História, Cultura & Memória. "... o que permaneceu incompreendido retorna: como uma alma penada, não tem repouso até que seja encontrada resolução e libertação." Sigmund Freud
domingo, 8 de agosto de 2010
V S Naipaul - Entre os fiéis e Além da fé.
Vidiadhar Surajprasad Naipaul, ou simplesmente V S Naipaul, é um escritor de nacionalidade britânica, nascido em Trinidad Tobago, filho de pais indianos. Em 2001 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.É uma espécie de agente duplo, intermediário entre o Ocidente e o Oriente. Aprecia muito as longas viagens. Peregrinou, assim, por boa parte da África e da Ásia. Parte de sua obra reinterpreta aspctos do choque cultural entre asiáticos, europeus e africanos, no cenário do neocolonialismo e imperialismo dos seculos XIX e XX , durante e depois do igualmente conflituoso processo de descolonização do século XX. Há também elementos autobiográficos. É considerado um homem frio, fechado, que, ao mesmo tempo pode ser amigável, sincero e, subitamente, mostrar-se descortês, ácido e cruel. Portanto humano, demasiadamente humano. Naipaul acredita que é preciso sempre decidir pela verdade, ainda que ela doa, provoque feridas. Certamente é um sofrimento estruturante, que nos torna mais fortes e sábios. Sempre li e ouvi muita coisa, digamos, negativa sobre este autor, acusações de racismo e intolerância, talvez por soltar seus demônios internos, expressar com sinceridade brutal suas opiniões sobre determinada pessoa, povo, país ou assunto. Comecei a lê-lo recentemente. Primeiro, seus dois livros de viagem, Entre os fieis e Além da fé, relatos de viagens feitas entre 1979 e 1980 ao Irã, Paquistão, Indonésia e Malásia. As transformações sociais, políticas e culturais provocadas pelo islamismo são o fio condutor do relato. Em 1995, Naipaul voltou aos mesmos lugares para observar as transformações. Depois passei os olhos em alguns capítulos de Índia: um milhão de motins agora, que são ensaios, relatos de viagem e entrevistas com indianos de várias profissões e posturas ideológicas. O livro sobre a Índia pelo pouco que pude perceber segue a estrutura dos dois primeiros que mencionei acima. Não encontrei mostras de racismo, há um profundo respeito e conhecimento pela história dos países visitados e pelas pessoas que ele entrevista (ou melhor dialoga, escuta). Como escrevi anteriormente, o autor possui uma sinceridade cruel, diz o que pensa, embora sempre de forma meditada, calculando e escolhendo bem as palavras.
Minha motivação para transcrever algumas passagens desses dois livros estão em parte, na repercussão dos casos de Aisha, jovem afegã mutilada no nariz e ouvidos pelo marido após decidir fugir da casa dos sogros por causa dos maus-tratos, e que virou capa da Time da semana retrasada, e, por fim, o da iraniana Sakineh, condenada inicialmente à lapidação, devido à acusação de adultério (a Sharia tem um conceito bastante amplo para o que definimos por adultério) e assassinato (se é real ou plantada, fica difícil de saber, já que dependemos de informações oficiais de Teerã). A hesitante e confusa (oportunista?) atuação do governo Lula e sua diplomacia torna as coisas ainda mais dramáticas.
A outra parte é o fato de que tendo a concordar em grande parte com a posição de Naipaul. Todavia, não considero o islã uma figuração da barbárie. Não existe tal monopólio, somos todos etnocêntricos, e misto de anjo e demônio, e só ter ciência disto e buscar outros caminhos de convivência. A questão não é nos envergonharmos de sermos ocidentais e carregarmos todas os vícios ou romantizar o outro asiático/islâmico, enfeitando ele só de virtudes.
Não conheço pessoalmente nenhum muçulmano ou muçulmana. O que sei é indireto, e portanto, limitado, através de escritos de autores islâmicos, produção das ciências sociais, literatura, internet, jornalismo, etc. embora procure as fontes mais confiáveis e diversificadas. É um movimento sócio-cultural sutil e complexo como o cristianismo, a cultura secular ocidental, ou outras tradições. Digamos que é ambivalente, pode mostrar saber e tolerância, assim como o seu oposto.
Transcrevo parágrafos incisivos, densos, ásperos, não obstante, sempre pertinentes. Particularmente feliz a análise que mostra que o islã é tão ou mais homogeneizador de culturas quanto o Ocidente e o desvelamento da mecânica do fundamentalismo islâmico. Algo asfixiante, como os totalitarismos de esquerda e direita. Creio que ficará difícil para os muçulmanos esclarecidos defenderem sua cultura se o aprofundamento do fundamentalismo prosseguir desta forma.
Estes espaços e povos cutucam meu imaginário a um bom tempo. Quando minha situação material se estabilizar e meu inglês e francês chegarem a um nível decente planejo seguir esta rota, incluindo com certeza a Turquia, e que sabe, se a geopolítica favorecer, talvez o Afeganistão...
Bibliografia: Entre os fiéis:Irã, Paquistão, Malásia. tradução: Cid Knipel Moreira
Além da fé: Indonésia, Irã, Paquistão, Malásia. tradução: Rubens Figueiredo
São Paulo: Companhia das Letras, 1999
(publicados originalmente em inglês nos anos de 1981 e 1998, respectivamente)
"No islã, e principalmente no islã dos fundamentalistas, o precedente é tudo. Os princípios do Profeta - conforme conjeturados a partir do Corão e das tradições autorizadas- são eternamente válidos. Podem ser estendidos de modo a cobrir todas as disciplinas." pp.217-218
"No esquema fundamentalista, o mundo se deteriora constantemente e constantemente precisa ser recriado. A única função do intelecto é ajudar esta recriação. Ele reinterpreta os textos; restabelece o precedente divino. Por isso, a história deve servir à teologia, a lei é separada da ideia de justiça e a aprendizagem é separada da aprendizagem. A doutrina tem os seus atrativos. Para um estudante da universidade de Karachi, talvez com antecedentes provincianos ou camponeses, a velha fé brota com mais facilidade do que qualquer disciplina acadêmica moderna. Dessa forma, o fundamentalismo se enraiza nas universidades, e negar a educação pode se converter no ato erudito sancionado. Nos tempos da glória muçulmana, o islã se abriu à aprendizagem do mundo. Agora, o fundamentalismo fornece um termostato intelectual regulando baixo. Ele nivela, conforta, protege e conserva. Dessa forma, a fé penetra tudo, e é possível entender o que os fundamentalistas querem dizer que afirmam que o islã é um estilo de vida completo. Mas o que se diz sobre o islã se aplica, talvez até com maior pertinência, a outras religiões - como o hinduísmo ou o budismo, ou outras fés menos tribais- que em uma fase primitiva de suas histórias também eram culturas completas, auto-suficientes e mais ou menos isoladas, com instituições, costumes e crenças que constituíam uma totalidade." p.218
"O desejo fundamentalista islâmico é trabalhar recuando para uma totalidade dessa ordem, para eles uma totalidade doada por Deus, mas apenas com a ferramenta da fé - convicção, práticas religiosas e rituais. É como um desejo - com a supressão ou limitação do intelecto, o senso histórico falsificado - de trabalhar recuando do abstrato para o concreto, e erigir novamente os muros tribais. É buscar a recriação de algo como um estado tribal ou uma cidade-estado que - exceto na fantasia teológica - nunca existiu. O Corão não é o livro de estatutos de uma idade de ouro consolidada; é o registro místico ou oracular de um levante prolongado, espraiando-se do Profeta para a sua tribo e para a Arábia. A Arábia era plena de movimento: o islã, com todos os seus elementos judaico-cristãos, sempre foi mesclado, eclético, em desenvolvimento. Assim que o Profeta tornou segura sua comunidade, procurou subjugar os seus inimigos. Foi durante uma marcha militar no quinto ano da era muçulmana que Aisha passou aquela noite sozinha no deserto." pp.218-219
"O Ocidente, ou a civilização ocidental que ele lidera, é rejeitado emocionalmente. Ele destrói aos poucos; ele ameaça. Mas ao mesmo tempo, ele é necessário, por suas máquinas, mercadorias, medicamentos, aviões de guerra, as remessas de emigrantes, os hospitais que poderiam ter uma cura para a deficiência de cálcio, as universidades que fornecerão os títulos de mestrado em meios de comunicação de massa. Toda a rejeição do Ocidente está na suposição de que sempre existirá lá fora uma civilização viva, criativa, estranhamente neutra, acessível a todos.A rejeição, portanto, não é nenhuma rejeição absoluta. Também é, para a comunidade como um todo, um modo de deixar de se esforçar intelectualmente. É ser parasitário; o parasitismo é um dos frutos não reconhecidos do fundamentalismo." p.219 (Entre os fiéis)
"A derrocada das religiões antigas - religiões ligadas à terra, aos animais e as divindades de determinado lugar ou tribo - sob a força das religiões reveladas é um dos temas contumazes da história. Mesmo quando existem textos, como ocorre no caso do antigo mundo romano-cristão, a transformação é difícil de acompanhar. Existem apenas indícios. Pode-se observar que as religiões da terra são limitadas, oferecem tudo aos deuses e bem pouco aos homens. Se estas religiões conseguem se mostrar atraentes agora é sobretudo por razões estéticas modernas; e mesmo assim é impossível conseguir imaginar uma vida completamente sem elas. As ideias das religiões reveladas - budismo (se é que pode ser incluído na lista, cristianismo, islamismo - são mais amplas, mais humanas, mais ligadas àquilo que os homens encaram como seu sofrimento, e mais ligada a uma visão moral do mundo. Pode ser também que as grandes conversões, de nações ou culturas, como na Indonésia, ocorram quando as pessoas não tem nenhuma ideia sobre si mesmas e não tem meios de compreender ou recuperar seu passado." p.96 (Além da fé...)
"A crueldade do fundamentalismo islâmico consiste em permitir a apenas um povo - os árabes, o povo original do Profeta - ter um passado, lugares sagrados, locais de peregrinação e cultos à terra. Esses lugares sagrados árabes têm de ser necessariamente os lugares sagrados de todos os povos convertidos. Os povos convertidos precisam se despojar de seu passado; nada se exige dos povos convertidos, senão a fé mais pura (se é que algo assim possa ser alcançado), o islã, a submissão. É o imperialismo mais intransigente que existe." p.96
sábado, 10 de abril de 2010
István Jancsó (1938-2010)
"Nada melhor que a própria história para por a nu nossas limitações, enquanto perscrutadores da realidade humana. Por mais que se sofistiquem os recursos técnicos, repetem-se os 'raios em céu azul' que atordoam e confundem. E quanto mais o discurso se restringe à repetição de respeitáveis saberes já sabidos, afastando-se da salutar prática intelectual que é o confronto permanente da teoria com a realidade (entendendo-se por isso o multifacetado caminho da humanidade na construção, nem sempre linear, de sua própria humanização), maiores são as perplexidades, as angústias e, como seu produto inevitável, os descaminhos da prática."
O Professor István Jancsó faleceu na madrugada de 23 de março de 2010. Infelizmente só tomei ciência do seu passamento em 4 de abril (através do programa Pesquisa FAPESP da rádio Eldorado).
Concluí minha graduação em História em 2002 e, embora frequente a biblioteca da FFLCH-USP sempre que posso e faça um ou outro curso, tomo contato as notícias da Universidade de São Paulo de forma mais lenta…O texto que segue abaixo foi uma mensagem que enviei para o blog Paisagens da Crítica, de Julio Pimentel Pinto, professor no Departamento de História da USP, que prestou singela homenagem ao mestre desaparecido. Fiz pequenas modificações. O original que postei pode ser conferido, juntamente com os demais comentários de pessoas que conheceram o professor István Jancsó, neste link:
http://paisagensdacritica.wordpress.com/2010/03/23/istvan-jancso/
Fui aluno do István no segundo semestre de 1997, em Brasil Colonial II. O que guardo de sua pessoa são a honestidade intelectual, o rigor empírico e conceitual , enorme vontade de ensinar. E principalmente uma extraordinária afabilidade no trato com os alunos (e colegas). Foi sua assinatura no espaço um tanto impessoal e gélido do departamento de História.
Lembro de uma tarde de 1997, quando aconteceu um debate entre candidatos a reitor no Anfiteatro de Geografia e ele conclamando a turma de Colonial II a assistir e participar do evento. Dispensou a turma um pouco mais cedo. Modéstia à parte fui um dos poucos da sala a comparecer no debate dos reitoráveis. O evento foi meio morno e o quórum um tanto reduzido. Ele conseguiu me identificar entre o pessoal espalhado entre a arquibancada e mandou um sorriso. Na semana seguinte deu um pito amoroso na turma, indignado com o pouco interesse do corpo discente num momento tão importante para a Universidade, indagando como reagiriam se esta fosse privatizada, o que fariam a respeito da mensalidade, caso esta fosse imposta e por aí vai…
Dentro do currículo da 7a. série está a temática da crise do sistema colonial, as conjurações e o processo de emancipação e formação do Estado brasileiro, temas que ele dedicou a pesquisar vários anos de sua vida. Enquanto pesquiso e preparo aulas e atividades, sua presença e marcas como mestre serão constantes, no educador que luto para continuar a ser. Ali, István Jancso permanecerá vivo.
A citação é de um ensaio escrito pelo professor István entitulado "A Crise do Stalinismo e A Questao Nacional.", presente no livro A História à deriva- um balanço de fim de século. organizado por Jorge Nóvoa, Salvador: Edufba,1993, p.109
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Masp,Trindade Metálica e Beethoven...

2009 agoniza. Apenas cumprindo horário na escola, por causa da reposição do recesso prorrogado (gripe suína, lembram-se?). Antes de chegar ao colégio, aproveitei a terça-feira para visitar o Masp. Últimos dias de "Rodin: Dom Ateliê ao Museu - Fotografias e Esculturas ", até 3 de janeiro, última chance.
Entretanto, há novas exposições: Abelardo da Hora na mostra "Amor e Solidariedade", montada no vão livre. Compreendendo 60 anos de carreira do artista expressionista, nascido em São Lourenço da Mata, no ano de 1924. Com fortes influências de Candido Portinari O artista pernambucano desenvolve uma obra voltada para os contrastes do desejo e da miséria. Nus femininos, sinuosos e acolhedores, materializados com grande vigor e no concreto polido e no bronze, convivem lado de um lado com representações dilacerantes da tragédia dos retirantes nordestinos Igualmente moldadas ou esculpidas com notável talento. Ecos de Lasar Segal e Victor Brecheret também são perceptíveis.


O grafite, o muralismo e a arte urbana vai aos poucos conquistando seu espaço nos museus e destruindo preconceitos. Talvez a melhor forma de arte dedicada a reflexão / expressão da descontinuidade, distorção e velocidade do cotidiano urbano da contemporaneidade. "De Dentro para Fora / De Dentro para Fora", exposta no subsolo, acolhe jovens representantes desta cultura: Titi Freak, Daniel Melim, Stephan Doitschinoff, Zezão, Carlos Dias e Ramon Martins, desse modo o trabalho destes artistas reinterpretam a publicidade, arquitetura, Ambientes da Periferia, estacionamentos, galerias, calçadas, uma tatuagem e aos sentimentos e recordações contraditórias que o caos urbano nos instiga um relembrar, criar, somatizar... Stephan Doitschinoff, Num primeiro momento é o artista que mais chamou minha atenção. Responsável pela artista encarte e capa do álbum Dante XXI, do Sepultura. Abaixo duas imagens de sua autoria. Voltarei a tratar desta mostra em outra ocasião.
A trilha sonora para este dia, composto de deslocamentos do Jardim São Paulo para a Avenida Paulista. Da Paulista para Praça do Correio até Avenida Imirim (e finalmente para casa no Jd. São Paulo) foi o trio de ferro do Heavy Metal: Black Sabbath, em doses maiores; Led Zeppelin e Deep Purple. Antes de deitar, o Presto Agitato da "Moonlight"Sonata de Beethoven. Eclética Jornada cultural ...
sábado, 14 de novembro de 2009
domingo, 8 de novembro de 2009
Rameau: Castor et Pollux / Marc Minkowski & Magdalena Kozená

Claude Lévi-Strauss apreciava muito Jean-Philippe Rameau (1682-1764) compositor do barroco francês. O músico foi objeto de seu crivo analítico em Olhar, escutar, ler. (São Paulo: Companhia das Letras, 1997. Escolhi a introdução da ópera Castor et Póllux (1737), com Marc Minkowisk, condução, Magdalena Kozená, mezzo-soprano e Musiciens du Louvre.
Fica como singela homenagem ao mestre desaparecido.
Fica como singela homenagem ao mestre desaparecido.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Refletindo um pouco sobre mídia e educação.

Duas entrevistas que chamaram minha atenção. A primeira, com o secretário estadual de educação de São Paulo, Paulo Renato Souza, na Veja de 28/10/2009. A segunda com o escritor Ferréz, na Caros Amigos, n.151, de Outubro passado.
Podem ser conferidas nestes links:
As duas conversas são bem distintas. Mas num ponto as linhas convergem, na crítica da educação pública.
No tocante a ideologia, o secretário da educação e a equipe da Veja são muito convergentes. Desse modo, conduzida por questões curtas e precisas, a conversa vai fluindo, discorrendo sobre o corporativismo do sindicato, demasiadamente preocupado com aumento salarial, e muito pouco ou, quase nada, com a qualidade do ensino. Paulo Renato lamenta a postura de "diretores com pouca visão moderna de gestão", trabalhando sempre na base do improviso. Certa demonização das parcerias com a iniciativa privada, repulsa à meritocracia e por aí vai até um ponto que considero crucial:
"Às universidades que pretendem formar professores, mas passam ao largo da prática da sala de aula. No lugar de ensinarem didática, as faculdades de pedagogia optam por se dedicar a questões mais teóricas. Acabam se perdendo em debates sobre o sistema capitalista cujo ideário predominante não passa de um marxismo de segunda ou terceira categoria. O que se discute hoje nessas faculdades está muito distante de qualquer ideia que seja cientificamente aceita, mesmo dentro da própria ideologia marxista. É uma situação difícil de mudar. A resistência vem de universidades como USP e Unicamp, as maiores do país.
Muitos professores propagam em sala de aula uma visão pouco objetiva e ideológica do mundo. Alguns não dominam sequer o básico das matérias e outros, ainda que saibam o necessário, ignoram as técnicas para passar o conhecimento adiante. Vê-se nas escolas, inclusive, certa apologia da ausência de métodos de ensino. Uma ideia bastante difundida no Brasil é que o professor deve ter liberdade total para construir o conhecimento junto com seus alunos. É improdutivo e irracional. Qualquer ciência pressupõe um método. No ensino superior, há também inúmeras mostras de como a ideologia pode sobrepor-se à razão."
Observações semelhantes àquelas feitas pela sua antecessora, a socióloga Maria Helena Guimarães, nesta mesma publicação. A ex-secretária havia sugerido o fechamento das faculdades de pedagogia. Evidentemente uma bravata. Ainda que seja um desejo secreto e inconfessável de muitos. Temos aqui uma questão extremamente espinhosa para professores do ensino fundamental e para os pedagogos, acadêmicos ou não. Que a rivalidade política acaba colocando para baixo do tapete.
Existe um hiato entre o curso de licenciatura e a realidade da sala de aula. Por mais que os alunos conheçam a situação institucional da escola, de forma direta ou indireta, em seus cursos, há o implacável choque com a realidade concreta e vivida, que desmancha certezas, por mais idealista que seja o educador iniciante. Falta de materiais, estruturas precárias, indisciplina e desinteresse dos alunos... Dificuldade de expor o conteúdo, em articular metodologias e dinâmicas para as aulas, ou melhor, a própria inexistência destas, alunos praticamente analfabetos, famílias com pouco hábito de leitura...
"Às universidades que pretendem formar professores, mas passam ao largo da prática da sala de aula. No lugar de ensinarem didática, as faculdades de pedagogia optam por se dedicar a questões mais teóricas. Acabam se perdendo em debates sobre o sistema capitalista cujo ideário predominante não passa de um marxismo de segunda ou terceira categoria. O que se discute hoje nessas faculdades está muito distante de qualquer ideia que seja cientificamente aceita, mesmo dentro da própria ideologia marxista. É uma situação difícil de mudar. A resistência vem de universidades como USP e Unicamp, as maiores do país.
Muitos professores propagam em sala de aula uma visão pouco objetiva e ideológica do mundo. Alguns não dominam sequer o básico das matérias e outros, ainda que saibam o necessário, ignoram as técnicas para passar o conhecimento adiante. Vê-se nas escolas, inclusive, certa apologia da ausência de métodos de ensino. Uma ideia bastante difundida no Brasil é que o professor deve ter liberdade total para construir o conhecimento junto com seus alunos. É improdutivo e irracional. Qualquer ciência pressupõe um método. No ensino superior, há também inúmeras mostras de como a ideologia pode sobrepor-se à razão."
Observações semelhantes àquelas feitas pela sua antecessora, a socióloga Maria Helena Guimarães, nesta mesma publicação. A ex-secretária havia sugerido o fechamento das faculdades de pedagogia. Evidentemente uma bravata. Ainda que seja um desejo secreto e inconfessável de muitos. Temos aqui uma questão extremamente espinhosa para professores do ensino fundamental e para os pedagogos, acadêmicos ou não. Que a rivalidade política acaba colocando para baixo do tapete.
Existe um hiato entre o curso de licenciatura e a realidade da sala de aula. Por mais que os alunos conheçam a situação institucional da escola, de forma direta ou indireta, em seus cursos, há o implacável choque com a realidade concreta e vivida, que desmancha certezas, por mais idealista que seja o educador iniciante. Falta de materiais, estruturas precárias, indisciplina e desinteresse dos alunos... Dificuldade de expor o conteúdo, em articular metodologias e dinâmicas para as aulas, ou melhor, a própria inexistência destas, alunos praticamente analfabetos, famílias com pouco hábito de leitura...
Também existe o fantasma da "doutrinação", muito alimentado por esta revista e outras mídias mais à direita. Todavia o corpo docente é muito heterogêneo em se tratando de posição partidária, religião, gostos estéticos. A relação professor-aluno é mais nuançada do que a simples imposição de uma determinada visão de mundo do educador sobre a clientela. Existe reelaboração por parte do corpo discente, novos elementos adicionados, resistências, recusas. Caso exista interesse da parte da criança e do adolescente. Mas a apatia parece ser mais predominante, com a aula girando em monólogos do professor, ou repetidas solicitações por silêncio e atenção ou, ainda, o infame/irritante "dê aula para quem está interessado em aprender" como dizem alguns alunos. Mas o esteriótipo da dita "doutrinação" não vai nos abandonar tão cedo.
Porém suas observações, em poucos parágrafos,numa franqueza brutal, sintetizam toda a complexidade de parte da história da educação brasileira nas últimas décadas. Valem a pena serem conferidas:
"Na escola eu tive bastante dificuldade, porque eu não prestava atenção na aula, mas ao mesmo tempo eu sabia a lição. Então eu tirava boas notas, prestava atenção no professor, e até hoje os professores perguntam como é que pode esse cara nunca prestou atenção, e esse cara sabia as matérias. Eu achava que 20 minutos do que o professor falava eu já entendia, o resto era discurso meio no vazio. Eu repeti a primeira série do primeiro ano no Euclides da Cunha, eu não gostava do ensino, não gostava da escola, não odiava ir para a escola, eu só ia para conversar mesmo e eu achava que não tinha nada a ver o que eu estava aprendendo. Eu não aprendi porcentagem na escola, entendeu? Não me ensinaram porcentagem e no comércio que eu abri eu precisava saber porcentagem. A escola me ensinou pouco, mas eu tive muitas pessoas boas na escola, muitos professores bons, que eram professores que não davam lição nem de matemática e nem de português, mas davam lição de vida. Essas pessoas fizeram a diferença."
"Eu acho que a escola perdeu o foco total de qualquer senso de realidade. Eu acho que a escola e a realidade não têm mais nada a ver e eu acho que uma geração inteira está errando de ir para a escola e os professores serem educados do jeito que são também. Porque os professores também estão ferrados."
"Tipo, eu não sei assim um dia eu acordei e falei agora eu gosto de literatura, sabe? Mas eu lia sempre quadrinhos e gostava de Robert E. Howard que é o autor do Conan e aí eu buscava saber sobre o cara, e a biografia dos autores sempre me interessou mais e então eu comecei a buscar saber mais sobre os caras. Eu sempre tive um ensino paralelo ao da escola, então se eu gostava de Conan eu lia Conan no serviço e ia para escola, tinha que ler Aluísio de Azevedo ou tinha que ler Carlos Drummond de Andrade lá, mas o Carlos Drummond de Andrade lá não me interessava."
Portanto, Ferréz educou-se à revelia da instituição, ainda que esta tenha lhe impingido marcas, ainda que ele as negue, ou recalque. Temos aqui com muita sinceridade, os temas da contradição entre escola e vida, a escola como forma de socialização e não de estudo, o erudito em detrimento do "popular",ou seja, a escola "fora da realidade" do educando, como é conhecido o lugar-comum de parte de pedagogia de esquerda. O autor não é hostil ao professorado, de certa forma são "vítimas do sistema", prefere aqueles que mostram uma face humana distinta da máscara professoral. Contudo esta "amigabilidade" tende a esvaziar o trabalho docente, mais cedo ou mais tarde.
Considero equivocadas estas observações, pois só colocam todo o peso, a responsabilidade do mundo sobre o dispositivo escolar, esquecendo a complexidade e especificidade da tarefa educativa e, consequentemente os seus limites. Sim, a educação tem poderes limitados, se esticarmos demais a corda, ela se rompe e não acontece educação alguma.
A educação deveria provocar um estranhamento frente a realidade imediata. Ensinar a ler e escrever sem disputas pela legitimidade de facções teóricas. Ensinar o que o aluno não vai aprender/encontrar em outros lugares. Transmitir elementos culturais relevantes, do cânone de nossa tradição científica e literária clássica, cristã, racionalista, iluminista e romântica, ainda que causem arrepios em certos setores da elite pedagógica. Mas é isto que nos ensina a pensar. Certamente existem as demandas da sobrevivência, mas a condição humana não é apenas isso.
De qualquer maneira é um material para reflexão. Apesar das divergências, simpatizo mais com o escritor do que com o tecnocrata tucano. E todo aquele que aprecia as aventuras de Conan, o cimério, ganha pontos comigo.
"Eu acho que a escola perdeu o foco total de qualquer senso de realidade. Eu acho que a escola e a realidade não têm mais nada a ver e eu acho que uma geração inteira está errando de ir para a escola e os professores serem educados do jeito que são também. Porque os professores também estão ferrados."
"Tipo, eu não sei assim um dia eu acordei e falei agora eu gosto de literatura, sabe? Mas eu lia sempre quadrinhos e gostava de Robert E. Howard que é o autor do Conan e aí eu buscava saber sobre o cara, e a biografia dos autores sempre me interessou mais e então eu comecei a buscar saber mais sobre os caras. Eu sempre tive um ensino paralelo ao da escola, então se eu gostava de Conan eu lia Conan no serviço e ia para escola, tinha que ler Aluísio de Azevedo ou tinha que ler Carlos Drummond de Andrade lá, mas o Carlos Drummond de Andrade lá não me interessava."
Portanto, Ferréz educou-se à revelia da instituição, ainda que esta tenha lhe impingido marcas, ainda que ele as negue, ou recalque. Temos aqui com muita sinceridade, os temas da contradição entre escola e vida, a escola como forma de socialização e não de estudo, o erudito em detrimento do "popular",ou seja, a escola "fora da realidade" do educando, como é conhecido o lugar-comum de parte de pedagogia de esquerda. O autor não é hostil ao professorado, de certa forma são "vítimas do sistema", prefere aqueles que mostram uma face humana distinta da máscara professoral. Contudo esta "amigabilidade" tende a esvaziar o trabalho docente, mais cedo ou mais tarde.
Considero equivocadas estas observações, pois só colocam todo o peso, a responsabilidade do mundo sobre o dispositivo escolar, esquecendo a complexidade e especificidade da tarefa educativa e, consequentemente os seus limites. Sim, a educação tem poderes limitados, se esticarmos demais a corda, ela se rompe e não acontece educação alguma.
A educação deveria provocar um estranhamento frente a realidade imediata. Ensinar a ler e escrever sem disputas pela legitimidade de facções teóricas. Ensinar o que o aluno não vai aprender/encontrar em outros lugares. Transmitir elementos culturais relevantes, do cânone de nossa tradição científica e literária clássica, cristã, racionalista, iluminista e romântica, ainda que causem arrepios em certos setores da elite pedagógica. Mas é isto que nos ensina a pensar. Certamente existem as demandas da sobrevivência, mas a condição humana não é apenas isso.
De qualquer maneira é um material para reflexão. Apesar das divergências, simpatizo mais com o escritor do que com o tecnocrata tucano. E todo aquele que aprecia as aventuras de Conan, o cimério, ganha pontos comigo.
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