Conforme prometido, aqui está a versão em PDF do livro de Christopher Lasch, "O Mínimo Eu: sobrevivência psíquica em tempos difíceis, (Tradução: José Roberto Martins Filho, São Paulo: Brasiliense,1986). Neste Download.
História, Cultura & Memória. "... o que permaneceu incompreendido retorna: como uma alma penada, não tem repouso até que seja encontrada resolução e libertação." Sigmund Freud
terça-feira, 23 de agosto de 2011
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
A Cultura do Narcisismo em PDF.
Converti o arquivo do livro A Cultura do Narcisismo, de Christopher Lasch, que havia scaneado no início deste no para o formato PDF. Isto torna sua leitura mais agradável do que a forma digitalizada em jpg, e é possivel selecionar trechos ou páginas. Em breve farei o mesmo com O Mínimo Eu.
Atualização 2021: MEGA
domingo, 7 de agosto de 2011
Poesia da Grécia Antiga traduzida por Péricles Eugenio da Silva Ramos
Péricles Eugênio da Silva Ramos (1919 -1992) destacou-se como um dos representantes da chamada Geração de 45 na poesia brasileira. Formou-se na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Além de poeta foi tradutor, crítico literário, jornalista e professor. Constituiu, também,carreira na administração pública, chegando a ser chefe da Casa Civil do Governo do Estado de São Paulo em 1976. Destacou-se também na área administrativa ligada à cultura: como diretor técnico do Conselho Estadual de Cultura, participando da criação de vários museus em São Paulo, entre eles o Museu da Imagem e do Som - MIS, Museu de Arte Sacra e Museu da Casa Brasileira - MCB.
Sua obra poética compreende os livros Lamentação Floral – 1946, Sol sem Tempo – 1953, Luar de Ontem – 1960, Futuro – 1968 e A Noite da Memória - 1988
Traduziu poemas de, entre outros, Byron, François Villon, John Keats, William Shakespeare e Manuel de Góngora. Também organizou antologias de diversos poetas e publicou os livros de ensaios O Verso Romântico e Outros Ensaios (1959) e Do Barroco ao Modernismo (1967). Entre as antologias que organizou está Poesia Grega e Latina, editada em 1964 pela Editora Cultrix (infelizmente fora de catálogo e raríssima), da qual selecionei alguns poemas, segundo meu gosto pessoal.
O legado da poesia helênica, tal como o teatro, é bastante irregular, com poemas completos e outros bastante fragmentados. Há autores que nunca vamos conhecer. Todavia, o que sobreviveu não nos impede de apreciar a beleza e força destes versos.
Mimnermo de Colofão (século VII ª a.C.)
Como as folhas que brotam
na primavera em flor
e crescem rápidas à luz do sol,
assim é que nós somos;
como essas folhas, por exíguo prazo
podemos usufruir da juventude em flor,
desconhecendo, por divina graça,
quer o mal, quer o bem.
A cada lado estão as negras Parcas:
traz uma a cruel velhice, a outra a morte.
Da juventude o fruto dura muito pouco,
não mais que sobre a terra à luz do sol;
e quando possa a plenitude desse tempo
e então melhor morrer do que viver.
Arquíloco de Paros (século VII ª a.C.)
Com a lança eu alcanço
meu pão de cevada;
com a lança eu consigo
o meu vinho ismárico;
na lança apoiado
eu bebo esse vinho.
― ‖ ― ‖ ―
Com um ramo de mirto
e uma bela rosa
ela brincava;
e os cabelos
lhe caíam pelos ombros
e pelas costas,
como sombras...
― ‖ ― ‖ ―
Tenho uma grande arte
eu firo duramente
aqueles que me ferem.
Alcmeão (Lacônia, século VII ª a.C.)
Dormem os píncaros e os precipícios,
os promontórios e os desfiladeiros,
e todo gênero de repteis
alimentados pela terra negra,
dormem as feras das montanhas
e o povo das abelhas,
dormem os monstros nos abismos
do mar de púrpura:
e dorme a tribo inteira
dos pássaros de longas asas.
Semônides de Amorgos (século VII ª a.C.)
Meu filho, o fim de tudo está nas mãos
do trovejante Zeus,
o qual dispõe como bem quer.
O saber não se encontra ao nosso alcance:
como animais vivemos nosso breve dia,
desconhecendo como o céu conduzirá
ao seu destino cada coisa.
Nutrem-nos esperança e enganadora crença,
e ansiosamente é que lutamos
para alcançar o inatingível...
Contemplo como o igual dos próprios deuses
esse homem que sentado à tua frente
escuta assim de perto quando falas
com tal doçura,
e ris cheia de graça. Mal te vejo
o coração se agita no meu peito,
do fundo da garganta já não sai
a minha voz,
a língua como que se parte, corre
um tênue fogo sob a minha pele,
os olhos deixam de enxergar, os meus
ouvidos zumbem,
e banho-me de suor, e tremo toda,
e logo fico verde como as ervas,
e pouco falta para que eu não morra
ou enlouqueça.
― ‖ ― ‖ ―
A lua já se pôs,
as Plêiades também:
meia-noite; foge o tempo,
e estou deitada sozinha.
― ‖ ― ‖ ―
O amor agita meu espírito
como se fosse um vendaval
a desabar sobre os carvalhos.
Híbrias (c. século VII ª a.C.)
Minha grande riqueza
é uma lança e uma espada,
e à frente do corpo
um formoso broquel.
Com eles eu aro,
com eles eu colho,
com eles eu piso
o fruto das vilhas,
com eles os servos me chamam Senhor
Mas os que não ousam
levar lança e espada,
e à frente do corpo
um formoso broquel,
os joelhos me abraçam
caindo a meus pés,
e como a um Senhor
me prestam respeito,
e chamam-me até com o nome de rei.
Anacreonte (Teos, Iônia, c. 560 a.C.)
Galgo o rochedo
e dele precipito-me
às ondas espumantes,
ébrio de amor.
― ‖ ― ‖ ―
Tem olhos meigos, como
um pequenino cervo
que há pouco tempo mama,
ao ser abandonado
pela graciosa mãe
no meio da floresta.
― ‖ ― ‖ ―
Encaneceram minhas têmporas
tenho a cabeça calva e branca,
deixou de estar comigo
a amável juventude,
e já meus dentes são de velho
Resta-me breve prazo
de doce vida; e assim
eu ergo o meu lamento
com pavor do outro mundo.
Terrível é a mansão da morte,
árduo o caminho para lá;
é certo que uma vez lá embaixo
não haverá retorno.
― ‖ ― ‖ ―
Agatão, o fortíssimo
por Abdera morreu:
ao pé de sua pira
chora toda a cidade
pois Ares, que ama o sangue,
jamais levara um jovem como ele
no turbilhão de uma batalha odiosa.
Teógnis de Mégara (século VI ª a C.)
Jovens, dormi com as moças
de vossa idade, e desfrutais
de labor e delícias amorosos.
Que no banquete soem flauta e canto.
Para homens e mulheres, que há de mais sábio?
De que me valem honras e riquezas?
O prazer e a alegria a tudo excedem.
…................................................
O amor é amargo e doce, encantador e cruel,
enquanto, ó Cirno, os jovens o pretendem:
doce é alcançá-lo,
mas triste é procurá=lo e não o achar.
― ‖ ― ‖ ―
Ninguém, ó Cirno, causa a sua própria ruína,
nem por si mesmo é que prospera:
tudo nos vem dos deuses.
Ninguém sabe se os atos que pratica
terão efeito bom ou mau:
vêm deles ora o bem, quando se quer o mal,
vêm deles ora o mal, quando se quer o bem.
Ninguém alcança, em tudo, o que deseja;
o desamparo traça raias
que não permitem ir à frente.
Nada sabemos, nós, os homens,
e é vão o que pensamos;
os deuses tão somente cumprem tudo
segundo os seus desígnios.
Simônides de Ceos (c. 556 – 468 a. C)
Homem mortal,
não queiras predizer
o que o Amanhã trará,
nem, vendo alguém feliz,
o tempo em que há de assim continuar.
É rápida a mudança:
tão rápido não é o voo instável
da libélula de asas céleres.
― ‖ ― ‖ ―
Com a doce música,
sobre sua cabeça
faziam ninho
os pássaros inumeráveis,
e da água azul saltavam peixes.
A sorte dos mortais
cresce num só momento;
e um só momento basta
para a lançar por terra,
quando o cruel destino
a venha sacudir.
Efêmeros! Que somos?
Que não somos? O homem
é o sonho de uma sombra.
Mas quando os deuses lançam
sobre ele a sua luz,
claro esplendor o envolve
e doce é então a vida.
― ‖ ― ‖ ―
Melhor é desejar do céu
coisas que assentem a um espírito mortal,
sabendo o que se encontra a nossos pés,
e qual a sorte por que nascemos.
Ó minh'alma, não aspires
a uma existência de imortal
mas goza plenamente
tudo o que esteja ao teu alcance.
― ‖ ― ‖ ―
De uma só raça, apenas uma,
nós somos, deuses e homens:
de uma só mãe tiramos nosso alento.
Separa-nos porém,
o desigual poder: o homem é nada
mas para os deuses
morada para sempre inabalável
é o céu de brônzeo piso.
Pela forma corpórea, ou no vigor do espírito,
somos no entanto como os iortais,
embora não saibamos onde,
no meio de que dias ou que noites,
o Destino escreveu que deveremos
findar nossa carreira.
― ‖ ― ‖ ―
Vim para celebrar os filhos
de pais sublimes e de mães tebanas,
quando, ao abrir-se a câmara das Horas
dos véus de púrpura,
a primavera, perfumada nos concede
toda uma floração tão doce como o néctar.
Pela terra imortal brotam então
os meigos tufos das violetas,
e de rosas enfeitam-se os cabelos,
enquanto a voz das flautas se une à das canções
e os coros se erguem para Sêmele
de fronte ornada por um diadema.
― ‖ ― ‖ ―
Enquanto aqui é noite,
o sol fulgura vigoroso para eles
no mundo subterrâneo;
e diante da cidade,
pelos campos de rosas carmesins, o incenso
derrama a sua sombra,
e os ramos vergam-se com frutos de ouro.
Uns se divertem com cavalos ou lutando,
enquanto jogam outros, ou a lira tocam,
e entre eles a felicidade é como a árvore
que já cresceu de todo e se acha em flor.
Por essa terra amável
um doce aroma sem cessar se espalha:
nos altares dos deuses eles mesclam
arômatos de toda a espécie
ao fogo que de longe brilha.
Denso negror expelem no outro lado
os lentos rios da sombria noite.
Praxila de Sicião (século V ª a. C)
A luz do sol
eis o que deixo de mais belo:
depois as nítidas estrela
e o rosto da lua,
as melancias já maduras
e as maçãs e as peras.
― ‖ ― ‖ ―
Ó tu que me olhas lindamente
através da janela
virgem no rosto,
embaixo esposa.
Íon de Quios (século V ª a. C)
Bravia criança de taurino rosto,
jovem e velho, ó tu, o mais amável
servidor dos desejos trovejantes,
vinho que o espírito levantas
e és o Senhor dos homens.
Licofrônides (século V a.C ou IV a. C?)
Rosa, gorro, sandália e esta lança
que mata as feras
como bela oferenda eu te consagro:
meus pensamentos
voltam-se agora para linda jovem
amada pelas graças.
Erina (c. Século IV a. C ?)
Ó estelas e Sereias, urna funerária
que encerras minha pouca cinza,
saudai a gente que se acerca de meu túmulo,
seja daqui ou forasteira.
Contai: mal me casara, a morte me colheu;
o nome que meu pai me pôs
foi Báucis; Telos, o lugar onde nasci:
e Erina, minha amiga,
em meu sepulcro estas palavras inscreveu.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
E. P. Thompsom: A miséria da teoria (excertos).
Homem de pensamento e ação, o historiador marxista inglês Edward Palmer Thompson (1924-1993) é um dos intelectuais mais influentes no universo das ciências humanas. Crítico do Stalinismo, permaneceu dentro da tradição marxista, desmontando concepções mecanicistas e autoritárias. Também foi marcante seu engajamento no movimento anti-nuclear na década de 1980. Lecionou em várias universidades, e também dedicou-se à formação de jovens e adultos das camadas populares. Suas pesquisas se constituíram notadamente no campo da História do Trabalho e na História da Cultura, com trabalhos decisivos como A Formação da Classe Operária Inglesa (1963); Senhores e Caçadores (1975); A Miséria da Teoria (1978) e Costumes em Comum (1991). Neles 1, Thompson analisou as questões e discursos da classe trabalhadora, procurando mostrar que os operários são sujeitos construtores da história, dentro de certos limites. Desse modo, o conceito de classe social não se resume apenas em termos econômicos, mas a um conjunto múltiplo de experiências construídas historicamente, herdadas e/ou partilhadas e articuladas em torno à sistemas de valores, tradições, sentimentos identitários que unem um grupo, reivindicações, projetos, formas de subsistir, linguagens, crenças, etc. Desse modo, a experiência de classe é determinada pelas relações de produção no qual os homens nascem ou entram involuntariamente, a consciência de classe é a forma em que estas experiências são tratadas em termos culturais. Assim, a cultura não é mero reflexo da instância econômica, mas um elemento dinâmico, complexo e que se inter-relaciona com o político, o social e o próprio econômico, transformando-os (e também sendo reelaborada por eles).
No livro A Miséria da Teoria ou um Planetário de Erros, Thompson polemiza com o estruturalismo de Louis Althusser e seguidores. É um de texto extrema criticidade,escrito de maneira espirituosa e irônica.Thompson considera prejudicial ao conhecimento um tipo de fazer histórico ancorado nos conceitos da linguistica estrutural francesa (e do linguistic turn, mais contemporaneamente).
E. P. Thompson formou-se dentro da tradição empírica britânica, que agregou pensadores de vários matizes políticos. Fato que não impede o historiador de apropriar-se dela criticamente. Para ele não é vergonhoso,demeritório ou démodé, defender certo grau de objetividade nos estudos históricos. Atualmente, onde há uma apropriação superficial e sectária de ideias do pós-modernismo, alguns consideram o historiador inglês (ou todo aquele que afirma a existência da realidade e do pensamento fora dos jogos de linguagem, defende certo realismo epistemológico e critica o relativismo cognitivo) um tanto "convencional", "platônico" ou mesmo "positivista" (termos vagos e xingamentos epistemológicos que serve mais para estigmatizar do que esclarecer e iniciar uma discussão mais produtiva).
Entre buscar a objetividade total, como uma lente ou janela cristalina, e se entregar a um relativismo absoluto (onde tudo está embaçado e vale "qualquer coisa", algo contraditório e mesmo anti-intelectualista) existem um espectro de possibilidades. Encontrar a verdade nos estudos históricos é possível; restituindo aos acontecimentos do passado a complexidade de relações (políticas, culturais, religiosas, conflitos, negociações...) que os forjaram, sempre consciente da tensão dialógica e produtiva entre os registros de que dispomos e selecionamos e a visão do pesquisador ( que não sucumbe ao subjetivismo exarcebado, mas o transcende).
“(…) Mas um historiador de tradição marxista tem o direito de lembrar a um filósofo marxista que os historiadores também se ocupam, em sua prática cotidiana, da formação da consciência social e de suas tensões. Nossa observação raramente é singular: esse objeto do conhecimento, esse fato, esse conceito complexo. Nossa preocupação, mais comumente, é com múltiplas evidências, cuja inter-relação é, inclusive, objeto de nossa investigação. Ou, se isolamos a evidência singular para um exame à parte, ela não permanece submissa, como a mesa, ao interrogatórintro; agita-se, nesse meio tempo, ante nossos olhos. Essa agitação, esses acontecimentos, se estão dentro do 'ser social', com frequencia parecem chocar-se, lançar-se sobre, romper-se contra a consciência social existente. Propõem novos problemas e, acima de tudo, dão origem continuadamente à experiência - uma categoria que por mais imperfeita que seja, é indispensável ao historiador, já que compreende a resposta mental e emocional seja de um indivíduo ou de um grupo social, a muitos acontecimentos inter-relacionados ou a muitas repetições do mesmo tipo de acontecimento.” 2
“(...) a experiência é valida e efetiva, mas dentro de determinados limites: o agricultor 'conhece' suas estações, o marinheiro 'conhece' seus mares, mas ambos permanecem mistificados em relação à monarquia e à cosmologia.” 3
“Mas a questão que temos imediatamente à nossa frente não é a dos limites da experiência, mas a maneira de alcançá-la e produzi-la. A experiência surge espontaneamente no ser social, mas não surge sem pensamento. Surge porque homens e mulheres (e não apenas filósofos) são racionais e refletem sobre o que acontece a eles e ao seu mundo. Se tivermos de empregar (a difícil) noção de que o ser social determina a consciência social, como iremos supor que isto se dá? Certamente não iremos supor que o 'ser' está aqui, como uma materialidade grosseira da qual toda idealidade foi abstraída, e que a 'consciência' (como idealidade abstrata) está ali. Pois não podemos conceber nenhuma forma de ser social independentemente de seus conceitos e expectativas organizadores, nem poderia o ser social reproduzir-se por um único dia sem o pensamento. O que queremos dizer é que ocorrem mudanças no ser social que dão origem a experiência modificada; e essa experiência é determinante, no sentido de que exerce pressões sobre a consciência social existente, propõe novas questões e, proporciona grande parte do material sobre o qual se desenvolvem os exercícios intelectuais mais elaborados. A experiência, ao que se supõe, constitui uma parte da matéria-prima oferecida aos processos do discurso científico da demonstração. E mesmo alguns intelectuais atuantes sofreram, eles próprios, experiências.” 4
“(...) Mas devo lembrar a um filósofo marxista que conhecimentos se formaram, ainda se formam, fora dos procedimentos acadêmicos. E tampouco eles tem sido, no teste da prática, desprezíveis. Ajudaram homens e mulheres a trabalhar os campos, a construir casas, a manter complicadas organizações sociais, e mesmo, ocasionalmente, a questionar eficazmente as conclusões do pensamento acadêmico.” 5
“(...) A experiência não espera discretamente, fora de seus gabinetes, o momento em que o discurso da demonstração convocará a sua presença. A experiência entra sem bater a porta e anuncia mortes, crises de subsistência, guerra de trincheira, desemprego, inflação, genocídio. Pessoas estão famintas: seus sobreviventes tem novos modos de pensar em relação ao mercado. Pessoas são presas: na prisão, pensam de modo diverso sobre as leis. Frente a essa experiências gerais, velhos sistemas conceituais podem desmoronar e novas problemáticas podem insistir em impor sua presença.” 6
“O que Althusser negligencia é o diálogo entre o ser social e a consciência social. Obviamente, esse diálogo se processa em ambas as direções. Se o ser social não é uma mesa inerte que não pode refutar o filósofo com suas pernas, tampouco a consciência social é um recipiente passivo de 'reflexões' daquela mesa. Evidentemente a consciência, seja como cultura não autoconsciente, ou como mito, ou como ciência, ou lei, ou ideologia articulada, atua de volta sobre o ser, por sua vez: assim como o ser é pensado, também o pensamento é vivido – as pessoas podem, dentro de limites, viver as expectativas sociais ou sexuais que lhes são impostas pelas categorias conceituais dominantes.” 7
“(...)Numa tal equação, o “pensamento' (se é 'verdadeiro') só pode representar o que é adequado às propriedades determinadas de seu objeto real, e deve operar dentro desse campo determinado. Se escapa a isto, então se transforma num remendar malfeito, extravagante e especulativo, e na extrapolação de um 'conhecimento' de mesas, a partir de um fanatismo preexistente.” 8
“Essas dificuldades são imensas. Mas as dificuldades se multiplicam muitas vezes quando examinamos não um fato ou conceito (realeza) mas aqueles acontecimentos que a maioria dos historiadores considera centrais para seu estudo: o 'processo' histórico, a inter-relação de fenômenos díspares (como economias e ideologias), a causação. A relação entre o pensamento e seu objeto torna-se agora extremamente complexa e mediata; e, ademais, o conhecimento histórico resultante estabelece relações entre fenômenos que nunca poderiam ser vistos, sentidos ou experimentados pelos atores desse modo naquela época; e organiza as constatações de acordo com conceitos e dentro de categorias que eram desconhecidos dos homens e mulheres cujos atos constituem o objeto de estudo - toda essas dificuldades são tão imensas que se torna evidente que a história 'real' e o conhecimento histórico são coisas totalmente distintas. E certamente são. Que mais poderiam ser? Não poderá o objeto (história real) permanecer ainda numa relação 'objetiva' (empiricamente verificável) com seu conhecimento, uma relação que é (dentro de limites) determinante?” 9
“Os conhecimentos e regras históricas são, com frequência, dessa ordem. Exibem extrema elasticidade e permitem grande irregularidade; o historiador parece estar fugindo ao rigor, ao mergulhar por um momento nas mais amplas generalizações, quando no momento seguinte se perde nas particularidades das qualificações em qualquer caso especial. Isto provoca desconfiança, e mesmo hilaridade, em outras disciplinas. (...)A história não conhece verbos regulares.” 10
“A história não é uma fábrica para a manufatura da Grande Teoria, como um Concorde do ar global; também não é uma linha de montagem para a produção em série de pequenas teorias. Tampouco é uma gigantesca estação experimental na qual as teorias de manufatura estrangeira possam ser 'aplicadas', 'testadas' e 'confirmadas'. Esta não é absolutamente sua função. Seu objetivo é reconstituir, 'explicar', e 'compreender' seu objeto: a história real. As teorias que os historiadores apresentam são dirigidas a esse objetivo, dentro dos termos da lógica histórica, e não há cirurgia que não possa transplantar teorias estrangeiras, como órgãos inalterados, para outras lógicas estátícas, conceituais, ou vice-versa. Nosso objetivo é o conhecimento histórico; nossas teorias são apresentadas para explicar tal formação social particular no passado, tal sequência particular de causações” 11
“A explicação histórica não pode tratar de absolutos e não pode apresentar causas suficientes, o que irrita muito algumas almas simples e impacientes. Elas supõem que, como a explicação histórica não pode ser Tudo, é portanto Nada, apenas uma narração fenomenológica consecutiva. É um engano tolo. A explicação histórica não revela como a história deveria ter se processado, mas porque se processou dessa maneira, e não de outra; que o processo não é arbitrário, mas tem sua própria regularidade e racionalidade; que certos tipos de conhecimentos (políticos, econômicos, culturais) relacionam-se, não de qualquer maneira que nos fosse agradável, mas de maneiras particulares e dentro de determinados campos de possibilidades; que certas formações sociais não obedecem a uma 'lei', nem são os 'efeitos' de um teorema estrutural estático, mas se caracterizam por determinadas relações e por uma lógica particular de processo. E assim por diante. E muito mais. Nosso conhecimento pode satisfazer a alguns filósofos, mas é o bastante para nos manter ocupados.” 12
Notas:
1. A Formação da Classe Operária Inglesa ─ E. P. Thompson, Rio de Janeiro, Paz e Terra,1987-1988, 3 vols., tradução de Denise Bottman; Senhores e caçadores: as origens da lei negra.Rio de Janeiro, Paz e Terra,1987 tradução de Denise Bottman;A Miséria da teoria. ..... miséria da teoria ou um planetário de erros. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de. Janeiro: Zahar, 1981; Costumes em Comum:Estudos Sobre a Cultura Popular Tradicional. tradução de Rosaura Eichemberg São Paulo: Companhia das Letras, 1998
2. E.P. Thompson A Miséria da teoria, p.15
3.op cit. p.16
4.op cit. p.16
5.op cit p.17
6.op cit. p.17
7.op cit. p.17
8.op cit. p.17
9.op cit. p. 28
10.op cit. p.57
11.op cit. p. 57
12. op cit. p. 61
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Philip Glass : Akhnaten
Tomei contato com esta obra de Philip Glass (cujo download disponibilizo para os leitores) pela primeira vez em 1992, através da rádio Cultura FM, que havia preparado uma apresentação bastante caprichada desta ópera. O programa contava com a apresentação da obra na íntegra, com depoimentos do próprio Philip Glass, do historiador Shalom Goldman, que colaborou na pesquisa e composição do libreto e do diretor de teatro Gerald Thomas. A tradução em português das narrações do escriba foram feitas pelo saudoso locutor Gilberto Rocha. Era uma reprise, de um evento feito pela emissora em 1988, se não me engano.
Akhenaten é uma ópera em três atos para orquestra, coro e solistas com música de Philip Glass, composta entre 1982 e 1983, sob encomenda Orquestra da Ópera Estatal de Stuttgart, que estava sendo reestruturada. O libreto foi elaborado por Philip Glass , em associação com Shalom Goldman, Robert Israel e Richard Riddell . O texto vocal foi elaborado a partir de fontes originais por Shalom Goldman . Interpretada pelo Coro e Orquestra da Ópera Estatal de Stuttgart, em 1984, com direção de Dennis Russell Davies. Infelizmente não existem vídeos ou filmes desta montagem, cujas gravações foram lançadas em cd, em 1987, pela CBS.
Akhnaten (ou Akhenaton) foi um faraó da XVIII Dinastia egípcia (começou a reinar por volta de 1364 a. C.). Parte da historiografia credita a este faraó uma reforma religiosa que teria instituído uma religião monoteísta na sociedade egípcia, tradicionalmente politeísta. Alterou o seu nome, Amenhotep , pois continha o nome de Amon, deus soberano de Tebas, para Akhnaten (que significa "do agrado de Aton"). Sem desmerecer a possibilidade de alguma sinceridade em criar uma nova espiritualidade, não se pode negar que existiam fatores como a necessidade de concentrar o poder na figura do faraó, ou para apenas retirar o poderio dos sacerdotes. Desse modo, Akhenaton instituiu o deus Aton como a única divindade que deveria ser cultuada, sendo o próprio faraó o único representante e mediador dessa divindade. Ao contrário de outros deuses que eram representados por ídolos antropomórficos, humano ou semi-antropomórficos, Aton foi o primeiro conceito totalmente abstrato de Deus, representado pelo disco solar. Entretanto, após 17 anos de governo, esta reforma foi desconstruída vigorosamente pelos nobres e sacerdotes de Amon, que lhe faziam oposição, retornando os cultos anteriores, impossibilitando o faráo de tentar algum acordo com o clero de Amon. E sua memória foi apagada da história do Egito, embora as circunstâncias de sua morte ainda sejam meio nebulosas.
A força do mundo natural adorada mais freqüente era o sol. Seu poder era representado pela cabeça de falcão deus Hórus, pela figura humano-divina de Atum ou pelo besouro de esterco Kheper. O sol também tinha uma designação secular - Aton - que simbolizava o disco próprio sol. O palco foi assim definido para a introdução de Akhnaten do aten como a manifestação do poder supremo do universo.
Todavia, esta revolução religiosa deve ser mais matizada, pois não se tratou de uma reforma propriamente monoteísta , pois os outros deuses (Rá, Osiris e tantos outros) não caíram no ostracismo, banidos do panteão. Apenas ficaram atrás de Atón. O próprio Hino a Aton, síntese da doutrina de Akhnaten, menciona a participação de outras divindades. Assim, apenas o nome de Amon foi abolido, reunindo sobre Aton, todos os poderes da criação, lembrando que o faraó era o único e legítimo mediador de Aton, que produzia um culto do rei ainda vivo. [cf. Paolo Scarpi, Politeísmos: as religiões do mundo antigo. São Paulo: Hedra, 2004, pp. 60 e ss]
Desse modo, a ópera é essencialmente o resultado da visão particular de Philip Glass, embora tenha contado com uma pesquisa historiográfica consistente, e não um tratado de egiptologia. Akhenaten fecha uma trilogia iniciada por Einstein on the beach (1975) e Satyagraha (1979). Foram três homens que, na visão de Glass, revolucionaram os pensamentos e eventos do seu tempo através do poder de uma visão interior. Assim, Einstein - o homem de ciência; Gandhi - o homem da política; Akhnaten - o homem da religião. Estes temas (ciência, política, religião), em certa medida, são partilhados por todos os três e formam nossa configuração social e ideológica.
As letras do libreto foram compostas a partir de textos da época de Akhnaten, do período de Amarna. Decretos, títulos, cartas, fragmentos de poemas, entre outros, foram todos recriados para serem cantados em suas línguas originais.
Disponibilizo no link abaixo os arquivos desta clássica montagem:
ACT I: YEAR 1 OF AKHNATEN'S REIGN - THEBES
PRELUDE:
Refrain
Open are the double doors of the horizon
Unlocked are its bolts
Verse 1
Clouds darken the sky
The stars rain down
The constellations stagger
The bones of the hell hounds tremble
The porters are silent
When they see this king
Dawning as a soul
Refrain
(repeat above)
Verse 2
Men fall
Their name is not
Seize thou this king by his arm
Take this king to the sky
That he not die on earth
Among men
Refrain
(repeat above)
Verse 3
He flies who flies
This king flies away from you
Ye mortals
He is not of the earth
He is of the sky
He flaps his wings like a zeret bird
He goes to the sky
He goes to the sky
On the wind
On the wind
SCENE 1: FUNERAL OF AMENHOTEP III
Live life, thou shalt not die
Thou shall exist for millions
of millions of years
For millions of millions of years
Ankh ankh, en mitak
Yewk er heh en heh
Aha en heh
Hail, bringer of the boat of Ra
Strong are thy sails in the wind
As thou sailest over the Lake of Fire
In the Underworld
Ya inen makhent en Ra,
rud akit em mehit
em khentik er she nerserser
em netcher khert
Hail, bringer of the boat of Ra, etc.
Live life, thou shalt not die, etc.
Ya, inen makhent en Ra, etc.
Ankh ankh, en mitak, etc.
SCENE 2: THE CORONATION OF AKHNATEN
Hail to thee, thou who art in peace
Lord of joy, crowned form
Lord of the wereret crown, exalted of plumes
Beautiful of diadem, exalted of the white crown
The gods love to look upon thee
The double crown is established upon thy brow
Ye-nedj hrak yemi em hetepu
Neb aut yeb sekhem kha-u
Neb wereret ka shuti
Nefer seshed ka hedjet
Mertu netcheru maanek
Sekhi men em weptek
Text: Recited by the Scribe (from a list of Akhnaten's titles).
Live the Horus, Strong-Bull-Appearing-as-Justice;
He of the Two Ladies, Establishing Laws and
causing the Two-Lands to be Pacified;
Horus of Gold, Mighty-of-Arm-when-He-Smites-the-Asiatics;
King of Upper and Lower Egypt,
Nefer Kheperu Ra Wa en Ra,
Son of Neb-maet-Ra
(Lord of the Truth like Ra)
Son of Ra, Amenhotep (Amon is pleased)
Hek Wase (Ruler of Thebes), Given Life.
Mighty Bull, Lofty of Plumes;
Favorite of the Two Godesses,
Great in Kingship in Karnak;
Golden Hawk, wearer of Diadems in the Southern Heliopolos;
King of Upper and Lower Egypt.
Beautiful-is-the-Being of Ra,
The Only-One-of-Ra,
Son of the Sun,
Peace-of-Amon, Divine Ruler of Thebes;
Great in Duration, Living-for-Ever-and-Ever,
Beloved of Amon-Ra, Lord of Heaven.
ACT II, SCENE 1: THE TEMPLE
Oh Amon, creator of all things
All people say
We adore you
In jubilation
For resting among us.
Amen men khet nebet
Ya-u-nek em em djed
Sen er ayu
Nek henu nek en
En wered ek imen
Thou dost appear beautiful
On the horizon of heaven
Oh, living Aten
He who was the first to live
When thou hast risen on the Eastern Horizon
Thou art fair, great, dazzling,
High above every land
Thy rays encompass the land
To the very end of all thou hast made
All the beasts are satisfied with their pasture
Trees and plants are verdant
Birds fly from their nests, wings spread
Flocks skip with their feet
All that fly and alight
Live when thou hast arisen
How manifold is that which thou hast made
Thou sole God
There is no other like thee
Thou didst create the earth
According to thy will
Being alone, everything on earth
Which walks and flies on high
Thy rays nourish the fields
When thou dost rise
They live and thrive for thee
Thou makest the seasons to nourish
All thou hast made
The winter to cool
The heat that they may taste thee
There is no other that knows thee
Save thy son, Akhnaten
For thou hast made him skilled
In thy plans and thy might
Thou dost raise him up for thy son
Who comes forth from thyself
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Tiamat - Prey
Prey é o oitavo álbum de estúdio da banda sueca Tiamat e um dos meus preferidos, ao lado de Astral Sleep e Wildhoney.
Lançado em 2003, constitui um dos pontos altos do grupo, que inicialmente chamava-se Treblinka e adotou o nome Tiamat perto do lançamento de seu primeiro disco, Sumerian Cry (1990), trabalho que segue os padrões musicais do estilo. Em 1991, com o segundo álbum, Astral Sleep, o Death/Black Metal do Tiamat passou a agregar elementos acústicos e melodiosos (através de violão e teclados) à aspereza característica do estilo. Em Clouds (1992), o Doom emerge com destaque, somando-se a formatação anterior, com um uso maior dos vocais limpos. Com Wildhoney (1994), Edlund realiza novas experimentações sonoras e vocais. Seus guturais atingem a perfeição em faixas lentas e cadenciadas como "Whatever That Hurts", "The Ar" e "Visionaire" enquanto a voz limpa, por exemplo em "Do You Dream of Me?", prenuncia o novo direcionamento que a banda seguiria nos anos seguintes. E ainda possui "Gaia" com sua rispidez vocal e arranjos pinkfloydianos que a tornaram um dos clássicos do grupo. Deeper Kind of Slumber, de 1997, divide opiniões, sendo recebido de maneiras díspares por críticos e ouvintes. Ainda não assimilei o álbum por completo, não tendo ainda uma opinião muito sólida a respeito dele.De qualquer forma está distante de ser um trabalho medíocre. Em 1999 aparece o excelente Skeleton Skeletron que, para quem não gosta do disco anterior, "redime" a banda. Agora, os elementos góticos tornam-se mais presentes, com ecos de Sisters of Mercy (notadamente na faixa "Brighter than the Sun", que possui um videoclip magnífico). Judas Christ (2002)mantém o nível alcançado sem grandes inovações. Em 2008, 4 anos após Prey, surge Amanethes, onde Edlund retorna alguns aspectos mais agressivos do passado e ao mesmo tempo consolida a configuração gótica, doom, ambiente, hard e progressiva dos seu metal dos últimos álbuns. Resumo aqui, a trajetória da banda, que a semelhança dos britânicos do Paradise Lost,sempre procurou agregar outras influências musicais (dos vários gêneros do metal, do gótico, progressivos e até mesmo pop),sem parecer algo forçado ou superficial, evitando assim, de estagnar-se num esquema estético repetitivo. Todavia, considero o Paradise Lost é o mais arrojado que o Tiamat, sempre experimentando algo diferente em cada álbum, enquanto o grupo liderado por Johan Edlund tende a estabilizar num estilo que construiu nos quatro últimos álbuns. De qualquer maneira são bandas com trabalhos irrepreensíveis e altamente recomendados para quem gosta de música pesada e rock'n roll em geral.
Voltando ao Prey, temos aqui uma sonoridade menos pesada que o Skeleton Skeletron. Contudo a temática soturna do Tiamat, canções em torno dos amores tensos e impossíveis, aspectos insanos da contemporaneidade e, em especial, a peculiar apropriação e releitura que Edlund faz de mitologias e tradições místicas (egípcias, asiáticas, gnósticas, místicos contemporâneos), das irreverentes críticas ao cristianismo, permanece sob um toque triste e musicalmente difícil de classificar, mas numa intensidade emocional que não deixa ninguém indiferente à excelência deste álbum. Coloco aqui as minhas preferidas, num cd que não possui pontos baixos.
Cain
I gave you my love
Though crystallized
I sent you a rose with nevermore
So many years
So many hours
And only thistles on my shore
For all that it's worth
The blood on my hands
Is the blood of divinities
And all that is lost
Sound or unsound
Only bonds between you and me
If I go will you follow
Me through the cracks and hollows
And I would be your Cain
If you would be here now
The Mother-of-Pearl
Handcrafted by God
You're the tower they built to reach the sky
A White Falcon beauty
My mark on your skin
Follow me down the stairs when we die
Your soul is in heaven
Your body in hell
It doesn't matter much to me
In the night of the unborn
Sound or obscene
Only bonds between you and me
If I go will you follow
Me through the cracks and hollows
And I would be your Cain
If you would be here now
Blessed be our Lady Nuit
Guide us to Ra-Hoor-Khuit
In your night we find shelter
Before the Helter Skelter
Carry Your Cross and I'll Carry Mine
Blame my cloven hooves - If I sink what does it prove
I'll always be your prey
Blame my crooked cross - Say I'm your bitter loss
The winds of hell are blowing your way
"Carry your cross and I'll carry mine
Dig your own hole and you'll be fine
Build your own tower until heavens devour
Your very last hour"
Blame it on Hell's fire - And on my desires
The skies are crying blood
Give me all your lies - And blame the lord of flies
The face of evil is the face of God
We're shards of broken glass but we're coming to get you
The earth is shaking, the underworld's born anew
It's a cosmic fusion, a disillusion man
Gather your stuff and get going as fast as you can
It's all that I dream of when I pray to the devils themselves
The dust of Babylon fallen is on somebody else
And in the aeon of hope - A new sun will rise for you
And in the still of the night - The moonchild will watch you too
We're falling to pieces and that's why we're hunting you down
While you're falling from heaven we rise from the underground
No more turning the other cheek, no lies in wait
Waiting is over, the black knights have opened the gates
Nihil
The losers are the winners
The saints are the sinners
The angels in heaven
Keep falling, keep falling
God is no forgiver
He demands and you deliver
The demons in hell
Keep calling, keep calling
through the night shall all wash away
All the horrors of the day
And a little angel on my side
Tries to make it all worthwhile
And with a little beauty in my bed
I still wish that I was dead
And the little angel on my side
Takes me on a devil ride
No rose without a thorn
Dead before you're born
A world full of nothing
So keep praying, keep praying
That what lies ahead of us
In the eye of Horus
A new sacred aeon
We'll be obeying, obeying
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