História, Cultura & Memória.
"... o que permaneceu incompreendido retorna: como uma alma penada, não tem repouso até que seja encontrada resolução e libertação." Sigmund Freud
No dia do Rock,
apresento um especial sobre uma das grandes parcerias da história da
música pesada: Tony Iommi e Glenn Hughes. Amigos desde 1974, quando
participaram do festival California Jam com suas respectivas bandas,
Black Sabbath e Deep Purple. Naquela época, os dois grupos estavam
em seu auge criativo.
Seventh Star seria o
primeiro álbum solo de Tony Iommi. A ideia do guitarrista era dar uma parada com o Black Sabbath por certo tempo e investir em outros projetos. A banda estava passando por um período de incertezas, após a turnê de "Born Again" (1982). O músico convidaria amigos como Ian Gillan, Glenn Hughes, Robert Plant, Rob Halford entre outros, para participar. Entretanto, ingerências
da gravadora obrigaram-no a mudar de planos e "Seventh Star" tornou-se o décimo segundo álbum de estúdio do Black Sabbath. A produção é mais
consistente que o disco anterior. E a balada “No Stranger to Love”
foi o grande hit. Uma
boa canção, ainda que não seja a melhor faixa do álbum. Hughes,
que enfrentava problemas com dependência química,quase não tocou ao vivo. A turnê, curta, seguiu com Ray Gillen nos vocais. De qualquer forma, Glenn Hughes deu o melhor de si durante as gravações.
Assim como alguns
trabalhos com Tony Martin, Seventh Star figura entre os álbuns bastante subestimados do Black Sabbath. Com reedições remasterizadas da
discografia sabbathiana, ele foi sendo valorizado e se tornou cult.
Principalmente na Argentina, Brasil e Japão.
Depois, cada um seguiu
seu caminho, Iommi no Sabbath, e Hughes, recuperando-se de seuss problemas com a cocaína, construi uma carreira solo de excelente qualidade.
Em 1996 os dois amigos
se reúnem, a princípio apenas para tocar e compartilhar material
que não foi aproveitado no tempo do Seventh Star. No entanto essas
músicas passaram a circular de forma não oficial, sob o título de
“Eight Star”. Em 2004 esse material foi retrabalhado e lançado
com o nome de “The 1996 DEP Sessions”. Com boa repercussão. No
mesmo ano, a dupla engata novas músicas e, em 2005 sai “Fused”,
o trabalho mais denso da parceria até o momento.
Os três álbuns de
estúdio mantém sua singularidade e diferença com relação a
sonoridade do Black Sabbath. O que não nos impede de reconhecer, discretamente, elementos sabbathianos, em especial nas faixas mais pesadas. Os rifs de Iommi são inconfundíveis e
sua liderança é visível. Há ainda espaço para o hard rock e o blues.
Como curiosidade, incluo também um bootleg de 1986, intitulado "Black Sabbath turn to Glenn". Aparece a informação de que são gravações de ensaios finais. Se é uma montagem de várias fitas, não tenho como afirmar. A qualidade do som não é boa, pode-se perceber uma pequena plateia incentivando os músicos. Há músicas de diversas fases do Sabbath, como "War Pigs", "The Mob Rules", "Children of the Sea". Contudo a performance de Hughes é irregular, embora aceitável, mostrando que não estava muito em condições para prosseguir numa turnê.
Em minha primeira postagem de 2013 apresento a lendária banda grega1 de Death Metal Sinfônico Septicflesh. Formada em Atenas, no ano de 1990, conta na sua formação clássica Sotiris Vayenas (guitarra e vocais limpos) e os irmãos Christos Antoniou e Spiros Antoniou (respectivamente guitarra e baixo e vocal áspero/gutural). Entre 1991 e 1998 essa formação manteve-se estável. Nos anos de 1997 e 1998 foi acrescentada a vocalista Natalie Rassoulis, de sólida formação lírica. Formado em composição erudita, Christos Antoniou é o principal eixo desse grupo bastante coeso, coordenando a alquimia entre elementos clássicos, étnicos e a base propriamente rockeira, que consiste no Death, o Black e o Dark Metal. Em outubro de 2003 o grupo se separa, cada um desenvolvendo seus projetos. No início de 2007,é anunciada a reunião do Septicflesh.
A temática lírica está calcada na mitologia grega, egípcia, sumeriana e na ficção de H. P. Lovecraft, além do ideário ufológico sobre os chamados "deuses astronautas". Ao mesmo tempo inquietações contemporâneas sobre os rumos incertos de nossa sociedade estão presentes. Desse modo, desde o primeiros EP e Full-length até o último álbum (The Great Mass, de 2011) temos a nossa frente uma obra vigorosa e feita com paixão.
Conforme salientei acima, trata-se de uma trajetória musical consistente. Todavia, considero os quatro primeiros cds excepcionalmente criativos. Os dois álbuns seguintes (Revolution DNA, 1999 e Sumerian Daemons 2003) mantém o padrão de qualidade, agregando toques eletrônicos e industriais. Comunion (de 2008, que sacramenta a reunião da banda) e The Great Mass, resgatam o espírito dos primeiros trabalhos, com maior ênfase no Death metal.
Lamentavelmente, como tantos outras obras essenciais, nunca foram lançados por estas plagas. Selecionei também algumas canções e respectivas letras para dar uma visão geral do trabalho do grupo neste período.
Assim espero proporcionar alguns momentos de devaneio e prazer sonoro e como grande admirador da cultura helênica, faço votos de que o povo grego possa se reerguer e enfrentar de cabeça erguida os momentos dramáticos pelo qual está passando.
1. Remeto a uma postagemantiga: Sete bandas Gregas de Heavy Metal.
Crescent
Moon
The
sand beneath your feet a
yellow carpeting the
palace of wilderness Only
king and servant is you searching
for the pyramid that
guards the emerald board
It
was a crescent moon when
you have been initiated in
the science of the black earth, And
the optimism of youth pushed
you in quests into
the paper worlds of
the libraries of Cairo
Crescent
Moon Two
sides of the same coin The
poor in mind are satisfied with
what they see
Crescent
Moon And
they bear the sign of imperfection because
they miss the other side the
invisible
Crescent
Moon Few
words carved with diamond could
draw the curtains that
cover the glassy cage of senses The
warm touch of the starlight (magnes)
will be the proof and
the philosopher's stone your trophy
Grab
the golden rope and climb the
imaginary walls of your thoughts you
may fall but at least you'll have tried
The
Underwater Garden
Melancholy
ascended in the surface Knowing that she'll have forever a
lair In the underwater garden. Serene the azure
body that filled The landscape crowled as ever.
The
sound here is a word without a Meaning nothing can agitate
the Monotony. The new and the old event roll
indolent Embraced in a circle.
The one takes
the place of the other Returning continuously in the
beginning.
What didn't belonged in the fluid
kingdom Has now become its integral part. The
plunder that was stolen From the marvelous world of the
unknown Is hidden deep. Imprisoned from the
seeweeds Ornamented with the flowers of the sea.
Every
piece has its own story Every creation is also a piece Of
its creator. Behind the coral gate of the garden Are
sealed emotions [solo : sotiris]
Esoptron
Reversing
the view towards the soul Absorbed from the swirl of the chaotic
ego Naked from the warm familiar Company of matter
Here
desires and fears are shaped, Uncontrolled multiplied in The
rhythm of ecstasy Gathered under the threat of Upcoming
afflictions
Parallel
futures that may Never happen are blocking The entrance of the
inner most sanctum They are the guardians Who is the master of
this cosmos ? Who posted them here ? Illumination comes from
within And levitates the eidolon
Effigies
and marble busts lined in External chains silent, Laden with
creases deep like self deceit They seem lost in their
contemplation Their laurel wreath is withered
Now
i know how felt the first amphibian When allowing the air to
inhabit in its lungs
The
sceptre was always in my hand
Esoptron
Ice
Castle
In
the land that was born from The sperm of winter is The
incarnation of all enchanted fairy tales An imposing
figure Isolated from an ocean of frozen waves Trying to unite
the sterile earth With the celestial dome
Like
a crystalline bridge of ice In the claws of four ancient
mountains Ice castle Transparent halls filled with Wonder
worthless For those who are sweeping along with The purposeless
flood of wasted feelings.
Priceless
treasure For the children of the serpent dream
In
the claws of four ancient mountains Ice castle
There
they claim life In a feast with your nightmares
Phallic
Litanies
Welcome
to the joyous carnival of passion Where the mind surrenders to the
animal.
Smell
the seductive odor of the naked skin Bathed in the exotic oils,
the potions of desire.
It
would be folly to defy the eldest law For resistance will only
supply the fire of lust With her wooden excuses.
We
are here to drink this old wine without remorse To spill the fluid
of genesis In abundance because we all know That as this elixir
of life will flow We will be left exhausted but smiling.
Nails
sink into sweaty ground Marking dionysiac stings Sparks set
from velvet tongues That bring close soft orange lips
Phallic
litanies
Paths
lead inside warm nests, that scared shrines of sin As serpents we
crawl beneath The guises that we all wear.
It
would be folly to defy the eldest law For resistance will only
supply the fire of lust With her wooden excuses. So it will
grow stronger and stronger Until fatally it will consume the
renegades With the flames of their denied satisfaction
Phallic
litanies
Marble
Smiling Face
Black
leather gloves On soft thin hands. Red celtic knives, Sharp
as your touch.
[chorus:] Hunting
eagle proudly land On this island that's my heart.
Twin
mirrors blue. Cold lakes consealing fire. Red coral hair. A
dazzling ruby dome
[chorus:] Hunting
eagle proudly land On this island that's my heart. Elegance
combined with grace Dressed your marble smiling face.
Um escritor romântico, pintor nas horas vagas, acreditava fazer voto de realismo ao proclamar: "Para mim, o mundo exterior existe." O gravador se compromete mais: para ele, a matéria existe. E a matéria existe imediatamente sob sua mão obrante. Ela é pedra, ardósia, madeira, cobre, zinco... O próprio papel, com seu grão e sua fibra, provoca a mão sonhadora para uma rivalidade da delicadeza. A matéria é, assim, o primeiro adversário do poeta da mão. Possui todas as multiplicidades do mundo hostil, do mundo a dominar. O verdadeiro gravador começa sua obra num devaneio da vontade. É um trabalhador. Um artesão. Possui toda a glória do operário.
Meditando-se materialmente sobre as páginas deste Álbum1. encontra-se a ação salutar de mãos dinamizadas pelos devaneios da vontade. O resultado estético feliz não oculta a história do trabalho, a história das lutas contra o cobre, os estratagemas tão diferentes dos entalhes da madeira, a prudente aproximação da pele granulada da pedra, enfim os tempos heroicos do gravador nós os revivemos se tomarmos consciência da matéria inicial atacada pela mão.
Pensamos em Georges Braque, que escreve: "Para mim, o processo de realização tem sempre precedência sobre os resultados esperados". A gravura, mais que qualquer outro poema, remete-nos ao processo de criação.
Sim, a primeira matéria atacada permanece lá, sob o papel, mais no fundo do que a pasta celulósica: a madeira e o cobre não podem se deixar esquecer, trair, mascarar. A gravura é a arte, entre todas, que não pode enganar. é primitiva, pré-histórica, pré-humana. Já a concha gravou seu manto na inspiração da substância de sua pedra. A concha não trabalhou com o mesmo buril a sílica e o carbonato.
Essa consciência da mão no trabalho renasce em nós na participação no ofício do gravador. Não se contempla a gravura: a ela se reage, ela nos traz imagens de despertar. Não é somente o olho que segue os traços da imagem, pois à imagem visual é associada uma imagem manual e é essa imagem manual que verdadeiramente desperta em nós o ser ativo. Toda mão é consciência de ação.
Porém, já que o mais precavido processo de execução é, segundo Braque, uma das primeiras felicidades do criador, é preciso prestar atenção às alegrias dos primeiros desenhos, quando, antes do ácido sobre o cobre envernizado, o poeta da mão sonha, lápis nos dedos, sobre a página em branco. Já se disse alguma vez esse primeiro duelo das matérias, essa justa com armas não afiadas, antes do instrumento de pleno agravo? Quem gosta de ir ao minusculo das coisas, à competição da matéria negra e da matéria branca, ganhará em escutar o físico. Entrará então no mistério das lutas dos gnomos atomizados. Viverá uma incrível dialética da coesão e da adesão. Pois o que faz o desenhista? Aproxima duas matérias: empurra suavemente o lápis preto em direção ao papel. Nada mais. A coesão do grafite é então solicitada à adesão pelo papel imaculado. O papel é despertado de seu sono de candura, despertando de seu pesadelo branco. A que distância começa o mútuo apelo, o íntimo apelo do preto e do branco? A partir de que limite a adesão extrovertida ultrapassa a coesão introvertida? Em que momento a vaga de átomos de carbono - negro pólen - deixa a mina para invadir os poros do papel? Em sua linguagem rápida a física responde: A 10-5
centímetro, a um décimo milionésimo de milímetro. Os átomos são
ainda mil vezes menores.
Eis o lápis sobre o
papel.
Eis onde a falange
sonhadora torna ativa a aproximação de duas matérias: eis onde as
matérias empenhadas no desenho concluem e fixam a ação da mão
obreira.
Assim, com a mais
extrema delicadeza, a mão desperta as forças prodigiosas da
matéria. Todos os sonhos dinâmicos, dos mais violentos aos mais
insidiosos, do sulco metálico aos traços mais finos, vivem na mão
humana, síntese da força e da destreza. Explica-se então, ao mesmo
tempo, a variedade e a unidade de um álbum no qual dezesseis grandes
trabalhadores vieram cada qual nos dar a vida de uma mão. São
elementos de uma confissão da dinâmica humana, elementos de uma
nova quiromancia, aquela que, ao desvelar forças, revela-se criadora
de um destino.
1. A la Gloire de la
Main, por Gaston Bachelard, Paul Eluard, Jean Lescure, Henri Mondor,
Francis Ponge, Rene de Solier, Tristan Tzara, Paul Valéry...
Tradução de José
Américo Motta Pesanha
Fonte: BACHELARD, Gaston O Direito de Sonhar. São Paulo: Difel, 1985 pp. 52-54
As recentes polêmicas envolvendo a divulgação do vídeo "A inocência dos muçulmanos" e seus desdobramentos atualizam questionamentos a respeito da pertinência (ou não) de limites na liberdade de expressão em Estados democráticos. Esta seria absoluta, irrestrita? Paralelamente, o entrelaçamento entre fé e política, em especial do poder econômico e simbólico de grupos religiosos, está na ordem do dia, como no caso das eleições municipais deste ano. Destaco também a questão do ensino religioso nas escolas públicas, com inquestionáveis elementos que comprovam privilégios dados a determinadas confissões, constrangimentos sofridos por alunos e familiares que discordam deste tipo de visão, além de injunções que não são legítimas dentro de um Estado verdadeiramente laico.
Transcrevo abaixo, alguns trechos do capítulo XX do Tratado Teológico Político, do filósofo holandês Baruch de Espinosa (1632-1677), que acredito, possam lançar alguma boa semente para esta discussão.
Publicado em 1670, sem mencionar o nome de seu autor, o Tratado logo foi vítima de censura estatal, por influência do Sínodo calvinista, os Estados Gerais da Holanda declaram a obra "perniciosa", proibindo sua impressão e divulgação.
Para Espinosa a função
da política é garantir a segurança da sociedade, salvaguardando o
direito de natureza e do mesmo modo a autonomia de cada cidadão. Não
se trata, portanto, de um Estado pedagogo/educador, cuja finalidade
seria constituir o sujeito humano, mas apenas preservá-lo; algo que
não é simples. Assim, a perspectiva espinosiana é bastante
distinta de boa parte da perspectiva iluminista (não que seja
impossível dialogar com esta cosmovisão)): a questão politica é
essencial para o desenvolvimento da sociedade e da felicidade
humanas. O progresso científico é secundário e depende da
efetivação da política, nos termos colocados por Espinosa.
Utilizei a tradução de Diogo Pires Aurélio, publicada pela Martins Fontes em 2008, na coleção Paidéia.
"Se fosse tão fácil
mandar nos ânimos como é mandar nas línguas, não haveria nenhum
governo que não estivesse em segurança ou que recorresse è
violência, uma vez que todos os súditos viveriam de acordo com o
desígnio dos governantes e só em função das suas prescrições é que ajuizariam do que era bom ou mau, verdadeiro ou falso, justo ou
iníquo. (…) A vontade de um homem não pode estar completamente
sujeita a jurisdição alheia, porquanto ninguém pode transferir
para outrem, nem ser coagido a tanto, o seu dreito natural ou a sua
faculdade de raciocinar livremente e ajuizar sobre qualquer coisa.
Por conseguinte, todo poder exercido sobre o foro íntimo se tem por
violento, da mesma forma que se considera ultrajar e usurpar o
direito dos seus súditos um soberano que queira prescrever a cada um
o que deve admitir como verdadeiro ou rejeitar como falso, e até as
opiniões em que deve apoiar-se na sua devoção para com Deus:
porque tudo isso pertence ao direito individual e ninguém, mesmo que
quisesse, poderia renunciar-lhe. Bem sei que o discernimento poder
ser influenciado de muitas maneiras, algumas quase inacreditáveis
Claro que reconheço
que tal liberdade traz por vezes certos inconvenientes; mas será que
já houve alguma coisa instituída com tanta sabedoria que daí não
pudesse surgir depois nenhum inconveniente Quem tudo quer fixar na
lei acaba por assanhar os vícios em vez de os corrigir. Aquilo que
não se pode proibir tem necessariamente que se permitir, não
obstante os danos que daí se advêm.
Se se quiser, pois, que
se aprecie a fidelidade e não a bajulação, se se quiser que as
autoridades soberanas mantenham intacto o poder e não sejam
obrigadas a fazer cedências aos revoltosos, terá que
obrigatoriamente de conceder a liberdade de opinião e governar os
homens de modo que, professando embora publicamente opiniões
diversas e até contrárias, vivam apesar disso em concórdia. E não
há dúvida de que essa maneira de governar é a melhor e a que traz
menos inconvenientes porquanto é a que mais se ajusta à natureza
humana. Com efeito, num Estado democrático (que é o que mais se
aproxima do estado de natureza), todos, como dissemos, se comprometem
pelo pacto a sujeitar ao que for comumente decidido os seus atos, mas
não os seus juízos e raciocínios; quer dizer, como é impossível
os homens pensarem todos do mesmo modo, acordaram que teria força de
lei a opinião que obtivesse o maior numero de votos, reservando-se,
entretanto, a autoridade de a revogar quando reconhecessem que havia
outra melhor. Sendo assim, quanto menos liberdade de opinião se
concede aos homens, mais nos afastamos do estado mais parecido com o
de natureza e, por conseguinte, mais violento é o poder.
I - É impossível
tirar aos homens a liberdade de dizerem o que pensam.
II – Esta liberdade
pode ser concedida aos indivíduos sem o prejuízo do direito e da
autoridade dos poderes soberanos, podendo cada um utilizá-la sem
prejuízo ainda desse mesmo direito, desde que daí não retire
pretexto para introduzir alterações na legislação do Estado ou
para fazer algo que vá cotra as leis estabelecidas.
III – A mesma
liberdade não representa nenhuma ameaça em relação à paz, nem
acarreta inconvenientes que não possam facilmente neutralizar-se.
IV – O mesmo se pode
dizer em relação à piedade.
V – As leis
promulgadas sobre matérias de ordem especulativa são de todo
inúteis.
VI – Finalmente, a
liberdade de opinião, não só pode ser concedida sem que a paz do
Estado, a piedade e o direito dos poderes soberanos fiquem
ameaçados, como inclusive o deve ser, se se quiser preservar tudo
isso. Na verdade, onde quer que se tente retirá-la aos homens, onde
quer que as opiniões dos dissidentes sejam levadas a tribunal e não
as intenções, quando só estas é que podem ser pecaminosas, aí,
os castigos que se dão para servirem de exemplo, aos olhos dos
homens de bem, parecem martírios, e aos outros, enfurecem-nos e
induzem-nos mais a ter compaixão, senão mesmo a vingar-se, do que a
ficar com medo. Depois, os bons costumes e a lealdade deterioram-se,
a bajulação e a perfídia são encorajadas e é o triunfo dos
inimigos porque os detentores do poder cederam perante a sua ira e se
tornaram seguidores da doutrina de que eles próprios se têm na
conta de intérpretes. Daí que tenham a ousadia de lhes usurpar o
direito e a autoridade e não corem de vergonha quando se gabam de
ter sido diretamente eleitos por Deus e de que os seus decretos são
divinos, enquanto os da suprema autoridade são simplesmente humanos,
razão pela qual esta se deveria subordinar aos decretos divinos, ou
seja, aos seus. Haverá alguém que possa ignorar que tudo isso vai
totalmente contra os interesses do Estado? Concluímos, portanto,
tal como já tínhamos feito no cap. XVIII, que não há nada melhor
para a segurança do Estado que fazer consistir a piedade e a
religião unicamente na prática da caridade e da justiça e limitar
o direito das autoridades soberanas, tanto em matéria sagrada como
profana, aos atos, deixando a cada um a liberdade de pensar aquilo
que quiser e de dizer aquilo que pensa. "
A imaginação não é,
como sugere a etimologia, a faculdade de formar imagens da realidade;
é a faculdade de formar imagens que ultrapassam a realidade, que
cantam a realidade. É uma faculdade de sobrehumanidade. Um
homem é um homem na proporção em que é um super-homem. Deve-se
definir um homem pelo conjunto das tendências que o impelem a
ultrapassar a humana condição. Uma psicologia da mente em
ação é automaticamente a psicologia de uma mente excepcional, a
psicologia de uma mente tentada pela exceção: a imagem nova
enxertada numa imagem antiga. A imaginação inventa mais que coisas
e dramas; inventa vida nova, inventa mente nova; abre olhos que tem
novos tipos de visão. Verá se tiver “visões”. Terá visões se
se educar com devaneios antes de educar-se com experiências, se as
experiências vierem depois como provas de seus devaneios. Como diz
D'Annunzio:
“Os
acontecimentos mais ricos ocorrem em nós muito antes que a alma se
aperceba dele. E, quando começamos a abrir os olhos para o visível,
há muito já estamos aderentes ao invisível.”
Essa adesão ao
invisível, eis a poesia primordial, eis a poesia que nos permite
tomar gosto por nosso destino íntimo. Ela nos dá uma impressão de
juventude ou de rejuvenescimento ao nos restituir inintewrruptamente
a faculdade de nos maravilharmos. A verdadeira poesia é uma função
de despertar.
BACHELARD,
Gaston A água e os sonhos: ensaio sobre a imaginação da
matéria. Tradução: Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins
Fontes, 1998 (Tópicos) pp. 17-18
Silent Waters (2007) é o oitavo álbum de estúdio do Amorphis. A banda finlandesa prossegue com seu trabalho inspirado na mitologia de seu país, as letras constituem traduções de poemas escritos por Pekka Kainulainen. A lírica está centrada no personagem Lemminkäinen, um dos heróis do Kalevala, compilação de poemas épicos da mitologia e folclore finlandeses realizada por Elias Lönnrot (1802-1884). Médico, botânico e linguista, Lönnrot empreendeu diversas viagens no interior da Finlândia e Rússia coletando canções, poemas e narrativas da tradição oral. Este trabalho teve uma papel fundamental na estruturação da língua e identidade nacional finlandesa, contribuindo para a independência do país em relação à Rússia.
Sucessor de Eclipse, de 2006, Silent Waters mantém o nível de qualidade musical do grupo. Destaca-se, também, a belíssima arte gráfica do encarte, do qual reproduzo algumas imagens.
Silent
Waters
A
day's light told me of my son's fate The
sun showed the way, grim and severe Pulled
under the raging waters, my child Sank
in the drowning currents, my son My
strenght is not enough, my powers failed me I
need the heavens help, I ask for thunder's force I
plead for you oh lightning, forge an iron tool A
magic rake for dragging, a river for my son God
of fire bring your light Forger
of sun help me now Guardian
of the shore will sleep in your warmth Lull
the folk of cold water Banish
the serpents of the dark To
the river let me go and fetch my son away A
rake made of iron from the Gods of skies The
spirit of bright days sent me the sun Cold
troops of Tuoni can not stand in my way Untouched
I shall walk by the river of the night My
child My
son
A
luz do dia me contou sobre o destino de meu filho
O
sol me mostrou o caminho, duro e severo
Empurrado
para as águas ferozes, minha criança
Engulido
pelas correntes, meu filho
Minha
força não é o suficiente, meus poderes me falharam
Preciso
da ajuda dos céus, peço a força do trovão
Eu
te imploro, ó tempestade, forje uma arma de ferro
Um
ancinho mágico para arrastar, um rio para meu filho
Deus
do fogo, traga-me a luz
Forjador
do sol, me ajude agora
Guardião
das marés irá dormir em seu calor
Acalme
o povo da água fria
Expulse
as serpentes das trevas
Ao
rio deixe-me ir e buscar meu filho
Um
ancinho de ferro feitos pelos deuses dos céus
O
espírito dos dias claros me enviou a luz
Tropas
frias de Tuoni não podem ficar em meu caminho
Intocado,
devo caminhar no rio da noite
Minha
criança
Meu
filho
Towards
And Against
I
have known the arcane lore on strange roads such visions met that
I have no fear nor concern for hatred and obstacles of this world
By
stone-shooed wanderer I am taught my visions from fiery eyed
iron-armed chanter I know how to fight, I know how to sing I
know hot to bend, I know how to break
I've
not grown weary on lengthy roads on strange lands not hone
astray such is the knowledge cast in me such is the knowledge,
such are the skills
I
know how to fight I know how to sing I know the way
If
ruin is said to befall me it has not come to pass I've
conquered all who stood on my way and drowned the snakes of death
Because
of treason i now shall leave because of my blood burning my
soul and now I raise this flaming sword towards darkness,
against everyone
Eu
conheci a sabedoria dos arcanos
Nas
estradas estranhas visões, encontrei
O
que eu não temo e nem me preocupo
Para
o ódio e os obstáculos deste mundo
Ao
andarilho pedra enxotou estou ensinou
Minhas
visões de cantor de olhos inflamados de ferro armado
Eu
sei como lutar, eu sei como cantar
Sei
quente para dobrar, eu sei como quebrar
Eu
não cansei de em estradas longas
Em
terras estranhas não desviar afiar
Tal
é o conhecimento elenco em mim
Tal
é o conhecimento, tais são as habilidades
Eu
sei como lutar
Eu
sei como cantar
Eu
sei o caminho
Se
a ruína diz que se abateu sobre mim
Ela
não tem passou aqui
Eu
conquistei todos os que estavam no meu caminho
E
afoguei as cobras da morte
Por
causa da traição eu agora devo ir
Por
causa do meu sangue queimando minha alma
E
agora eu levanto essa espada flamejante
Para
a escuridão, contra todos
Enigma
On
his trail the stones grew he was led astray forces strange he
had to face magic unseen when he asked he was not answered but
he would not yield what he asked for was not given
To
a whirling mass of waters the mountains of high his desire he
spoke out to claim his due a shadow moved in Louhi's mirror the
fairest maid of them all restless mind found her to his liking but
the queen wanted more
Louhi
spoke in riddled tones of three things to achieve fin and catch
the devil's moose and bring it there to me seek the stallion born
of fire, harness the flaming horse he captured and bound the
moose, he tamed the golden horse
Still
remained the final test hunt the bird from the stream of death
Em
seu rastro as pedras cresceu ele foi desviado forças
estranhas ele teve de enfrentar magia invisível quando
pediu que ele não foi respondida , mas ele não daria o
que ele pediu não foi dado
Para
uma massa rodopiante de águas das montanhas de alta o
seu desejo, ele falou para reclamar o seu devido uma
sombra passou no espelho Louhi de a mais bela dama de
todos mente inquieta encontrou-a a seu gosto , mas
a rainha queria mais
Louhi
falou em tons crivados de três coisas para alcançar fin e
pegar alce do diabo e trazê-lo de lá para me buscar o
garanhão nascido do fogo, aproveitar o cavalo flamejante ele
capturou e prendeu o alce, ele domou o cavalo de ouro
Ainda
continua a ser o teste finalcaçar a ave do fluxo de morte.
Shaman
Mother
wept for her son
she wept and sang anxiously pndered fate his
and her own
A
sun's ray, in through the eye glimmered in the room of
mind changing the woman shape sorrow fled her face
From
the shaman
into shaman
From
the chimney a witch flew out shaman dived across the sky under
her the woods and lakes till she saw the Northland gates
I
have come for my son, where is my son? I accept no lies, no
falsehoods or deception I'll send you plagues
unnumbered destruction upon your house I lay to waste your
treasures and slay your fairest daughter
The
queen of north told the way the road to River Black impossible
and incomplete the path of no return
Mãe
chorou por seu filho chorou e cantou destino
ansiosamente pndered seu e seu próprio
Um
raio sol, no meio do olho brilhava na sala da mente mudando
a forma mulher fugiu tristeza seu rosto
Desde
o xamã em xamã
Da
chaminé de uma bruxa voou xamã mergulhou no céu sob
seus bosques e lagos até que ela viu os portões Northland
Eu
vim para o meu filho, onde está meu filho? Aceito sem
mentiras, sem falsidades ou engano vou enviar-lhe atormenta
sem numeração destruição sobre sua casa eu
leigos a perder os seus tesouros e matar sua filha mais
justa
A
rainha do norte disse o caminho da estrada para Rio
Negro impossível e incompleto o caminho sem volta