo menos nos primeiros álbuns), uma banda que nos primórdios possuía uma sonoridade próxima do Death Metal, embora agregasse elementos do Doom e mais tarde inauguraria o Gothic Metal e, finalmente, um digno representante da vertente do Doom Metal. Lacunas ? Algumas injustiças? Naturalmente muita coisa importantíssima ficou de fora, inclusive entre trabalhos de uma mesma banda. Por exemplo, hesitei muito entre o "Icon" e o "Draconian Times". "Painkiller" possui concorrentes excepcionais, como "Screaming for Vengeance" e "Defenders of the Faith". Já "Ride the Lightning" e "Master of Puppets" podem ser considerados irmãos gêmeos. "The Number Of The Beast", "Piece of Mind" e "Seventh Son of a Seventh Son" foram sacrificados. Muitos perguntarão sobre o Black Sabbath. Por ser o fundador (ou um dos fundadores, segundo alguns) do estilo ele vai merecer uma postagem própria. Com certeza, dói no coração ter deixado de fora Motorhead, Saxon, Slayer, Megadeth, Kreator, Bathory, Tiamat, Therion e tantos outros... Mas não é motivo para lamentações, ainda estou iniciando o blog. Em outra ocasião vou postar + cinco álbuns essenciais, além de incrementar esta seção, com cinco álbuns essenciais de Doom Metal, Thrash, Death, Gothic, Symphonic, Black, Prog etc...
domingo, 26 de julho de 2009
Selvagem/Civilizado: Sobre Jean Itard e o menino selvagem

No início do Consulado de Napoleão Bonaparte, virada do século XVIII para o XIX, um evento curioso chamou a atenção do médico Jean Itard (1774-1838): a descoberta, por um grupo de caçadores, de um menino, com idade entre 10 e 12 anos, de hábitos selvagens, errando pelas florestas de Caune, distrito de Aveyron, sul da França. Mudo, aparentemente surdo, alimentando-se de nozes,castanhas e raízes, isolado de todo convívio humano, e indiferente tanto as pessoas que lhe proporcionam algum afeto ou satisfação de necessidades, como também aos que o maltratam. Talvez, contemporaneamente, seria considerado "autista". O menino selvagem de Aveyron, como ficou popularmente conhecido, depois de várias peripécias, foi finalmente enviado à Paris. Sob os cuidados da Instituição Nacional dos Surdos-Mudos, onde foi confiada a guarda do menino, mediante o pagamento de uma pensão ao médico Itard e a governanta, Madame Guerin.
Itard escreveu dois relatórios, em 1801 e 1806, para prestar contas às autoridades ministeriais de Paris, dos resultados de seu empreendimento pedagógico. Bem escritos e muito detalhistas, estes textos tornam Jean Itard um dos fundadores da Educação Especial.
Contrariando os prognósticos negativos de Philippe Pinel, que considera o garoto "idiota" (no sentido da psiquiatria da época), portanto, irrecuperável, Jean Itard acredita que o menino pode ser educado e "civilizado". O menino recebeu o sugestivo nome de Victor.
Formado nos ideais político-sociais e na epistême do século XVIII, Itard tem como fundamentos teóricos a produção filosófica de John Locke, Condillac, além da medicina moral dos ingleses. Portanto,uma pedagogia fundamentada na observação e na experimentação para decidir que caminhos devem ser percorridos na educação do "selvagem", embora Itard reitere, no primeiro relatório, que adaptou os ensinamentos científicos e filosóficos às condições de educação de uma criança dita "anormal".
A partir das lições destes mestres, Itard constituiu estratégias de socialização: desenvolver a sensibilidade dos órgãos dos sentidos (visão, olfato, tato, paladar e audição), estimular Victor a participar da vida social, ensinar a falar, ler, escrever. Desenvolver noções de moralidade e justiça e proporcionar-lhe novos gostos e necessidades.
Entretanto, fazê-lo abandonar a vida primitiva e interiorizar novos hábitos não é tarefa fácil. Comportando-se mais como cientista do que preceptor, Itard não parece aprender com os imprevistos. Não parece admitir que pode estar errado em algum ponto. Operando a partir de conclusões de antemão, não pode deixar de mostrar descontentamento, no segundo relatório, texto bem pessimista, frente aos rudimentos de sociabilidade que Victor , já adolescente,"conquistou" (?). Na verdade Victor só assimilou automatismos comportamentais. Assim como suas preocupações com relação ao descomedimento, no tocante à sexualidade, se revelam infundadas. No entanto, a indiferença de Victor quanto a este e outros assuntos, ao mesmo tempo tranquiliza e decepciona o obcecado cientista.
"(...) o homem é apenas o que o fazemos ser" (p.125). Feita esta constatação, observamos a importância que Itard, apesar de seu arcarbouço naturalista, concede às relações de interdependência entre os indivíduos. Portanto, assim que foi colocado frente aos olhares de curiosos, cientistas ou não, a sociedade assumiu um compromisso com relação a Victor.
Qual é a importância da leitura e análise destes escritos para os dias de hoje?Por que e para que educar? Após a leitura destes relatórios uma das conclusões que podemos formar seria: ele já não estava"educado" daquela maneira, antes do contato com os adultos? Por que não deixar como estava antes?
O conceito de civilização, em nossa contemporaneidade, juntamente com seus correlatos progresso e evolução, tornou-se extremamente "antipático", politicamente incorreto, etnocêntrico (como se não existisse sociedade não-etnocêntrica) para muitos. Contudo a visibilidade crítica de um conceito pode obliterar um complexo de relações de poder e legitimidade dentro dos campos político, científico e pedagógico, encobrindo o que realmente está em jogo: um projeto de sociedade e de formação dos sujeitos.
Civilizar, dentro da polissemia de significados que o conceito de civilização proporciona pode, na linguagem e procedimentos da jurisprudência, designar um ato de justiça. Tornar-se civil, participar da vida pública. Portanto, o que uma boa educação deveria fazer: ensinar a ler, escrever, contar, interpretar, a se expressar em público, oferecer um repertório científico e cultural ... Provocativamente, civilizar uma pessoa. A meu ver, deixar Victor seguindo sua vida no meio da floresta seria uma monstruosidade. Ele estava adaptado ao meio, mas não era um ser humano pleno, educado, de modo que simpatizo com a iniciativa de Itard, embora com distanciamento crítico, pois cometeu os equívocos acima mencionados.
Existe um grande risco de se efetuar uma antropologia caricatural, um positivismo às avessas, cristalizando uma identidade que está na mente do pesquisador, do educador... sem confronto com o vivido, romantizando, assim, as condições de sobrevivência dos "excluídos", loucos, miseráveis, crianças e adultos, que habitam seus "abrigos" de papelão e tecido estragado embaixo de viadutos e outros lugares, dos iletrados e analfabetos funcionais fora da cultura predominantemente letrada onde é difícil viver sem um grau satisfatório de instrução .
Para empreender uma crítica (no sentido de percepção dos limites de um discurso) ao legado de Jean Itard podemos, evitando anacronismos, compreender suas práticas dentro de uma configuração social específica. Uma sociedade em bruscas mudanças, desencadeadas pela crise do Antigo Regime e pela Revolução Francesa. A ascensão do indivíduo e seus direitos (dentro dos limites da sociedade de classes). A ideia da escolarização pública e universal e a reorganização da vida familiar. Em resumo uma nova organização dos poderes e conflitos. Itard foi testemunha e participante de tudo isto. Um processo onde existiram erros e acertos, perdas e ganhos, ainda não devidamente avaliado.
A colonização da educação, em especial de crianças e adolescentes, pela psicologia e seus dogmas (e psicologismos), da frágil tensão entre autoritarismo e permissivismo, onde tudo deve ser quantificado e previsível, onde é preciso reinventar a roda a cada mudança de administração, também é uma influência sua (e de outros também), ainda que involuntária. Voltarei a escrever sobre este assunto com mais profundidade em outra postagem.
Os relatórios de Jean Itard foram traduzidos e publicados no Brasil pela Cortez Editora em 2000, sob o título A educação de um selvagem: as experiências pedagógicas de Jean Itard, Luci Banks Leite e Izabel Galvão (orgs.) precedido de seis ensaios analíticos.
Infelizmente o belo filme de François Truffaut "O garoto selvagem" , inspirado nos escritos de Itard, não está disponível em DVD no Brasil. Salvo engano, há um DVD de distribuidora portuguesa, com o consequente preço salgado e dificuldade de localizá-lo.
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