sábado, 26 de fevereiro de 2011

Varathron - Darkness Falling





Uma "balada" do legendário Varathron!

Shadows without faces
Memories without emotions
Lust, desire, rain, terror,
A lake of fallen feelings
In your evil mind!!!!

Sometimes I feel the grief
From any creatures upon
The altar of sacrifice!!!
Sometimes I fell the fear
When darkness falling!!!!

Sombras sem rosto
Memórias sem emoções
Lascívia, desejo, chuva, terror,
Um lago de sentimentos mortos
Em sua mente o mal!!

Às vezes eu sinto a dor
De qualquer criatura em cima
O altar do sacrifício!
Às vezes eu sinto o medo
Quando a escuridão cair!!






domingo, 13 de fevereiro de 2011

"A Cultura do Narcisismo" de Christopher Lasch: arquivo revisto e corrigido.



Numa postagem anterior , escrevi uma resenha do livro de Christopher Lasch, "A cultura do narcisismo: a vida americana numa era de esperanças em declínio." (Rio de Janeiro:Imago, 1983).
Haveria ainda muita coisa a dizer, mas, por enquanto, deixo a obra para download. Devido a sua raridade e valor, escaneei um exemplar para download.  Uma humilde contribuição à difusão da cultura.





Post-scriptum 09/04/2011: O leitor Juncom alertou-me, no dia 06/04/11, a respeito de uma falha no arquivo para o download do livro A Cultura do Narcisismo. Faltavam as páginas 190 a 197, correspondendo às imagens 96, 97, 98 e 99.

Tal falha imperdoável foi corrigida. Peço desculpas aos leitores que baixaram o arquivo.

Em breve disponibilizarei O Mínimo Eu: sobrevivência psíquica em tempos difíceis, onde Christopher Lasch esclarece pontos que ficaram obscuros em A Cultura do Narcisismo, e desenvolve novos temas.

Agradeço ao Juncom pelo aviso e aos demais leitores pela compreensão.

Link atualizado 2021: MEGA

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Dougal Dixon - After Man: A Zoology of the Future




A geografia deslumbrante do planeta Pandora, talvez seja, até o momento, a mais completa elaboração de um mundo imaginário que tenta, ao menos, seguir certa veracidade científica (biológica, climática, física, geológica...) sem subjugar a criatividade a uma racionalidade fechada. A especulação científico-artística de Avatar não surgiu num vazio. Há antecedentes. 

O geólogo/paleontólogo escocês Dougal Dixon elaborou formas de vida que habitariam a Terra 50 milhões de anos no futuro, onde o homo sapiens tornou-se registro fóssil. Seu bestiário inclui símios-corujas, morsas crocodileanas, macacos-felinos, lhamas-roedores, cetáceos-pinguins ou pinguins-cetáceos, caprinos e antílopes com chifres de formatos impossíveis e exuberantes... e por aí vai, num ciclo da vida implacável. Sempre com descrições detalhadas da anatomia, habitat, alimentação, comportamento, reprodução. Como se fosse um catálogo de zoologia real. Tudo isto no livro After man: a zoology of the future (New York: St. Martin's Press), de 1981. Lamentavelmente, permanece inédito em português (1). Depois Dixon também imaginou uma evolução alternativa e bizarra para os seres humanos (2). Tomei conhecimento de imagens do After Man aos 13 anos, numa matéria da revista Manchete, perto do natal de 1987. Creio que ainda tenho estas páginas guardadas em alguma pasta em casa. Depois fui pesquisando mais. Este foi meu primeiro encontro mais profundo com o realismo fantástico.

O mundo, 50 milhões de anos no futuro, apresenta a seguinte configuração: ao norte uma imensa cordilheira de montanhas, formadas após o choque entre a África e a Europa (devido à movimentação das placas tectônicas); a América do Norte e a Austrália também se moveram para o norte, unindo-se com a Ásia. A América do Sul migrou para o sul, tornando-se um continente isolado. Existem três novos arquipélagos: Lemúria, Pacaus e Batavia.

Os animais são divididos conforme seu habitat: Bosques e Prados, Florestas de Coníferas, Regiões Polares, Montanhas, Desertos, Pradarias e Savanas, Florestas Tropicais, América do Sul, Ilha de Lemúria, arquipélagos de Pacaus e Batávia.


A equipe de excelentes ilustradores é composta por Brian McIntyre, Diz Wallis, Gary Marsh, John Butler, Philip Wood e Roy Woodward. Embora cada um tenha ficado responsável por um certo número de ilustrações (Marsh ficou com os dois primeiros capítulos, de caráter introdutório3) a concepção estilística da obra segue certa uniformidade quanto a representação dos animais, sem sufocar totalmente o estilo particular de cada artista. No mais a ilustração está a serviço da ciência, conforme uma longa tradição, enriquecida hoje, com a tecnologia digital.

Interessante notar que, enquanto existe uma explosão criativa relativa à vida animal, a flora não parece acompanhar esse delírio evolutivo. O mundo vegetal aparentemente não parece ter mudado de forma significativa, 50 milhões de anos no futuro, servindo mais como cenário. Vale ressaltar que o exotismo não é gratuito, o design por vezes bizarro de algumas criaturas possui alguma coerência quanto as possibilidades de adaptação ambiental e mutação genética, tendo como suporte, os saberes biológicos e geológicos, produzidos até o início da década de 1980, época em que After man foi publicado.

Segue uma amostra da magnífica arte deste livro. Para ampliar é só clicar em cada imagem da galeria e, por fim, um link de download do livro:

















Notas:

1. Fato um tanto curioso, pois o mercado editorial brasileiro do início e meados dos anos 1980, em especial as editoras Melhoramentos e Francisco Alves apostavam na divulgação científica de alto nível, a exemplo do Cosmos de Carl Sagan, Origens e A Evolução da Humanidade, de Richard Leakey, A Escalada do Homem, de Jacob Bronowski, O Mundo Misterioso de Arthur C. Clarke, livros de Jacques Cousteau e outros. Eram obras primorosamente editadas e o trabalho de Dougal Dixon se encaixaria perfeitamente.  Talvez os editores tivessem algum pé atrás devido ao seu caráter especulativo e fantasioso. Ou simplesmente acreditavam que não teria grande procura. 
2. Man After Man: An Anthropology of the Future. New York: Saint Martin's Press,1990. As ilustrações ficaram a cargo de Philip Hood.
3. Evolutionabordando genética celular, seleção natural, comportamento animal, forma e desenvolvimento e cadeias alimentares; History of Life, que é uma breve síntese das origens da vida, desde os organismos primitivos até a ascensão e predomínio do ser humano sobre a Terra.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Lope de Vega - Poesias Cantadas






Félix Lope de Vega y Carpio (1562-1635), fundador da comédia espanhola e autor de vasta obra (que abarca romances, peças de teatro, poesia épica e burlesca, livros religiosos e históricos, muitos irremediavelmente perdidos) viveu no Século de Ouro Espanhol (grande crescimento económico, provocado pela riqueza gerada pelas Grandes Navegações e exploração das terras do Novo Mundo). Época de grande ebulição política, religiosa e, principalmente, cultural. Neste último plano figuram Cervantes, Quevedo, Luis de Góngora, El Greco, Diego Velasquez, Zurbarán, Murillo e tantos outros... O escritor também foi secretário de duques, tornou-se sacerdote e oficial da Inquisição. Mesmo com os votos teve uma vida amorosa intensa, assim como períodos de sofrimento igualmente fortes. Espiritual e carnal, religioso e mundano ao mesmo tempo, sua obra reflete essas dimensões em versos que põem diante do leitor a contemplação da vida pastoril, o lamento pelos amores perdidos, a sátira de costumes e a busca pelo sagrado. Nas novelas do tempo de Lope de Vega era usual entremear a narrativa com músicas cantadas pelos personagens. Nos intervalos das apresentações teatrais tocar e cantar músicas inspiradas em poesias também era recorrente. O material deste cd do grupo Música Antiga da UFF provém deste contexto cultural.

Download DeposiFiles




Música Antiga da UFF:

Kristina Augustin: viola da gamba e castanholas
Leandro Mendes: tenor e flautas doces
Lenora Pinto Mendes: viola da gamba e flautas doces
Mário Orlando: contra-tenor, viola da gamba e flautas doces
Márcio Paes Selles: barítono e viola da gamba
Virgínia Van Der Linden: flauta tranversa

Músicos convidados:

Sonia Leal Wegenast: soprano, percussão e harpa
Ronaldo Lopes: vihuela



1

Oy nace una clara estrella 4:10
Anônimo
2

La hermosa Maria 1:57
Anônimo
3

Mañanicas floridas 2:46
Anônimo
4

Amor loco, amor loco 3:53
Anônimo
5

El nacimiento del Alba 2:15
Anônimo
6

Filis del alma mía 2:32
Miguel de Arizo
7

La bella malmaridada 3:36
Gabriel
8

Ay amarga soledades 3:44
Anônimo
9

Mira Nero de Parpeya 2:11
Mateo Flecha
10

El maniana de San Juan 2:32
Diego Pisador
11

Recuerde el alma dormida 4:25
Juan Navarro
12

Di perra mora 4:06
Anônimo
13

Al villano se la dan 3:10
Anônimo
14

Paseábase el Rey Moro 2:24
Luiz de Narváez
15

Vida bona, vida bona 3:10
Juan Arañyes


Oy nace una clara estrella  (Anonimo)

Oy nace una clara estrella
tan dibina y celestial,
que con ser estrella, es tal,
que el mismo sol sale de ella
El alva más clara y bella
no le puede ser ygual,
que con ser estrella, es tal,
que el mismo sol nase de ella




La bella malmaridada   (Gabriel)

La bella malmaridada
de las más lindas que yo vi,
miembresete quan amada,
señora, fuiste de mi.
Mira cómo, por quererte,
tienes al cabo mi vida,
y, si tu fueras servida,
dichosa fuera mi suerte.
Mas, pues no te pena nada
quanto yo peno por tí,
miembresete quan amada,
señora, fuiste de mi.




Ay amargas soledades  (Anônimo)

!Ay amargas soledades
de mi bellíssima Filis,
destierro bien empleado
del agravio que le hize!
!Ay horas tristes,
quan diferentes soy del que vistes!



Vida bona, vida bona (Juan Arañyes)

Vida bona, la vida bona,
esta vieja es la chacona.
Primera de cuatro sietes
de qué sirve que te pongas
em la mano del mortero
em la majilla dos rosas?
¿De qué sirve que te hagas
tortuga entre blandas tocas
Y el molin negro
finjas gravedad e honra
De qué sirve que te mirles
y que te frunzas de boca,
si jugando con los años
ganastes por setentona?
Vida bona, la vida bona,
esta vieja es la chacona.
Vida bona, la vida bona,
vida, vámonos a la gloria.
Si Dios dijo que era Vida,
Camino y Verdad notoria,
¿Que vida será más buena,
Alma, entre las vidas todas?
¿Que camino como aquel
a donde el alma reposa,
pues, si de los cielos torna?
Esta tienen por verdad
divina y humana historia:
quien otro camino segue
va al infierno por la posta.
Vida bona, la vida bona,
vida, vámonos a la gloria.



segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Alexandre Koyré - Sobre nossas influências.



"Não podemos esquecer, ademais, de que a 'influência' não é uma relação simples; pelo contrario, é bilateral e muito complexa . Não somos influenciados por tudo aquilo que lemos ou aprendemos. Em certo sentido, talvez o mais profundo, somos nós mesmos que determinamos as influências a que nos submetemos, nossos ancestrais intelectuais não são de modo algum dados a nós; nós é que os escolhemos, livremente. Pelo menos em grande parte."

KOYRÉ, Alexandre Do mundo fechado ao universo infinito. Rio de Janeiro/Sao Paulo: Forense Universitária/Edusp, 1979 (Coleçao Campo Teórico)     p. 17

Christopher Lasch - A Cultura do Narcisismo.



Existem livros e autores que atravessam um período de efervescência, uma “idade de ouro”. São muito lidos e relidos, recomendados, criticados e absorvidos de maneiras diversas. No entanto, com o tempo, caem numa penumbra... Alguns, produtos de modismos intelectuais passageiros, onde, detectados sua superficialidade e inconsistência, são devidamente olvidados. Outros, textos fundamentais das ciências humanas, no caso do objeto desta resenha, por diversas razões não despertam o mesmo interesse de antes, apesar dos seus méritos.

É o caso de A Cultura do Narcisismo: A vida americana numa época de esperanças em declínio. (Rio de Janeiro: Imago, 1983) do historiador norte-americano Christopher Lasch (1932-1994). Publicado originalmente em 1979. Em que pese o subtítulo e passadas pouco mais de três décadas, seu diagnóstico do século XX é muito preciso e pode ser adaptado à outras realidades nacionais, todavia, com o devido discernimento crítico. De certa forma o processo de Globalização (ou Mundialização) tende a ser, sob certos aspectos, uma norte-americanização política, cultural, econômica etc.
Esgotadíssimo (1), um exemplar usado pode chegar a R$250,00 em sebos virtuais. 



Desse modo, fenômenos sociais e culturais como o Big Brother Brasil, o vício de se ver exposto em todas as redes sociais da internet, a literatura de auto-ajuda, jovens agredindo homossexuais na Avenida Paulista, pais que satisfazem todos os desejos das crianças e que se culpam por não conseguir isso (e ficam pesarosos em repreendê-los e dizer alguns nãos), a proliferação de chavões e chavões pedagógicos que mais confundem do que esclarecem, ganham inteligibilidade após a leitura atenta desta obra.
Trata-se de um texto de leitura exigente, onde o autor mobiliza recursos da psicanálise, sociologia e história social, política e econômica, buscando a precisão conceitual, alcances e limites dos diversos discursos analisados. Requer do leitor atenção constante e razoáveis conhecimentos de psicologia e dos demais saberes citados. Bastante erudito, como todo bom trabalho histórico, mobiliza recursos teóricos da Escola de Frankfurt (em especial Th. Adorno), o conceito de tolerância repressiva de Herbert Marcuse e também ideias de Guy Debord e sua "Sociedade do Espetáculo" (quando Lasch analisa a espetacularização da política e o apagamento da distinção entre realidade e ilusão, verdade e ficção). Há também críticas fundamentadas à obra de Erich Fromm e Erving Goffmnan.
“Cultura do Narcisismo” diz respeito ao modo como as sociedades capitalistas se estruturaram, material e simbolicamente, a partir da década de 1970. Trata-se de uma preocupação intensa com a realização individual, estreitamente relacionada com o universo do consumo e as inúmeras opções que são apresentadas aos indivíduos, em detrimento aos ideais coletivos. Ocorre, então, um retorno ao próprio eu e um desinvestimento nas relações com os outros e com o mundo da experiência. O mercado, a indústria cultural e a publicidade (que para Lasch é quase um sinônimo de propaganda) criam diversas necessidades e desejos a serem alcançados e consumidos: beleza, juventude, excelente desempenho sexual, segurança, sucesso profissional e financeiro, entre outros que se tornam fetiches destinados a apaziguar o narcisismo danificado. Utilizo este termo porque, o narcisismo não é somente uma condição patológica, ele desempenha um papel de protetor psíquico, permitindo que o sujeito equilibre a percepção de suas necessidades em relação às dos outros. No entanto, a configuração capitalista atual exaspera os traços narcísicos, impedindo a identificação mutua entre os indivíduos e enfraquecendo a busca pelo bem comum.
O narcisista possui uma consciência de si muito pouco desenvolvida, somada a enorme necessidade de se ver refletido nos outros. Ele reforça seu sentimento de existir medindo o impacto de seus qualidades sobre os outros. Dominado pela angústia (que predomina ou substitui sobre o sentimento de culpa) ele se refugia no hedonismo e no consumismo.


Para Lasch a “Cultura do Narcisismo” também é uma “cultura da sobrevivência de um mínimo eu” que confrontado com a perspectiva do conflito nuclear, da burocracia desumanizante, da onipotência das grandes corporações multinacionais e do assistencialismo estatal, do pessimismo e crise de confiança com relação à política e aos ideais comuns. Estes sentimentos de insegurança e desamparo obrigam os indivíduos a acionar suas defesas narcísicas como forma de sobrevivência.
Nas palavras de Lasch “a sociedade burguesa parece ter esgotado por toda a parte seu estoque de ideias construtivas. Perdeu tanto a capacidade como a vontade de se confrontar com as dificuldades que ameaçam subjugá-la. A crise política do capitalismo reflete uma crise geral da cultura ocidental, que se revela por um desespero difundido de compreender o curso da história moderna ou sujeitá-lo a uma direção racional.” 2

Compreender a dimensão psicológica articulada à social, apreendendo os traços narcísicos que aparecem na vida cotidiana constitui, portanto, o núcleo teórico-metodológico do livro. Trata-se de um trabalho de historiador que dialoga com a Sociologia, a Psicanálise e a Psicologia Social. Ainda mais porque a desvalorização da História (seja a História-saber ou a História compreendida como fatos do passado humano) é um aspecto fundamental da crise civilizacional de que trata o livro, pois:

“O narcisista não se interessa pelo futuro porque, em parte, tem muito pouco interesse pelo passado. Acha difícil interiorizar  associações felizes ou criar um estoque de lembranças amoráveis para enfrentar a última parte de sua vida, a qual, embora nas melhores condições, sempre traz tristeza e dor. Em uma sociedade narcisista (…) a desvalorização cultural do passado reflete não só a pobreza das ideologias predominantes, as quais perderam o pulso da realidade e cederam à tentativa de dominá-la, mas a pobreza da vida interior do narcisista. Uma sociedade que fez da 'nostalgia' uma mercadoria comercial, repudia, pelo lado cultural, a sugestao de que a vida no passado era, sob qualquer aspecto, melhor que a vida atual. Tendo trivializado o passado, ao igualá-lo a estilos ultrapassados de consumo, modas e atitudes, dos quais abriram mão, as pessoas, hoje em dia, ressentem-se de qualquer um que recorra ao passado para sérias discussões sobre as condições contemporâneas, ou que tente usar o passado como um padrão com que julgar o presente.
pseudo-progressista em favor do status quo. Contudo, sabemos agora – graças à obra de Christopher Hill, E.P. Thompson e de outros historiadores – que muitos movimentos radicais do passado extraíram força e sustento do mito ou memória de uma era áurea no passado ainda mais distante. Esta descoberta histórica reforça o critério psicanalítico de que as recordações amoráveis se constituem numa fonte psicológica indispensável na maturidade, e que aqueles que não conseguem recorrer às recordações de relações amoráveis no passado sofrem, como resultado, tormentos terríveis. A crença de que, em alguns aspectos, o passado foi um tempo mais feliz, de modo algum baseia-se numa ilusão sentimental; tampouco leva a uma paralisação retrógada e reacionária da volição política.” 3

A chave para a compreensão da “cultura do narcisismo” está na degradação do trabalho, em especial a partir da década de 1920. Naquela época houve a transição da prioridade dada à produção e produtividade para a prioridade ao consumo. A publicidade tomou a missão de convencer as pessoas de que a felicidade estava no lazer e na intimidade doméstica, e não mais no trabalho bem realizado. Assim estão colocados os alicerces do que chamamos de sociedade de consumo, onde são projetadas imagens de satisfação imediata, que se plenifica no consumo de bens, serviços e experiências:

“A propaganda de mercadorias serve a uma dupla função. Em primeiro lugar, ela defende o consumo como uma alternativa para o protesto e a rebelião. (…) O cansado operário, em vez de tentar mudar as condições de seu trabalho, procura a renovação ao tornar mais animado seu ambiente imediato, com novos bens e serviços.(...) Em segundo lugar, a propagando do consumo transforma a própria alienação uma mercadoria. Ela se dirige à desolação espiritual da vida moderna e propõe o consumo como sendo a cura. Ela não somente promete diminuir todas as velhas infelicidades , das quais a carne é herdeira; cria ou exacerba novas formas de infelicidade – insegurança pessoal, ansiedade pelo status, ansiedade dos pais sobre sua capacidade de satisfazer às necessidades dos mais jovens. Parece fora de moda perto de seus vizinhos? Seus filhos tem tanta saúde quanto os deles? São tão populares? Saem-se tão bem na escola? A publicidade institucionaliza a inveja e suas ansiedades resultantes.” 4

Outro elemento importante, consequência da cultura narcisista é o fato da sociedade ter se tornado “terapêutica”, em ritmo crescente nas décadas finais do século XX. A educação dos filhos, relacionamento entre os cônjuges, a vida escolar e o cotidiano do ambiente de trabalho é mediado pela perspectiva terapêutica, seja da psicologia e/ou da psiquiatria, enfatizando a “autenticidade”, a “criatividade” (que parece vir do nada ou melhor, dispensaria a disciplina intelectual e esforço próprio), o “otimismo”, as chamadas “críticas construtivas”. Tudo isto só encobre os conflitos e problemas mais profundos sob superfície de “consenso” e “harmonia”. Esta nova configuração social necessita de um novo tipo de controle social, mais sutil, pois:

“A popularização dos modos terapêuticos de pensamento desautoriza a autoridade, em especial no lar e na sala de aula, enquanto existe a dominação sem críticas. As formas terapêuticas de controle social, ao abrandar ou eliminar a relação adversa entre subordinados e superiores, torna cada vez mais difícil para os cidadãos defender-se contra o Estado, ou para os operários resistir às demandas da corporação. À medida que as ideias de culpa e inocência perdem seu sentido moral e até meso legal, os que estão no poder não mais impõem suas regras por meio de éditos autoritários de juízes, magistrados, professores e pregadores. A sociedade não mais espera que as autoridades articulem um código de leis e de moralidade claramente racional e elaboradamente justificável; tampouco espera que o jovem interiorize os padrões morais da comunidade. Exige somente conformidade às convenções das relações cotidianas, sancionada por definições psiquiátricas do comportamento normal.” 5

Esta ideia de “sociedade terapêutica” e/ou “Estado terapêutico é um tanto tributária dos pensamentos de Ivan Illich, o célebre teórico da desescolarização e criador do termo “medicalização da sociedade”. Cabem algumas observações; certamente não se trata de uma junta de médicos e psicólogos que se reuniram na calada da noite maquinando planos maquiavélicos de dominação política e social. Seria uma análise de um primarismo abissal e estaria coisificando os saberes médicos e psi, que possuem sua pertinência em si mesmos. Como se não existissem psicólogos e psiquiatras conscientes do uso indevido de suas ciências. São as relações de poder entre indivíduos e instituições que se apropriam e mobilizam conceitos utilizados por estes profissionais em contextos precisos e específicos para o uso em certos fins. Esta socialização de conceitos psiquiátricos, psicológicos e mesmo psicanalíticos serve para despolitizar o cotidiano, transformando o que era uma questão de luta e negociação política num mero problema técnico, a ser resolvido conforme esquemas pré-determinados. De qualquer forma a “psicologização” de aspectos do cotidiano ocidental é evidente, ainda que tal conceito deva ser melhor refinado.


Christopher Lasch vê certa ambiguidade no movimento feminista. De um lado empreendeu críticas e atitudes de mudanças urgentes com relação ao mundo do trabalho, das relações entre os sexos e destacou aspectos que a esquerda e sindicalismo tradicionais não deram importância. Por outro lado também está imerso no narcisismo contemporâneo, ainda que involuntariamente, em certos casos, alimentando a ilusão de uma sociedade andrógina, sem diferenças essenciais entre os gêneros. Há também a questão do enfraquecimento da estrutura familiar, com o apagamento da figura paterna, fragilização do vínculo conjugal, mães com enormes jornadas de trabalho (doméstico e fora de casa); situação que perpetua a dependência do mercado de “especialistas” em criação de filhos, convivência doméstica e sexualidade.

Muito se escreveu sobre o estatuto ideológico do autor. O fato de um intelectual de esquerda ser extremamente crítico quanto a sua tradição política ( inconsistências, pontos cegos que não levam a caminho algum) não deveria causar estranheza. Não demorou muito para a criação de uma imagem de conservador e reacionário, direitista, nostálgico de sociedade burguesa do século XIX, ou mesmo do mundo aristocrático pré-Revolução Francesa, antifeminista, elitista e outras qualificações. Na maioria das vezes, estes juízos negativos são produto de uma leitura desatenta e preguiçosa, ou simplesmente má-fé, profundo desconforto de quem compreendeu as implicações das análises de Lasch e se recusa a refletir, preferindo recorrer à desqualificação intelectual, política e argumentos ad hominem, amesquinhando a discussão. Lamentavelmente parte do pensamento de esquerda considera persona non grata quem pensa diferente ou discorda de suas posições, preferindo este expediente cômodo da arrogância e detratação do outro. O estilo de Lasch e sua estratégia de argumentação são um tanto elípticos, com elementos importantes a serem apreendidos nas entrelinhas. Uma leitura mais apressada pode nos levar a uma conclusão totalmente diversa àquela pretendida pelo autor. Essa forma de exposição seguramente provocou muitas incompreensões desnecessárias.

Minhas críticas? Em especial a dois aspectos. Primeiro, há um excessivo apego ao ideário de Theodor W. Adorno quanto a onipresença da indústria cultural. Nada de errado em privilegiar a cultura erudita, elaborada, mais complexa, na formação das novas gerações. O dispositivo escolar deve abranger principalmente o que não é imediatista e facilmente apreendido. O famoso slogan “a educação deve partir da realidade do aluno” já estragou muito o trabalho formativo. Nem se deve minimizar o poder homogenizante da máquina ao uniformizar e propor gostos sem o devido espaço para a crítica, o enfraquecimento e destruição de culturas minoritárias, etc... Todavia, a fronteira do erudito e o popular não é rígida, e há diálogos e influências recíprocas. O receptor não é tão submisso, passivo ao sistema midiático, mesmo em relação à propaganda, embora seu grau de sedução seja grande e não deve de forma alguma ser subestimado. Ele reinterpreta as mensagens e, sob certas condições resistir frente a elas (como podemos observar nos estudos de Michel de Certeau). Em segundo lugar, um refinamento maior na percepção em torno do relacionamento indivíduo e sociedade poderia ser conseguido ao se apropriar da sociologia de Norbert Elias. Desse modo a análise poderia ser menos mecânica em algumas passagens: o sujeito nem sempre está eternamente constrangido pelo aparelho estatal e este nem sempre está a mercê de interesses particulares. Sem negar a força da burocracia e suas defesas e constrangimentos, o Estado é parte da sociedade e não externo à ela, podendo ser um campo de lutas, em que mobilização social, após muito esforço, pode conseguir fazer valer seu direitos. Portanto nada é homogêneo e há sempre conflito.

É corretor afirmar que "A Cultura do Narcisismo." envelheceu um pouco, mas isto não é um demérito no campo das ciências humanas. no geral, mantém-se perene, dialogando com autores mais em voga hoje como Pierre Bourdieu, Michel Foucault, Jean Baudrillard, Gilles Lipovetsky, Zygmunt Bauman, entre outros. Aliás, Lasch foi contemporâneo deste cinco pensadores 6 , ainda que não os cite todos nominalmente, é possível  encontrar ecos deles em seus escritos, sempre criticamente. Para concluir, um clássico altamente recomendável, a ser relido ou descoberto, apesar do sabor de desolação e de grandes oportunidades perdidas que ele deixa,  de maneira alguma produz imobilismo ou niilismo.


Link para baixar: Mega

Notas:
1. Dos livros de Christopher Lasch traduzidos para o português, além da Cultura do Narcisismo, também estão fora de catálogo:  Refúgio num mundo sem coração. A família: santuário ou instituição sitiada?  Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1991, O Mínimo Eu -  A Sobrevivência psíquica em tempos difíceis. São Paulo: Brasiliense, 1986,  A rebelião das elites e a traição da democracia. Rio de Janeiro: Ediouro, 1995. Somente A Mulher e a Vida Cotidiana: Amor, Casamento e Feminismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999 está disponível nas grandes livrarias.
2. A Cultura do Narcisismo: A vida americana numa época de esperanças em declínio, p.11
3. op. cit,  pp.15-16
4. op. cit., p.103
5. op. cit, p.227
6. É perceptível certa influência de Foucault, quando Lasch descreve a nova configuração do controle social.