História, Cultura & Memória.
"... o que permaneceu incompreendido retorna: como uma alma penada, não tem repouso até que seja encontrada resolução e libertação." Sigmund Freud
A palavra crítica
deriva do verbo grego krínein, que significa “decidir”.
Seu equivalente em latim é cernere, que, além de “decidir”,
significa também, como é fácil perceber, “discernir. Outras
derivações gregas da palavra são: kritós, que significa
“juiz”; kritikós (que por sua vez deriva de krités, que se
refere à pessoa capaz de elaborar juízos ou proceder à
julgamentos, concluindo por uma decisão, ou seja, por uma avaliação
judiciosa destinada a orientar as ações que dada comunidade deve
empreender; outra óbvia derivação do mesmo termo grego é
kritérion, que são os fundamentos relativos aos valores mais
elevados de uma sociedade, em nome e em função dos quais os juízos
e as críticas são feitas, os julgamentos são conduzidos e as
decisões são tomadas. Daí se conclui que uma comunidade que perde
sua capacidade crítica perde junto sua identidade, vê dissolver-se
sua substância espiritual e extraviar-se seu destino. Curiosamente,
outra das derivações da palavra grega em questão é krisis,
significando vácuo, desorientado que se estabelece quando os
critérios que orientam os juízos, por alguma calamidade histórica
ou natural, se veem dispersos, abolidos ou anulados.
SEVCENKO,
Nicolau A corrida para o século XXI. No loop da montanha-russa. São
Paulo: Companhia das Letras, 2001 (Virando Séculos; 7) pp 18-19
Feliz Dia do Rock! Uma pequena amostra do grande Blue Öyster Cult. Banda essencial que criou um amálgama de rock psicodélico, progressivo e heavy metal, um pouco de blues... Sua temática está ligada à ficção científica, literatura, hq e terror... Maiores informações sobre esta banda norte-americana aqui e aqui.
Sexta faixa do Bastards, de 1993. Tema ousado e verdadeiro (abuso sexual de crianças) feito com a coragem que só Lemmy Kilmister tem. Um dos motivos pelos quais o Motörhead é uma das maiores bandas do mundo.
Little
girl sleeping in dreams of peace, Mommy´s been gone a long
time, Daddy comes home and she still sleeps, Waiting for
the world´s worst crime. And he comes up the stairs like he
always does, And he never turns on the light, And she´s wide
awake, scared to death, She smells his lust and she smells his
sweat Curled in a ball she holds her breath Praying to a God
that she´s never met
Don´t
let daddy kiss me, Don´t let daddy kiss me Good night
Little
girl lies by her daddy´s side And she listens to him breathe She
knows there´s something awful wrong That she´s far too young to
see And she knows she can´t tell anyone She´s so full of
guilt and shame, And if she tells she´ll be all alone They´d
steal her daddy and they´d steal her home And it´s not so bad
when daddy leaves her alone Praying to her God with his heart of
stone
Don´t
let daddy kiss me, Don´t let daddy kiss me Good night
Why,
tell me why, the worst crime in the world
And
daddy lies by his daughter´s side, And he sleeps both deep
and well No nightmares come to him tonight, Though his
daughter lives in hell For his seed is sown where it should not
be And the beast in his mind don´t care And the only sounds
are the tears that fall Little girl turns her face to the wall She
knows that no one hears her call, But it seems like God hears
nothing at all
Don´t
let daddy kiss me, Don´t let daddy kiss me, Don´t let daddy
kiss me Good night
Não
deixe que papai me beije
Menina
dormindo em sonhos de paz
Sua
mãe se foi há muito tempo
Papai
volta para casa e ela ainda dorme
Esperando
pelo pior crime do mundo
E
ele sobe as escadas como ele sempre faz
E
ele nunca liga a luz
E
ela está acordada, morrendo de medo
Ela
cheira a sua luxúria e ela cheira o seu suor
Se
encolhendo ela segura o fôlego
Rezando
para um Deus que ela nunca conheceu
Não
deixe que papai me beije
Não
deixe que papai me beije
Boa
noite
A
pequena menina deita ao lado de seu pai
E
ela ouve ele respirar
Ela
sabe que há algo terrivelmente errado
Que
ela é jovem demais para ver
E
ela sabe que não pode contar a ninguém
Ela
se sente tão culpada e envergonhada
E
se ela contar ela ficará sozinha
Eles
roubar-lhe-iam seu pai e roubar-lhe-iam sua casa
E
não é tão ruim quando papai sai de casa
Rezando
para o Deus dela com seu coração de pedra
Não
deixe que papai me beije
Não
deixe que papai me beije
Boa
noite
Por
quê, diga-me o por que, o pior crime do mundo
E
papai deita ao lado de sua filha,
E
ele dorme profundamente e bem
Nenhum
pesadelo o assombrará a noite,
Porém
sua filha vive o inferno
Pois
sua semente foi plantada onde não devia ter sido
Paradise Lost é uma de minhas bandas preferidas. Originária da cidade inglesa de Halifax, no início de sua trajetória, em 1988, adotava o estilo Death Metal. Com o passar do tempo elementos de Doom foram adicionados amplificando a sonoridade sombria do grupo, que escapava à definições fáceis. Em 1993 surge uma de suas obras-primas, Icon, que afasta totalmente a influência do Death. Os vocais passam a ser mais limpos, bastante graves. Em 1995 aparece Draconian Times, um de seus álbuns mais celebrados. Na época havia uma comparação da banda com o Metallica. De fato, considero Paradise Lost uma espécie de Metallica da música sombria. Em especial por sua ousadia em experimentar elementos diferentes em cada álbum, sem perder sua identidade. Quesito em que foi bem mais sucedida do que as experimentações da banda thrash norte-americana. De qualquer forma acabou ganhando a incompreensão de alguns fãs e críticos; perdendo alguns e ganhando outros. Praticamente não produziu nenhum álbum ruim, apenas experiências diferentes entre cada trabalho lançando.
Destaco aqui, faixas de Icon (1993), Draconian Times (1995), Symbol of Life (2002) e Paradise Lost (cd autointitulado de 2005), respectivamente. Junto com letras e traduções.
"Remembrance"
I
am the one, to which
you'll go You are the one, from which I'll run...
Fading
to grey, the wanton pray
You'll
find shelter, I'll find none I'll leave you pointless life undone
Breathing
your days, my anguish stays
Fate
of my face, I've seen your face I turn and run, you'll have no
place
Time
is the father, in my corrupt mind Pain, echoes, in the silent
sky... Remember life now?
Eu
sou o único, para o qual você vai Você é o único, do qual eu
vou correr ...
Desaparecendo
a cinza, a oração devassa
Você
vai encontrar abrigo, eu vou encontrar nenhum Eu vou deixar
a inútil vida desfeita
Respirar
os seus dias, a minha angústia permanece
O
destino do meu rosto, eu vi seu rosto Eu viro e corro, você
não terá lugar
O
tempo é o pai, em minha mente corrupta Dor, ecoando no céu
em silêncio ... Lembra-se
da vida agora?
Lembra-se
da vida agora?
"Enchantment"
Like
a fever, fever - inside of me Like
a fever, fever - inside of me Stand
fast, faithful one See
the moon and not the sun but I... All
I need is a simple reminder Breakdown
frail affairs Turn
from the elusive starts but I... All
I need is a simple reminder Guilt
is feeding, feeding, inside I'm cold In
depth grasp the chains Struggle
as the waters gain but I.... All
I need is a simple reminder Observe
the formation Fight
until the battle's won But
I... All I need is a simple reminder There's
no rule to say you'll cry alone Just
find the strength to help you carry the load Reverse
the frown and let the power surge But
when alone you cannot resist the urge Can’t
you feel it, feel it, like the pain of dying Can’t
you feel it, feel it, like the pain of dying Hold
on face to face damaged By
the sad disgrace but I... All
I need is a simple reminder Twisting
the knife in vain End
the grief but who will gain but I.... All
I need is a simple excuse
Como
uma febre, febre - dentro de mim Como
uma febre, febre - dentro de mim Inabalável, fiel Vejo
a lua e não o sol mas eu... Tudo
que eu preciso é de um simples lembrete Colapso,
assuntos delicados Transformam-se
desde o início elusivo, mas eu... Tudo
que eu preciso é de um simples lembrete A
culpa está alimentando, por dentro eu sou frio Nas
profundezas agarro as correntes Luto
enquanto as águas vencem mas eu... Tudo
que eu preciso é de um simples lembrete Observo
a formação Luto
até ganhar a
batalhaMas
eu... Tudo que preciso é de um simples lembrete Não
há nenhuma regra que diz que você chorará
sozinho Apenas encontre a
força para carregar o fardoMude
esse olhar carrancudo e deixe o poder surgir Mas
quando sozinho, você não pode resistir ao impulso Consegue
senti-lo, senti-lo, como a dor na hora da morte Consegue
senti-lo, senti-lo, como a dor na hora da morte Agüente,
cara-a-cara, ferido Pela
triste desgraça mas eu.... Tudo
que preciso é de um simples lembrete Torcendo
a faca em vão Termina
a aflição mas quem vencerá, pois eu.... Tudo
que preciso é de uma simples desculpa
"Pray
Nightfall"
In
my head this all is, in my head this all is
In
my head this all is, in my head this all is
In
my head...
I
hold on tight for this mortal ride
Rest
my head 'til the morning's coming down on me
I
realise my own sacrifice
Rest
my head before somebody's going out
In
my head this all is, in my head this all is
In
my head this all is, in my head this all is
In
my head...
Pray
nightfall release me
Then
I could wander, wander to deep sleep
Awake
despite another mortal night
Rest
my head for sun is shining down on me
I
realise try to synchronize
Rest
my head or somebody's going down
In
my head this all is, in my head this all is
In
my head this all is, in my head this all is
In
my head...
Pray
nightfall release me
Then
I could wander, wander to deep sleep
Trying
to make things work
Trying
to make things right
Trying
to make things work
Without
serendipity in my life
It's
in my head
Pray
nightfall release me
Then
I could wander, wander to deep sleep
Pray
nightfall release me
Then
I could wander, wander to deep sleep
Na
minha cabeça, isso tudo está na minha cabeça
Na
minha cabeça, isso tudo está na minha cabeça
Eu
seguro firme para essa viagem mortal
Descanso
minha cabeça até que a manhã chegue para mim
Eu
percebo meu próprio sacrifício
Melhor
descansar minha cabeça antes que alguém saia
Na
minha cabeça, isso tudo está na minha cabeça
Na
minha cabeça, isso tudo está na minha cabeça
Rezo
para que o anoitecer me liberte
Então
eu poderia vagar
vagar
para o sono profundo
Acordo
apesar de outra noite mortal
Descanso
minha cabeça, pois o sol está brilhando sobre mim
Eu
percebo e tento sincronizar
Descanso
minha cabeça ou alguém vai cair
Tentando
fazer as coisas funcionarem
Tentando
fazer as coisas certas
Tentando
fazer as coisas funcionarem
"Accept
the pain"
Like
a pill Like a pill these dreams Like a pill Kill almost
everything
Like
a drop in the ocean Life's a drop in the ocean Like a pill it's
all the same
Accept
the pain, for all who ever tried For all who tried
Overkill,
Overkill it seems Overkill, Feeding off all extremes Loyalty
through emotion Cruelty kills devotion
Accept
the pain, for all who ever tried Accept the pain, as all our fears
subside (our fears subside)
Like
a pill Like a pill these dreams Like a pill It's all the
same, it's all the same
Accept
the pain, for all who ever tried Accept the pain, as spirits
purify (purify)
Igual
a uma pílula
Igual
a uma pílula nestes sonhos
Igual
a uma pílula
Mata
quase tudo
Como
uma gota no oceano
A
vida é uma gota no oceano
como
uma pílula, é tudo igual
Aceite
o sofrimento, por todos que já tentaram
Por
todos que tentaram
Matança,
Matança é o que parece
Matança,
alimentando todos os extremos
Fidelidade
através emoção
Crueldade
mata a devoção
Aceite
o sofrimento, por todos que ja tentaram
Aceite
o sofrimento, que todos os nossos medos diminuem (nossos medos
diminuem)
Igual
a uma pílula
Igual
a uma pílula nestes sonhos
Igual
a uma pílula
É
tudo igual, é tudo igual
Aceite
o sofrimento, por todos os que tentaram
Aceite
o sofrimento, conforme os espíritos purificam (purificam)
Michael Oakeshott
(1901-1990), filósofo inglês, lecionou ciência política na
Universidade de Oxford e na London School of Economics. Sua obra
abrange reflexões sobre teoria da Histórica, Filosofia do Direito,
Estética, Religião, Política e também assuntos ligados à
educação.
Entre suas obras:
Experience
and Its Modes.
Cambridge University Press,
1933.
Rationalism
in Politics and Other Essays.
Methuen
1962
On
Human Conduct.
Clarendon Press , 1975.
On
History and Other Essays.
Basil Blackwell 1983
(edição brasileira: Sobre a História e outros ensaios. Rio de
Janeiro: Topbooks, 2003)
“A
postura fundamental filosófica de Oakeshott combina elementos de
ceticismo, idealismo e humanismo. Para ele, não existe filosofia,
não existe garantia absoluta de que qualquer coisa que a gente diga
ou faça seja justificada. A realidade é mediada para nós apenas
por certo número de práticas humanas distintas, como história,
moralidade, política, ciências, filosofia e poesia. Nenhuma visão
da vida ou experiência deve ter precedência sobre o resto. O que
temos é uma certa quantidade de distintas práticas e modos que
provaram seu valor ao longo do tempo, apropriados aos papéis
específicos para os quais foram preparados. Cada prática é uma
realização humana específica. Cada qual revela apenas uma parte do
todo, no entanto desvenda uma parte. A fim de descobrir qual poderia
ser esta parte, temos de estar cientes da prática, e isso significa
penetrar nela como algo que precisa ser vivido. O que uma prática
oakeshottiana constitui não pode ser analisado em termos externos a
ela, nem seus objetivos podem ser justificados em outros termos que
não o seu próprio.”
Joy
A. Palmer 50 grandes educadores modernos, de
Piaget a Paulo Freire. São Paulo: Contexto, pp. 63-64
"Ser humano é
reconhecer-se relacionado com outros, não como as partes de um
organismo são relacionadas, não como membros de uma “sociedade
única e inclusiva”, e sim em virtude de participação em
múltiplos relacionamentos compreendidos e na fruição de linguagens
históricas compreendidas de sensações, sentimentos, imaginações,
desejos, reconhecimentos, crenças morais e religiosas, exercícios
práticos e intelectuais, costumes, convenções, procedimentos e
práticas, cânones, máximas e princípios de conduta, regras que
denotam obrigações e funções que especificam deveres.
O habitante de um mundo
composto não de “coisas”, mas de sentidos, isto é, de
ocorrências em algumas maneiras de reconhecer, identificar, entender
e responder de acordo com este entendimento. É um mundo de
sentimentos e crenças, e inclui também artefatos humanos (como
livros, retratos, composições musicais, instrumentos e utensílios).
[…] Não compreender isso é ser não um ser humano, mas um
estrangeiro da condição humana.
“(...) Não há tal
coisa designada como “natureza humana”; há apenas homens,
mulheres e crianças respondendo alegremente ou de forma relutante,
reflectidamente ou menos reflectidamente à experiência da
consciência que existe como resultado da sua autocompreensão.
Sermos humanos também não é “termos uma habilitação especial”
como a de engenheiro eletrotécnico. Se a nossa principal preocupação
é com a autoconsciência, então para que serve toda esta
parafernália educativa? (...)”
“(...) A ideia de
escola é a de um “lugar à parte” onde um neófito poderá
encontrar-se com a sua herança de forma imparcial,sem sofrer as
distorções e corrupções provocadas pela linguagem
corrente; é também um
compromisso de aprendizagem feito não pelo acaso, mas pelo estudo em
condições dirigidas com a finalidade de se criarem hábitos de
atenção, concentração, exatidão,
coragem, paciência,
discriminação e reconhecimento da excelência quer no pensamento
quer na conduta; é um local onde a aprendizagem da vida adulta se
faz de modo a haver o reconhecimento
e a identificação de
si próprio noutros termos que não os das suas
circunstâncias
imediatas. (...) ”
“É nesse mundo
espiritual que a criança, mesmo nas aventuras mais precoces de sua
consciência, se inicia; e iniciar seus alunos neste mundo é a
tarefa do professor (…) O ensino é a iniciação deliberada e
intencional de um aluno no mundo das relações humanas ou em uma
certa parte dele. O professor é aquele cujas falas (ou silêncios)
pretendem promover esta iniciação com respeito a um aluno (…)
consequentemente, ele é também um agente de civilização. Mas sua
relação direta é com o aluno. Seu compromisso é levar o aluno a
conseguir o máximo de si mesmo, e a forma pela qual ele o faz e
ensinando-o a reconhecer-se no espelho das realizações humanas que
compõem sua herança espiritual.”
“(...) Sim, enquanto
seres humanos somos todos self-made, mas não do nada e muito menos à
luz da natureza(...)”.
“nascermos herdeiros
e de só sermos capazes de compreensão do nosso legado, através da
aprendizagem.”
O trabalho do professor Michael Apple nunca despertou muito minha atenção. Em que pese a chamada "americanização" do mundo e as ingerências de políticas neoliberais e do mundo corporativo no campo educacional. Autores nacionais, latino-americanos e europeus (especialmente os franceses) foram mais incisivos na minha formação. Deste modo sigo meu próprio caminho.Estou longe de ser antiamericano e reconheço a excelente qualidade de historiadores e cientistas sociais estadunidenses; todavia considero o pensamento educacional da esquerda norte-americana um tanto restrito ao seu próprio contexto e um tanto dogmático para o meu gosto. Somado-se a isto, existem minhas restrições ao pensamento pós-moderno e ao neo-pragmatismo.
De qualquer maneira achei notáveis estas observações de Apple em torno dos limites das apropriações das ideias de Paulo Freire. Valem a pena serem transcritas, ainda mais porque existe um estereótipo muito recorrente, onde manifestar qualquer crítica ao pensamento freireano é tida como reacionária e mal informada. Michael Apple consegue manter um distanciamento crítico de um de seus mestres e atentar para possíveis leituras e usos equivocados de determinados construtos teóricos. Este é um trecho de uma entrevista que o autor concedeu em 1990 e foi incluída no seu livro Conhecimento Oficial: a educação democrática numa era conservadora. (Petrópolis: Vozes, 1999 2ª edição). O depoimento foi prestado a Carlos Torres (Universidade da Califórnia) e Raymond Morrow (Universidade de Alberta).
Tomei conhecimento desta entrevista bem depois de escrever este texto, onde critico a ideia de educação bancária.
"Carlos: Você explorou muito material de Freire. Qual seria a sua
principal crítica à abordagem freireana? Qual a ideia que mais o
impressionou?
Michael: Existem poucas pessoas de quem eu gostaria de ser aluno e
Freire é uma delas. Ele é alguém que tenho o orgulho de conhecer.
.as como em relação a todas as pessoas, existem certas coisas que
temos que criticar. Temos a tendência de criar deuses. Sei que isso
é desconfortável para Freire. Quando estive no Brasil, tornou-se
bastante claro para mim que existem muitas pessoas progressistas que
também discordam dele, e um dos desserviços que penso que
prestamos, quando criamos deuses, é que esquecemos que existem
debates sobre o seu trabalho, em sua própria nação. Portanto, a
primeira coisa que gostaria de sugerir é a que descobríssemos quais
são as discussões sobre as teorias pedagógicas de Freire, onde
elas ocorreram. Deste modo, podemos ter certeza de que não importam
ideias que poderiam ser reforçadas por suas relações com aquelas
múltiplas tradições originárias, por vezes conflituosas.
Poderíamos então compreender melhor seus pontos fortes e suas
fragilidades, colocando-nos numa posição de não vê-las apenas
como recursos políticos/pedagógicos, que podem ser usados em
qualquer lugar, sem necessitarem ser reconstruídos e pensados em
suas contradições. Tomar simplesmente estas coisas sem
reconstruí-las é algo que se volta contra a próprias noção da
pedagogia freireana.
Embora eu concorde em larga escala com a noção de que a pedagogia
de alguém deve apoiar-se na experiência vivida dos atores e de que
existem maneiras para estimular isso – e neste ponto Freire não
tem paralelo no mundo – eu sou, em outros sentidos, provavelmente
mais gramsciano porque penso que abrimos mão em demasia da questão
do conteúdo. Estou principalmente preocupado com a ideia que algumas
pessoas tem, quando interagem para criar um alfabetismo político,
que é um processo lento, que o conhecimento que frequentemente
chamamos de “burguês” não é essencial para aquele processo de
alfabetismo. Supomos que os recursos necessários estão de algum
modo já naquela comunidade e que “nós” não necessitamos
levá-los até eles. Penso que todo este conhecimento, mesmo as
disciplinas tradicionais, foi construído a partir do trabalho de
todos. E ele pertence a essas pessoas, merece ser deles. Eu iria
adiante – embora pense que a pedagogia possa ser a mesma – e
levaria muito mais a sério a questão do conteúdo. Acredito,
também, que corremos o perigo de nos apropriarmos e tornarmos
politicamente não ameaçador, brilhante material que foi
desenvolvido no Terceiro Mundo e em tipos práticos de luta. Deste
modo, contribuímos para a perda de seu compromisso crítico com a
libertação. Como disse, penso que não é fácil transladar isso
para as nossas salas de aula e não creio que as condições são
necessária e exatamente as mesmas. Portanto, penso que isto tem que
ser reapropriado, reconstruído em torno de temas, de estruturas de
vida das pessoas reais, nas nações industrializadas. Necessitamos
ser muito cuidadosos para não criar simplesmente outra alegoria.
Acredito que, de fato, o que fazemos frequentemente é tomar Freire
como um modelo simples, simplesmente uma técnica transferível, uma
técnica que tiramos do bolso, esquecendo que ela foi construída na
luta e que precisa ser reconstruída e reconectada com as pessoas.
Assim vejo uma variedade de perigos. Mas, por outro lado, a abordagem
freireana é um avanço sobre as formas como normalmente pensamos a
educação não formal, sobre o conhecimento de que certos grupos é
apropriado e sobre como podemos articular isto de modo bastante
crítico, que seria um ato de má-fé não permitir que ela
influenciasse muito do que fazemos.
Nosso trabalho é uma forma de política cultural. Envolve todos nós
na tarefa que Williams chamou de “jornada da esperança” em
direção à “longa revolução”. Fazer menos, não nos
envolvermos nesta tarefa, é, ignorar as vidas de milhões de
estudantes e professores em todo o mundo. Não agir é permitir aos
poderosos que vençam. Podemos permitir que isso aconteça?"