quinta-feira, 27 de julho de 2017

Sobre a diversidade pedagógica.


Denomino “diversidade pedagógica” um conjunto de enunciados a respeito da educação em seus vários aspectos. Seus formuladores, membros da sociedade civil – não apenas trabalhadores da educação, em certos casos, estes são meros coadjuvantes – ou de órgãos governamentais, encontram-se no amplo espectro das ideologias políticas. Trata-se de vários tipos de discursos que pretendem constituir um espaço de discussão de questões educacionais num sentido público, aberto às diversas abordagens políticas, epistemológicas, estéticas… Mas, por certas razões (inconscientes e intencionais), eles não cumprem este objetivo. Lamentavelmente, tende a se tornar uma abstração de gabinete, algo que não existe, apenas um construto que traz apaziguamento às consciências inquietas que acreditam que a educação é a solução para todos os problemas do mundo (enquanto outros temas igualmente essenciais ficam relegados a um segundo plano). Um natimorto, se realmente chegou a ser concebido da forma pretendida… Ele atravessa todo o espectro ideológico, como afirmei acima, da esquerda à direita (para quem leva a ferro e fogo essas distinções), agregando as particularidades de cada credo. Por que a educação atrai tantos palpiteiros salvadores da pátria? Talvez porque todo mundo passou por um processo educativo, escolar ou de outro tipo, e o laço emocional seja muito forte, a experiência, com seus aspectos agradáveis ou não marca muito a personalidade da pessoa. Afinal, o que seria do animal humano sem o processo da educação? Entretanto, nenhum idealismo justifica a produção de juízos voluntaristas sem o mínimo conhecimento de causa (e entendo como causa aspectos históricos, filosóficos e políticos de todo campo educativo, não apenas “receitas caseiras”; requer um trabalho reflexivo paciente, que mobiliza história e memória, ética e racionalidade…).

Antes de avançar, alguns esclarecimentos oportunos. A expressão não é original e muitas vezes pode parecer estranha ao leitor da maneira como a emprego. Falo da  “minha diversidade pedagógica”, isto é, tal como a concebo. Contém certa dose de sarcasmo, por ser um tema banalizado a ponto de perder qualquer pertinência. Pode-se encontrar, “diversidade pedagógica” em outros contextos, bastante diferentes de minhas convicções a respeito do tema. Poderia utilizar “pluralidade pedagógica” ou “pluralismo pedagógico”; o efeito seria o mesmo. Melhor ainda: "Dissimulação pedagógica"! Entretanto, alguma implicação com a questão diversidade dentro de meu ser impeliu-me a usar a expressão. Por fim, “diversidade” remete a uma multiplicidade de visões, heterogêneas e conflitantes a respeito do tema. Dá uma ideia de uma sociedade aberta atuando. Mas, não é isso que ocorre.

Outra coisa; não defendo que qualquer elaboração intelectual seja aceita indiscriminadamente no contexto de uma conversação, diálogo e discussão acerca dos fundamentos de uma “boa educação” (no tocante a conteúdos, currículos, metodologias, políticas públicas, legislação, etc.). De forma alguma. Refiro-me ao vasto repertório formado ao longo dos séculos e que faz parte de nossa tradição ocidental – termo tao aviltado e propositalmente mal compreendido – , o que abrange desde a cultura clássica, passando pelas várias cristandades, até a produção intelectual do Renascimento e dos séculos da Modernidade e, finalmente, a Contemporaneidade. Estarei sendo “reducionista”, “etnocêntrico”, “elitista”, entre outros qualificativos que querem explicar tudo e acabam não esclarecendo nada? Depende do que se entende das expressões arroladas acima. Não dá  para abranger tudo o que existe. Vira superficialidade. Operamos a partir da perspectiva em que estamos; somos brasileiros, latino-americanos, tributários principalmente da cultura europeia e de elementos das culturas indígenas e africanas. De forma conflituosa, muitas vezes. O elitismo? Se se entender elitismo como opção deliberada pelo que melhor se produziu dentro de nossa tradição, algo canônico – certamente discutível e provisório, mas que passou pelo olhar de gente mais experiente que nós e, portanto, afigura certa excelência paradigmática, a ser conhecida, apreendida e depois reelaborada, ou deixada de lado, se for o caso – então, sou um elitista…
Existe muita coisa (autores, obras e conceitos) desconhecida, subestimada, mal compreendida, dentro de nossa tradição. Quanto às outras civilizações? Respeitemo-las, porém, antes de iniciar uma grande conversação com o outro, devemos conhecer em profundidade o que nos formou ao longo dos séculos. O que nós somos, para o bem e para o mal. Daí empreendemos um diálogo franco com o outro. Não se dialoga renegando nossa identidade (termo tão instrumentalizado e desgastado). Ou se envergonhando dela. Tanto no que se denomina “Ocidente”, “Oriente”, “África” quanto em outras configurações culturais e territoriais possíveis, existe barbárie e civilização, luz e trevas, sabedoria e ignorância. Não há paraíso em lugar algum.

Terminado este parenteses. Retomo a problematização da “diversidade pedagógica”

A diversidade pedagógica é, portanto, uma diversidade aparente, diria ilusória, no sentido de tentar cumprir sua promessa de dialogicidade sem fronteiras, na plena circulação das ideias, criticidade e conflito, sem limites rígidos, mas sem estofo (quanto à qualidade dos argumentos, conteúdos, honestidade intelectual e mesmo, real interesse de levar a efeito esse projeto). Acrescentaria que é uma diversidade dissimulada, seletiva (talvez hipócrita), pois apenas certas concepções, conceitos, autores e narrativas são considerados os mais legítimos e apropriados para o suposto diálogo.

Predomina certo tato, um “bom tom” em contextos mais refinados ou descolados, ou minimamente polidos, relacionado ao que é legítimo, válido e passível de discussão no campo educativo. Do mesmo modo, existe aquilo (conceitos, ideias, autores etc.) que é categorizado como secundário, irrelevante, “pouco complexo”, ou ainda, “ultrapassado”, “reacionário”, “conservador”, “tradicional”; esses quatro últimos, são adjetivos infalíveis quando se desqualifica qualquer um que pretenda problematizar os pressupostos epistêmicos, políticos, estéticos, éticos da “diversidade pedagógica”. Assim, é mais fácil descartar ou estigmatizar visões divergentes de forma mais elegante e “científica”. Entendo “contextos mais refinados ou descolados” aqueles ambientes tais como Universidades, gabinetes de secretarias de educação, diretorias de ensino e eventos da grande mídia do tipo “Cafés Filosóficos”, cursos, publicações encontros e debates (ou, pelo menos, se pretende debater algo…) promovidos pela Folha de São Paulo, Carta Capital, entre outros veículos de comunicação, ONGs, entidades da iniciativa privada, preocupados com a educação. A “polidez” talvez seja ironia e maldade de minha parte. Quem passou por um curso de licenciatura e tentou questionar determinado pensador e sua obra sabe do que estou falando. Melhor entender “polidez” como dissimulação, desfaçatez, com um pouco de humor britânico.
Em ambientes mais rudes (seja no tom da linguagem ou significando “vamos direto ao assunto sem enrolações”), entretanto, o clima é mais áspero, por vezes brutal, mas não necessariamente. É possível encontrar gente educadíssima. Refiro-me a lugares tais como o chão da luta sindical, da sala dos professores (sob certas circunstâncias, embora seja doloroso reconhecer isto; no entanto, acredito que na maior parte das vezes a sala dos professores tende a ser uma espécie de distanciamento da rotina entre as aulas), das reuniões pedagógicas (aqui, no Estado de São Paulo: PCTP), OT’s e cursos ministrados pelas Diretorias de Ensino (poderia alocar estes dois últimos itens nos “ambientes polidos”). Aqui, o “bem” e o “mal”, o “adequado” e o “inadequado”, (termos irritantes e vagos, apropriados da psicologia comportamental mais rasteira), o “amigo” e o “inimigo” da educação pública e do professorado são nomeados de forma mais direta. Em especial após as jornadas de junho de 2013, a tensão tornou-se mais feroz, quem era colega um dia antes vira desafeto no dia seguinte. Contribuiu em muito o uso intenso das redes sociais…
Os dois ambientes que descrevi acima, de maneira um tanto quanto artificial e subjetiva, são igualmente maniqueístas e classificatórios, diferindo apenas na intensidade dos discursos prescritivos, imperativos e/ou estigmatizadores.
Talvez a diferença marcante entre os dois seja socieconômica, o primeiro, mais elitizado, enquanto o outro engloba a totalidade do professorado (os ATPC’s são obrigatórios e é impossível escapar da convivência na sala dos professores na maior parte do tempo).

O que conta é a subserviência intelectual, adesão acrítica a uma determinada filiação metodológica (diria “teórica”, todavia um verdadeiro trabalho teórico com o necessário rigor é o que menos se encontra) no sentido mais superficial do termo, o de se afilar, aplicar, (como se a relação entre teoria e práxis fosse tão mecanicista assim…) indiscriminadamente e sem nenhuma mediação, as mais variadas concepções pedagógicas (ou psicopedagógicas) disponíveis no mercado das ideias educacionais. Se na concretude e complexidade da sala de aula este aparato ficar aquém dos resultados desejado ou tornar o trabalho ainda mais difícil, a responsabilidade é quase sempre do docente, e não necessariamente do ideário que foi proposto (ou melhor, imposto de cima para baixo).

Além da subserviência intelectual, existe a espinhosa questão da filiação política, ou politização, ideologização, partidarização entre outros… Que a Política (com p maiúsculo mesmo, significando a arte de dialogar e debater para organizar as relações entre os indivíduos, da sociedade civil e o Estado, do gerenciamento de recursos para o bem comum, ou seja, Republicanismo na melhor acepção do termo) é algo imprescindível em tudo o que se relaciona à educação, a política (minúscula em vários aspectos) no seu sentido mais depreciativo torna o ato educativo algo quase irrealizável. A subserviência a uma ideologia política é extremamente valorizada. Seja a partidária, em especial no sentido do “nós contra eles” ou algo mais metafísico, idealizado: “acredito na justiça social”, na “igualdade”, no desenvolvimento do “senso crítico”, no “socialismo” que, de forma alguma foi aquilo praticado na Cortina de Ferro e outros lugares, caso seja um educador de esquerda; um adepto da economia de mercado tem este discurso: “acredito firmemente que a educação (nesse caso sempre a escola) é um instrumento de fundamental importância (senão o único) para a inserção do jovem no mercado de trabalho”. De certo modo produzo uma caricatura. Acredito que a educação tem certo papel na vida econômica. Porém, é preciso especificar este papel, para que ele não inviabilize o que é o principal do dispositivo escolar, a transmissão de um legado cultural e a formação de um sujeito letrado, no sentido mais amplo da palavra. A educação não se limita a instituição escolar, e a tal “inserção no mercado de trabalho” pode ser feitas de forma mais eficiente em outras instâncias. Acredito na “justiça social”, mais é necessário qualificar o que se entende por este conceito, para destruir falsas expectativas e projetos enganosos (e oportunistas). E, novamente, verificar o que a escola pode contribuir para este ideário e o que pode comprometer o que é próprio da escola. Em outras palavras, uma escola pública de qualidade e acessível a todos é uma forma de fazer uma parte da “justiça social”. Outras instituições podem fazer sua parte.
“Senso crítico”? Temos aqui uma expressão que pode ser falaciosa se não for bem compreendida. Se entendermos como discernimento dos elementos de um dado discurso (filosófico, científico, político, religioso, estético, moral…), análise dos seus componentes, seus limites, ideal de autonomia intelectual, capacidade de pensar por conta própria após adquirir uma disciplina intelectual. Se for isso, tudo bem. Entretanto, muitas vezes “senso crítico” significa demonizar aquilo que é diferente e divergente, seguir uma “cartilha ideológica” de antemão, sem nenhuma autonomia, apenas para fazer parte do grupo ou por mesquinharia sectária.
A “diversidade pedagógica” tende a ignorar ou embaralhar estes pressupostos, tornando qualquer análise diálogo mais densos impossíveis.
O que torna a “diversidade pedagógica” um projeto inviável é a incapacidade ( ) que os seus defensores têm em apreender criticamente os limites de seu discurso e sua efetivação possível. Além disso, não sabe lidar com o imprevisto`, com o contraditório e com a divergência. É uma espécie de “cientificismo” que espera sempre estar no controle de tudo e nunca errar, atribuindo seus fracassos àqueles que lhes fazem resistência e questionamento. Desse modo, “Educação para Todos”, educação para a tolerância e diversidade (étnica, de gênero, religiosa, de lugar...), educar para a “Sociedade do Conhecimento”, formação integral, educação para a igualdade ou para equidade (em ambientes menos esquerdistas), educação para o empreendedorismo e para o protagonismo juvenil, entre tantos outras concepções que deveriam ser melhores analisadas, se reduzem a meras cartas de boas intenções que não se desdobram em práticas realmente significativas. Quando não se transformam em slogans repetidos ad infinitum, promessas que nunca serão realizadas. O que realmente ocorre, contra tudo que parte de seus proponentes acredita com ética e honestidade intelectual (uma outra parte, mais atuante, está satisfeita com a dissimulação e engodo) é uma socialização, uma adaptação ao existente – certo índice de alfabetização, ainda que insatisfatório, certas competências e habilidades exigidas pelo mercado de trabalho, embora por si só não garantam uma colocação –, mas não um processo educativo, uma formação cultural que mereça este nome.
Se desejamos/lutamos pela formação de um sujeito letrado e autoconsciente – com pleno domínio do ler, escrever, contar e apto a interpretar elementos de suportes diversos (escritos, sonoros, visuais…); que tenha conhecido e se apropriado de parte significativa do patrimônio cultural da humanidade, os caminhos para se chegar a este fim são variados (não inumeráveis, mas não apenas um).não existem professores, salas de aula, escolas ideais, experiências idênticas. Existem várias formas de educar, sem que estas entrem em conflito umas com as outras, ou uma seja privilegiada em detrimento das demais. Vários afluentes deságuam num rio. Teorias e metodologias, tomadas sem nenhum critério desembocam em lugar algum. 

Resenha do seriado Handmaid's Tale (O Conto da Aia).



Minhas primeiras impressões a respeito do Conto da Aia (Handmaid's Tale) são extremamente positivas, as melhores possíveis. Digo isto com certo sarcasmo, pois, foi bastante desconfortável assistir os primeiros episódios, tal a brutalidade concreta e simbólica que a história e sua competente forma de narrativa nos apresentam. E, se provocou mal-estar é porque a intenção do elenco, diretores, roteiristas e demais envolvidos foi atingida. E congratulo a escritora canadense Margareth Atwood, autora do livro homônimo, publicado em 1984, de onde série foi inspirada, por uma obra que provoca enorme inquietação sobre temas urgentes da contemporaneidade.
Do mesmo modo que Game of Thrones, comecei pela adaptação televisiva e, depois, aos poucos fui lendo a saga de George R.R.Martin. Curiosamente, estou lendo Orys e Crake, romance distópico da mesma autora. É o meu primeiro contato com sua obra.
         Narrada por Offred, outrora June, jovem de 31 anos, que vive na República de Gilead - Estado Teocrático que ocupa o território dos Estados Unidos num futuro próximo. Formada em ciências humanas, June sofre as imposições do novo governo, perde, assim como todas as mulheres, seu emprego e direito à conta bancária, e se vê dramaticamente afastada de sua filha e marido,após uma tentativa malsucedida de fuga para o Canadá. Depois de um treinamento brutal empreendido pela "Tias", June é transformada numa Aia, mulher fértil que deve servir a família dos Comandantes (chefes militares que detém o poder) e, periodicamente, participar de um ritual bizarro, denominado "Cerimônia", que consiste na violação sexual da aia em presença da esposa do Comandante. Inspirado em  Gênesis 30: 1-3, em que Raquel, impossibilitada de gerar filhos para Jacob, como que legitima que seu irado marido se aproveite da serva Bilha, para que Raquel "receba filhos por ela". As mulheres destes militares são estéreis, devido à idade ou transformações ambientais, que ficam subentendidas na trama.
        Portanto, vamos conhecendo aos poucos o mundo fechado da República de Gilead através dos olhos de Offred (em outras palavras, June perdeu seu nome e tornou-se propriedade do Comandante Fred Waterford, aportuguesando: de Fred). Há outros focos narrativos, mas Offred é o centro de todo o desenrolar dos acontecimentos.
        Sagas sobre indivíduos e coletividades submetidos a regimes totalitários contados sob diferentes prismas mobilizam a atenção de todos, especialmente quando bem contadas. Seguindo uma linhagem que engloba Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, Nós, de Nós, de Ievgueni Zamiatin, 1984, de George Orwell e, em especial, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, para ficar nos mais emblemáticos, Margaret Atwood imprime seu estilo na literatura de ficção científica, com uma marca implacável como o metal incandescente sob a pele de um animal ou uma pessoa submetida à tortura.
        Vou denominar essa marca de universo da não-palavra. A República de Gilead é um universo da não-palavra porque a palavra – escrita, lida, falada – está sob rígido controle, sufocada a ponto de perder qualquer relevância. Os livros estão banidos. Mesmo a Bíblia (em especial o Antigo Testamento), que seria o fundamento teológico e institucional da República de Gilead; Estado teocrático que, num futuro próximo abrange parte do território dos Estados Unidos após um golpe de estado, dentro de um contexto de crise ambiental severa; é apropriada numa forma extremamente seletiva, enfatizando aspectos do interesse da camada dominante. Frases e passagens descontextualizadas, lidas de forma literal, sem nenhuma hermenêutica, sob a forma de imperativos. Salvo engano, não vemos personagens lendo a Bíblia. Na oração que antecede a bizarra e brutal “Cerimônia”, o Comandante lê uma oração dum livrinho que, tanto pode ser uma Bíblia de bolso ou uma coletânea de passagens que são consideradas adequadas. É uma sociedade onde predomina a comunicação oral, que igualmente está sob um controle tão implacável quanto o mínimo de palavra escrita que é permitido, nesse caso para aqueles que detém o poder, apenas homens.
        Utilizo “palavra” no sentido de linguagem, veículo da interação entre os seres humanos. Ferramenta criadora de cultura e conflito, sentidos, significados, conceitos, caminhos e limites; com toda sua ambivalência e resultados inesperados.
No ambiente estéril do Conto da Aia, com altas taxas de infertilidade e recursos alimentares escassos, a palavra já não é mais criadora, instituidora de cultura. Serve apenas para demarcar fronteiras e hierarquias, absolutas e inegociáveis.
Nos supermercados, os rótulos limitam-se a sinais e símbolos bastante simplificados que indicam o que se está adquirindo. Numa estação do metrô, operários retiram placas e letras afixadas nas paredes de concreto. Serão substituídos por outra linguagem.





      Após uma sucessão de catástrofes globais, que provocaram:

– degradação ambiental e escassez de alimentos, acompanhada por efeitos na saúde (no caso do Conto da Serva, uma repentina perda da fertilidade de vastos contingentes da população, em especial a feminina; além disso, poucos bebês sobrevivem após nascerem, e não apresentam doenças congênitas, que acabam invariavelmente levando a morte)
– crise econômica, falência dos parques industriais e desemprego crescente;
– perda de confiança na política e advento de grupos que defendem soluções autoritárias.

       Nesse caso, os Filhos de Jacob, mediante estratégias inspiradas na CIA, nos totalitarismos de direita e de esquerda. Encarceramento e execução de intelectuais e professores, tal como praticado pelo Kmer Vermelho. Contrainformação e clima de terror permanente, via delações, a maneira orweliana. Momentos de extravasamento de ódio através de linchamentos. Uso da internet apenas pela elite (masculina) governante e militares; ataques terroristas a edifícios símbolos da democracia norte-americana e finalmente, acesso ao poderes que constituem uma religiosa, com a reelaboração de leis e expurgo dos dissidentes. 

Como os Estados Unidos da América foram, em poucos anos, se transformando na República de Gilead? O povo demorou aperceber? E quando tomou consciência da tragédia, já era tarde demais, restando o exílio e a fuga. Questões que ficam em aberto, e mostram como a democracia é uma sistema frágial e precioso, que precisa ser...

      Há hipocrisia e resistência, mercado negro e prazeres proibidos à todos, porém acessiveis a alguns privilegiados.

       As comparações com a recém-instalada era Trump e seus desdobramentos políticos e culturais precisam ser matizasas. Existem analogias possíveis, no tocante ao isolacionismo econômico e xenofobia. Suas piadas grosseiras a respeito das mulheres e acusações de abuso sexual … Entretanto Donald Trump é um hedonista e é pouco provável que esteja interessar em vedar o acesso das mulheres à educação ou proibi-las de trabalhar.

       É inegável a existência de reacionarismo político e religioso dentro do Partido Republicano. E também de certos grupos cristãos à margem da política partidária. Vale lembrar das bizarras figuras de Rick Santorum e Sara Palin, que concorreram como candidatos para a nomeação republicana à presidência dos Estados Unido nas prévias de 2008. O primeiro, católico tradicionalista, com forte teor anti-intelectualista e a segunda, de orientação protestante, seguindo um viés militarista. Mitt Romney e John McCain eram mais razoáveis e bem mais equipados intelectualmente para assuntos de economia e política externa. Romney que é mórmon, sofria certa discriminação por causa de sua fé, vista por alguns como não-cristã. O que dá uma ideia da complexidade do universo religioso estadunidense.

De qualquer forma o que vemos no seriado é uma distopia com forte inspiração no mais extremo fundamentalismo muçulmano, representado pelo Estado Islâmico (ISIS) e o Talibã quando em seu auge. Gostemos ou não, o Islã contemporâneo tem pendores mais totalitários do que o cristianismo ocidental. Basta pesquisar com distanciamento crítico a situação dos cristãos em países islâmicos e a perseguição de muçulmanos mais contestadores em seus próprios Estados.

Embora a República de Gilead seja uma ditadura de inspiração cristã fundamentalista, ao estilo WASP norte-americano, é impossível ignorar as conexões com o extremismo islâmico, sobremaneira sua obsessão em controlar a sexualidade feminina e o papel da mulher na sociedade. Uma das primeiras medidas foi a proibição do trabalho feminino ao ponto das mulheres não poderem mais ter conta bancária. Quem acompanha com atenção a série se lembrará de quando June, acompanhada da amiga Moira, ao adentrarem um Café, não conseguir pagar o lanche com seu cartão de débito, embora o pagamento tenha caído há poucos dias. E ainda são tratadas com grosseria pelo dono do estabelecimento (talvez devido aos trajes esportivos que usavam na ocasião), provável simpatizante da nova ordem que se instituía sorrateiramente. 

Outra medida extremista foi a proibição do acesso à leitura às mulheres, lei que teve a participação da esposa do Comandante Waterford, paradoxalmente uma acadêmica responsável por pesquisas importantes sobre fertilidade e meio ambiente.

Não é coincidência que Margaret Atwood situe a formação de seu Estado fictício na Nova Inglaterra, região da caça às bruxas de Salém e marcada por rígida tradição puritana. O vestuário vermelho das aias remete à indumentária do século XVII, lembrando a pintura holandesa deste tempo e a severa tradição calvinista.

De qualquer forma, as analogias com o Estado Islâmico e o Talibã (quando no seu auge) são mais fortes do que com a tradição cristã, especialmente a Reformada. Um olhar sem preconceitos para com a história do cristianismo mostra que, antes da instrução pública do século XIX, reivindicada pelos revolucionários de 1789, os protestantes defendiam o acesso à leitura e escrita, ainda que básicas, para as camadas populares, incluindo as mulheres, cada indivíduo seria seu sacerdote, dizia Martinho Lutero, daí aprender a ler para ter acesso à sagrada escritura. Vale lembrar que as grandes universidades estadunidenses têm origem na tradição reformada. Do mesmo modo, o Islã não se resume ao fundamentalismo. Em tempos de politicamente correto e desonestidade intelectual é preciso se precaver para certo anticristianismo barato e irresponsável. E tratar a sociedade de forma acrítca. Ou criticá-la sem fundamento teórico e empírico.





Uma série feminista? Sim, no aspecto de valorização dos direitos e dignidade da mulher, pois são as primeiras vítimas de regimes totalitários deste tipo. Mas os homens também são atingidos quando violam as rígidas regras. Há uma cena rápida, quando Offred e sua amiga voltavam do supermercado e presenciam os militares saindo das emblemáticas vans pretas e aprisionam um homem que portava uma maleta. Homossexual? Suspeito de espionagem e traição? Contrabandeava livros e outros materiais proibidos?
        Para além dessa polêmica, o seriado trata da destruição do humano, independente de gênero, etnia, condição social. E demonstra essa barbárie através da ficção de forma brilhante.  

    A construção dos personagens é delicada, sem caricaturização. Todos apresentam a devida complexidade para uma ficção madura, mesmo aqueles mais abjetos. Existe, portanto, uma presença do mal (que entendo como metafísico) e da injustiça, mas sem a necessidade de um maniqueísmo empobrecedor. Só um insano simpatizaria com a ideologia totalitária da República de Gilead, os procedimentos das “Tias” e dos Comandantes e seus subordinados. Todavia, estamos lidando com personagens consistentes, com todas as ambivalências, o que torna o espetáculo mais estimulante. Torcer por June/Offred e as pelas demais aias, pela democracia e Estado de Direito que foram abduzidos não significa apenas alguns momentos de entretenimento pensante, neste caso. Significa defender valores civilizatórios através da arte, sem panfletarismo, algo extremamente difícil. 

    O elenco é irrepreensível, destacando, sem dúvida, a Elizabeth Moss, que compõe com luminosidade uma sofrida e corajosa, na medida do possível, June/Offred que luta contra sua aniquilação (desculpem-me não ter uma expressão mais original, usaria “uma sofrida e resiliente June/Offred”, porém tenho restrições ao uso banal das palavras resiliência/resiliente - implica certo conformismo e transformação da pessoa num objeto maleável, não é por acaso que é um termo importado da física e engenharia, mas fica para outra discussão). Destaco principalmente seu olhar, predominante triste e com alguns lampejos de frágil esperança, que diz quase tudo… Joseph Fiennes, quiçá o ator mais conhecido, encarna um contido e um tanto sinistro Comandante Waterford. Sua consorte,  Serena Joy (Yvonne Strahovski) é uma mulher que recalcou sua carreira intelectual pela causa política e a insana fé. Angustiada pela impossibilidade de ser mãe. Ann Dowd, implacável na temível Tia Lydia, com sua postura imperativa e sufocante, toda vez que aparece. No entanto, também apresenta alguns momentos de ternura quando consola a aia Janine (outra personagem perturbadora, à beira da loucura) excluída de um evento, ao exemplo de outras servas, por causa das mutilações resultantes de castigos físicos, no caso dela, um olho perdido. Seria interessante uma maior exploração da vida interior destes “vilões”. Como viviam antes deste cataclismo civilizatório? O que os levou para esse caminho totalitário? de oprimirem sua humanidade e racionalidade e a infligir tanta dor aos outros. Em suas mentes ainda existe espaço para a dúvida? E por fim, o motorista Nick, soturnamente vivido por Max Minghella, uma espécie de agente de elite do Estado infiltrado no cotidiano de todos, chamado "Olho". 

O desenho de produção evita pirotecnias desnecessárias. Os cenários são despojados e escuros, em especial os interiores; tudo de acordo com o ideário ascético da República de Gilead. Quase tudo se resume ao mínimo necessário, como se demonstrar um traço pessoal fosse pecado (e é, na mente…). Uma possível exceção é o escritório do Comandante Waterford, com uma generosa biblioteca, com tudo aquilo que é negado ao povo, e as mulheres, livros.  As pessoas saem as ruas o mínimo possível, compras e trabalho, com a indumentária que distingue sua posição social. Os sisudos e onipresentes militares e seus veículos escuros são outra conexão com o mundo real, remetendo aos paramilitares do Oriente Médio e América Latina. Em contraste, o mundo pré-ditadura é mais luminoso, vívido; embora sintamos a presença sutil da crise ambiental e, da política e social que se desencadeará em breve.

A 1ª temporada limitou-se a dez capítulos, com um final em aberto, tal como o livro. Para quem leu o romance, esta temporada abrangeu o romance todo, exceto por um apêndice fictício, onde se especula sobre o destino de Offred/June.O que parece ser a base da próxima ou próximas temporadas. Agora fica por conta da imaginação e talento dos roteiristas, embora Margaret Atwood seja consultora da série e possa dar dicas de como continuaria sua história através de outros olhares .  Depois de reconhecer a excelência da produção fico sempre preocupado com uma possível “encheção de linguiça” que estraga tantos projetos interessantes. Todavia,  a equipe parece empenhada em realizar um trabalho de qualidade. Acredito que esteja errado e os passos seguintes sejam surpreendentes. O início foi promissor e constitui ótimo material rico para fruição estética e reflexão.







quinta-feira, 13 de julho de 2017

NWOBHM para o Dia do Rock

Uma breve seleção de bandas da NWOBHM (New Wave Of British Heavy Metal) para o Dia do Rock. Foi um movimento rico e sei que muita coisa relevante ficou de fora. Escolhi bandas menos conhecidas, porém de qualidade inigualável. Infelizmente não consegui localizar algumas letras.Se algum leitor puder ajudar a completar a postagem ficarei grato.

Um bom Dia do Rock para todos!

Tysondog - Painted Heroes






Words of anger scream in my head
But I can't think straight my mind is dead
The words you've spoken cut like a knife
So many times I've lived this life

Don't take it all away

Fight the tide back turn & run
I know I'm not the only one
So much is different so much has changed
But things can never stay the same

Don't take it all away

Paited hero's stand cold in command
Faceless warriors lie dead in the sand
Killer legions lay waste to the land
Marching south to the house of the damned

I see clearly but your so blind
An honest face is hard to find
I've walked alone,I've walked with men
But I may never walk again

Don't take it all away

Witchfynde - The Divine Victim







Pagan Altar - Sentinels of Hate





People often now stand and stare
And wonder who could they be
That would leave such a lasting
Tribute to their lives
But they never look down in the undergrowth
At the pile of broken stone
Or spare a thought
For all the young men who have died

Ruined Chapels and neglected graves
Have masked the truth for years
Only mangled limbs
Bear witness to their pain
Their lord and masters pampered lives
Are marked by a granite tomb
But in death the bones
Will always look the same

The hooves of black plumed horses
Are silent on the cobbled streets
And a rusty lock secures the cemetery gates
The age is long since dead and gone
When they ruled in our domain
All that's left are these sentinels of hate

Stone and marble pillars reaching higher
Pointing ever upward to the skies
Looking down on the rank and file
Beneath them in the cold dark ground
As they'd done throughout their selfish lives
All through there lives!

Evening falls to cast shadows ever longer
To slowly move across each soul again
As if to say look up to me
I'm still your master as I'll always be
Even in death our roles are still the same
They haven't changed!
Ashes down to ashes, dust down to dust
It was the children born with a silver spoon
And dealt the kind hand of fate
Created these monoliths to power
Built these sentinels of hate!

Their pious names cut deep into the marble
Clear for all to see down though the years
The means to their success lies buried
In crumbling vaults with broken headstones
No reflection left of all the tears
Shed down the years

Mendes Prey - Running for you (1982)







Tygers Of Pan Tang - Insanity



I walk around this place each day
See those kids, what do they say
The air is empty - I'm left alone
They speak to me in this accusing tone

Insanity

Clouds part and I can see the sky
The wind rushes through my mind
Will they take me? Will I be known?
Forever you'll be banished I hear one moan

Insanity

I know you're there in a space in time
I see its life evolve like mine
Although we're gone, when I dream I find
In the end we'll all be caught by time


 Mythra - Death And Destiny









A lonely life of mystery beyond the realms of sanity.
Pictures flash,
illusions spread propaganda for the dead.
Curiosity plants a bitter seed of clutching hands and mindless greed.
Murder, mayhem, savage sin for those who let the devil in.

Death and Destiny

Poetic justice to laugh at sight as blind lead blind towards the light.
A hollow sense of hollow greed to bite the hand that tries to feed.
Reality is never there for those who try so hard to compare
themselves with someone in their mind
tremendous foresight but oh so blind.

Death and Destiny

Searching brings despair, so don't seek
Seeing does not believe, so don't look
Loving brings pain, so don't love
Living brings death, so don't live

Death and Destiny

Elixir -  Dead Man's Gold  



On the day that we set sail
The sun rose on a shiny sea
Spray fell in a misty veil
And we were free

We heard tales in the tavern
We heard the legends told
Of one man's buried treasure
The story of a dead man's gold

For three months we had sailed
On rough and stormy seas
Heading for an inland cove
To find our destiny

On the voyage we all remembered
All the stories we'd been told
Of one man's buried treasure
The stories of a dead man's gold

When we saw the headland rising
Blue skies and pure white sands
With our hopes held in our hearts
And our maps held in our hands

Soon our dreams has all been shattered
We believed the lies of old
We spend our whole lives chasing fables
The ghosts of a dead man's gold  

sábado, 3 de junho de 2017

Reflexões em torno de minha internação hospitalar.



                                                                            Ter saúde não é não adoecer. É poder adoecer e se                                                                                   recuperar. Poder sofrer e ultrapassar o sofrimento,                                                                                   engendrando novas formas de lidar com a vida. 
                                                                                                                       Georges Canguilhem

                                                                            Felizes os que sabem que o sofrimento não é uma                                                                                   coroa de glórias. 
                                                                                                                      Jorge Luis Borges –                                                                                                                  fragmento de um evangelho apócrifo 

                                                                            Pois esta é a ferida da vida: letra morta sempre viva                                                                                 na palavra que se afirma e se nega na entrelinha.                                                                                                                              Mário Chamie 

                                                                            Que é isto? onde me lançou/ esta tempestade má?
                                                                                                                     Sá de Miranda - Cantiga III 


 Entre 14 de abril e 8 de maio do corrente ano, permaneci internado no Hospital do Servidor Público Estadual, no 11º andar, Gastroclínica e Otorrinolaringologia, para tratar de dores abdominais, uma taxa de glicemia altíssima e realizar exames e demais procedimentos. Um ultrassom realizado na semana anterior apontava uma trombose na vei porta do fígado.

 Esta história teve início na véspera do carnaval, quando resolvi fazer doação de sangue no Pró-Sangue do Complexo Hospitalar do Mandaqui. No entanto, o teste de anemia marcou 64% de hematócritos, o que significava o contrário da anemia, inviabilizando, ois, a doação. A hematologista da unidade recomendou-me a realização de um hemograma e exames correlacionados. Depois dos resultados, agendaria uma consulta com um colega de sua especialidade. Fiz tudo num laboratório conveniado ao IAMSPE. Dez dias depois os resultados estavam prontos. Curiosamente, o médico responsável pediu a repetição do hemograma. O que acendeu meu sinal de alerta de que este caso seria mais complexo. A alta taxa de glicemia, associada a outros sinais, apontava para algo que eu desconfiava há certo tempo e, que talvez, estivesse recalcando no mais profundo de meu ser.

 No início de abril, comecei a sentir fortes dores abdominais, certa fraqueza e indisposição/desânimo. Retornei ao HSPE, onde fiz exames de sangue e o referido ultrassom, além da medicação. A dor cessou por certo tempo. A medicação, Buscopan Composto, escondia o incômodo. No meio da semana seguinte, a dor retornou, recorri a umpronto socorro de meu bairro, onde foi aplicada uma dose de insulina para baixar a glicemia e medicação para aliviar a dor. todavia, a dor não era aplacada de forma alguma. No dia do feriado, 14/04, voltei ao IAMSPE. A taxa de glicemia estava bem alta, e a clínica geral, que também era endocrinologista, ao analisar o ultrassom, recomendou a internação pois a dor seria melhor tratada neste procedimento e precisaria de mais exames e investigar a causa da trombose. Apesar da novidade, não hesitei em autorizar a internação.

 Foi minha primeira experiência neste aspecto. A carga de exames foi considerável: desde coletas frequentes de sangue (por vezes mais de dois tubinhos), até os exames mais complexos como Tomografia, Angio Ressonância, Ecocardiograma, Espirometria, radiografias, endoscopia e endoscopia com ligadura e biópsia do fígado.

 Como eu suspeitava, fui diagnosticado com diabetes tipo dois. Entretanto, o que intrigava mais os médicos era a trombose na veia porta, pois eu não sou fumante e nem consumo álcool. E na minha família não havia histórico semelhante.

 A equipe da hematologia pediu minha autorização para a realização de um exame genético relativo ao gene JAK 2. Dias depois, os resultados do teste esclareciam parte do enigma. Sou portador de Policitemia Vera, doença mieloproliferativa crônica, atestado pela detecção da mutação V617F no gene Janus Kinase (JAK2). Caracterizada pelo aumento do volume dos glóbulos vermelhos. A produção anormal e acentuada de eritrócitos, leucócitos e plaquetas provoca eventos como tromboses e AVC. Há possibilidade muito remota de desenvolvimento de uma leucemia. A evolução da moléstia é benigna e seu quadro é assintomático, porém bastante controlável. Só detectado por meio de exames ou quando alguns destes eventos se manifestam. No meu caso o sinal de alerta foi a trombose na veia porta. Meu tratamento visa retardar e diminuir a produção de eritrócitos por meio de sangrias ou flebotomia (uma doação de sangue, cerca de 400 ml.) e o uso do quimioterápico Hydrea (Hidroxiureia) e o AAS infantil. Quanto à diabetes, tento seguir a dieta e faço uso do medicamento específico. No mais, levar o que chamam de “vida normal”.  O triste era se tornar um doador a menos de sanguem meu tipo, B negativo, é relativamente raro.

 Fui bem tratado, dentro das condições atuais do sistema público de saúde do Estado de São Paulo. Agradeço aos médicos, enfermeiros e demais funcionários do IAMSPE, e meus familiares e amigos pela atenção. Bem, até aqui narrei os fatos, de forma mais breve e objetiva possível. Agora, divagar um pouco...

 Não tenho, caro leitor, nenhuma retórica edificante para oferecer mesmo modo, nenhum exercício de autodepreciação (ainda que possua certa propensão a isso). Sou perfeccionista e rigoroso comigo mesmo. Não vejo problema algum na autocrítica, desde que não se torne paralisante.

 Não busco comiseração, não almejo à angelitude ou à irrupção de alguma divindade interior. Desconfio de profetas e profecias. Dispenso filosofias baratas, esoterismos e espiritualidades mercenárias, ou seja, aquelas mais preocupadas com a onipotência de quem as produz, do que com o destino daqueles que as consomem. Doses moderadas de epicurismo, estoicismo, Montaigne e Nietzsche me bastam quando advêm horas obscuras. Literatura fantástica, música erudita e pesada são imprescindíveis. Me abasteço disto nos momentos de desastre. Meu imperfeito racionalismo e ceticismo são o passaporte possível para atravessar paragens do desespero e desviar, o quanto for possível, do sofrimento. Estou me habituando a navegar pelo acaso e acolher os imprevistos. Feridas e fraturas expostas do meu ser não são o preço pago por tudo isto. São contingências que eu apreendo ou ignoro. Minha dor é impartilhável. Só diz respeito a mim. Reivindico apenas minha humanidade, ambivalente, incompleta e imprecisa. Entremeada de defeitos e qualidades. Apenas isso…

 O dispositivo hospitalar nos despoja de todo sensação de autossuficiência e independência (que nunca são absolutas). Nunca senti tremenda sensação de fragilidade e dependência de um outro (que não é o imediatamente próximo). As modificações no seu corpo, dores e alívios, progressos e recaídas, perda ou ganho de peso, alterações na pele, seus segredos mais íntimos (ao menos até certo ponto, você pode dissimulá-los), são desvelados, involuntariamente ou não… nudez simbólica e virtual que assinala a condição incerta do ser humano enfermo.

A solidão absoluta era impraticável, pois convivi com quatro companheiros de quarto, cujas histórias era difícil não partilhar, embora minha relativa misantropia conduzisse a busca por isolamento. Que conseguia passeando pelo corredor e pelo saguão, além de ler e ouvir rádio nos bancos desses ambientes.

 Todavia, não senti, na maior parte do tempo, que fui tratado como criança ou marionete. Se o hospital é uma instituição total, desconfio de certos construtos althusserianos e foucaltianos a respeito das instituições, que ainda predominam nas análises dos sistemas de saúde. Há uma relação de poder, desigual, imperceptível, mas por que seria apenas um mal? É claro que desejava ou imaginava outras formas de tratamento, porém, entre continuar com a dor aguda e viver sob a sombra do risco de alguma hemorragia ou coisa pior, a internação e a submissão a conceitos, juízos e procedimento que você não domina constituíram. Basta pensar nos despojados de tudo, sobrevivendo ao léu das ruas e construções, cujo modo de vida é hipocritamente romantizado por aqueles que possuem acesso ao que há de melhor no campo da saúde.

 Nunca estive tão próximo do sentimento de finitude. Embora, perto da alta, tenha ficado ciente da cronicidade do meu caso, os momentos iniciais foram de imensa interrogação, angustiosa interrogação: seria algum tumor? Necessitaria de intervenção cirúrgica complexa, quais sequelas adviriam de todo o processo. Nem as crises de depressão provocaram tamanho estilhaçamento em meus pensamentos e ações.

A passagem do tempo? Ah, o tempo. O que posso dizer, sem me valer de lugares comuns? Impossível não evocar a noção dos dias intermináveis e quase sempre iguais aos outros. E foram na maioria das vezes. Havia momentos de transgressão, alguns passeios para além do ambulatório, para exames. Creio que aproveitei bem o tempo da memória.Deu para esculpi-lo. Desviar da rotina de quando em quando. Rememorações ora agradáveis ou não, ou ainda aquelas difíceis de valorar. Vislumbres, sonhos. Indecifráveis, inesperados, minuciosos, banais e longínquos. Vastos universos com infinitas ramificações que se perdem. Difícil de contemplar sem a vertigem. Não estava numa condição em que oprimia um alheamento do mundo de fora, algo impossível; como imagino que é a passagem do tempo dos acamados, entubados, sedados e entregues ao coma induzido.

 Seria um mentiroso se negasse os momentos de impaciência, ódio até. Haviam dias em que nenhum exame era programado e as visitas do médico bastante breves, enigmáticas… Deslembranças e lembranças intoleráveis que gostaria de cauterizar de minha mente. Vocábulos e pensamentos travados que escapam de seu alcance e desesperadamente tenta recuperar…Quem nunca sentiu raiva de si? Quem nunca pensou em autodestruição?

 Meu primo trouxe os diários de classe, pois fui pego no encerramento do 1º bimestre. Completei-os da melhor forma que pude. Alguns livros, cd’s e meu tablet fizeram companhia. Não usufrui da forma que gostaria. Ouvia mais o rádio do celular. Escrevi pouco e não desenhei absolutamente nada. O que fiz de forma mais produtiva foi mergulhar em meus pensamentos. Surgiram as deslembranças e lembranças intoleráveis que aludi acima. Compreendi, entretanto, que esse mundo subterrâneo da existência constituía uma matriz de esperanças longínquas a que me agarrava. Projetos e sonhos, ainda que precariamente esboçados. Esquecer minha ruína financeira, a maldita chuva que estraga minha casa de tempos em tempos, por certos instantes foi um elixir que proporcionava alguma sanidade e margem de manobra. Foi e continua a ser doloroso. Melhor não seria deixar de trazê-lo à luz do dia? Após a alta, surgiu outro Marcelo?

 Não tenho resposta fácil. Uma vitória, se posso usar essa palavra, consiste em perceber que você não é uma carta fora do baralho. Existe a possibilidade de reorganizar a vida a partir de outros parâmetros, ao mesmo tempo que certos hábitos insatisfatórios são descartados, valores e características suas, muito preciosos, submersos nos vagalhões da existência são recuperados com outro olhar. Sobrevivi a experiência . Continuar a viver, entretanto, é algo mais complexo. Estou disposto a prosseguir. Seria hipócrita,todavia, em admitir que tudo é uma página virada e não existe a vontade de largar tudo. Recorro à metáfora da guerra, um tanto desgastada, como tantas outras, mas é a que disponho no momento, pois aprecio narrativas épicas clássicas ou na linha do Senhor dos Anéis e Game of Thrones. Se, a partir de agora, enfrento batalhas intensas, pretendo não desertar. Em várias ocasiões será uma guerra sem testemunhas, como foi quando resolvi escrever este texto. Que agora exponho publicamente.

 Encerro este texto como iniciei, sob as palavras de Georges Canguilhem:

                    “(…) A loucura, a dor subjetiva, a morte, o envelhecimento, não são ruídos, desvios,                             disfunções de uma vida que se extraviou de seu rumo [ao contrário, são, como afirma
                      o  filósofo francês] (…) os signos de uma vida normativa. Uma vida que não se depara 
                      com o   intolerável, com o assombro, com o sem sentido, é uma vida 
                       empobrecida, normatizada, incapaz de agir criativamente.”

Fonte da imagem:  http://insgid.ru/dobrovolnoe-meditsinskoe-strakhovanie-dms

sábado, 10 de setembro de 2016

Claude Kappler Monstros, demônios e encantamentos no fim da Idade Média.



Um presente para os meus leitores.

Monstros, demônios e encantamentos no fim da Idade Média, de Claude Kappler . (tradução: Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 1994; Coleção O Homem e a História) é um daqueles livros fundamentais que são sempre mencionados e recomendados mas que se encontram inexplicavelmente fora de catálogo.

Claude-Claire Kappler (n. em 1946) é uma  medievalista e orientalista francesa. Pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) na área de literatura medieval. Ela também é especializada em literatura persa clássica e sobre as relações entre o Oriente e o Ocidente.

A ideia deste livro teve origem na contemplação das pinturas de Hieronymus Bosch. A autora indagava: o que era o monstro na Idade Média? Como ele era compreendido? Que papel desempenhava?
O problema que orientou sua pesquisa, em suas palavras: “o que para nós é obscuro parece ter sido claro naqueles tempos” [pois] estavam inseridos num contexto que a esclarece e a explica.", p.3

Portanto, seu objeto de estudo consiste no monstro na imaginação, e não na natureza (pois a atitude adotada em relação ao primeiro item pode ser parcialmente explicada pelo segundo).
 A pesquisa foi realizada principalmente nas bibliotecas universitárias de Basiléia, Estrasburgo e Genebra. o enorme corpus documental abrangeu fontes literárias e iconográficas (muitas, até aquele momento inéditas). de modo que compreendia o seguinte:grandes obras/textos – o monstro aparece de forma esparsa e rara. Narrativas de viagens: “aparecem com uma constância e uma naturalidade que lhes conferem existência própria” p.4 --- séculos XIII-XIV-XVI... África e Ásia – "afinidades naturais entre viagens, contos e mitos: a imaginação é muito estimulada"., p.4

 Não havia uma definição de monstro, mas tentativas de defini-lo que variavam de acordo com os autores e fundamentalmente segundo às épocas. Geralmente o monstro é definido em relação à norma pp. 292-293; também o monstro é aquele cujo aspecto não estamos acostumados. É um desvio da forma... Na literatura o monstro pode ter várias funções: narrativa, simbólica (com finalidade moral) e uma função catártica. (que permite combater o mal e o excesso)

A palavra “monstro”, do latim monstrum: “prodígio / milagre” surgiu durante a primeira metade do século XII e é empregada para designar criaturas disformes que eram exibidas nos circos ou nas feiras.

No século XIX surge a teratologia, “ciência” dos seres monstruosos, ou mais precisamente estudo das anomalias do desenvolvimento embrionário. Segundo o zoólogo e naturalista francês Étienne Geoffory Saint-Hilaire (1772-1844) “o monstro é um homem inacabado”.

Na definição corrente: monstro é um ser vivo cuja conformação difere consideravelmente da dos indivíduos de sua espécie, por excesso, por falta ou pela posição anormal de certas partes de seu corpo.

Finalmente o termo “monstro” também remete às criaturas fantásticas e terríveis das lendas e das mitologias (Centauro, Quimera, Minotauro...). Sem olvidarmos do imaginário contemporâneo, cujo suporte é o cinema, a literatura de terror, as histórias em quadrinhos. Mas esse aspecto foge do livro em questão.

Para Claude Kappler a qualificação de “monstro” baseia-se em três tipos de argumentos:

O argumento genético, que leva em consideração as causas (Aristóteles, “Geração dos animais”; e também Ambrósio Paré)
O argumento teológico e estético, que se apoia na harmonia do universo (Santo Agostinho, “Cidade de Deus”; XVI,8)
O argumento exemplarista ou normativo, que se refere a modelos dos quais os monstros se afastariam como se fossem “más reproduções”.

O monstro existe em todos os níveis da Criação, tanto no reino humano, como nos reinos animal, vegetal e mineral.

Santo Agostinho interessava-se somente pelos monstros humanos. A questão que o mobiliza é saber se as raças monstruosas descendem de Adão, o que põe em dúvida a legitimidade da perfeição da Criação. O bispo de Hipona se vale de uma interessante noção de diversidade: nada ocorre ao acaso e Deus criou o Universo como um tecido onde a semelhança e a diversidade entre as partes se entrelaçam. Portanto o monstro representa uma espécie de contrapeso, enquanto criatura distinta do protótipo humano.

Segundo a perspectiva medieval os monstros são parte integrante da Criação, sendo contados entre a fervilhante população do Universo.
Quanto à atitude medieval com relação aos monstros. O imaginário medieval estabeleceu uma tipologia dos monstros que observa certos critérios:
  1. o monstro como símbolo do antiético, do “completamente outro”;
  2. o monstro como criatura “fraca” (a quem falta algo de essencial ou que apresenta uma deformidade dos órgãos;
  3. o monstro como fusão dos reinos animal, vegetal e mineral, ou ainda como fusão dos sexos;
  4. o monstro como criatura todo-poderosa ou destruidora.
Os modernos consideram o monstro um mistério, escândalo, espécie maldita e ligada a uma patologia.  

Enfim, uma obra muito rica de insights e muito bem escrita, constituindo excelente fonte de aprendizado sobre um imaginário sempre presente na contemporaneidade, via cinema, seriados, HQs e demais artes.