domingo, 26 de julho de 2009

Selvagem/Civilizado: Sobre Jean Itard e o menino selvagem


No início do Consulado de Napoleão Bonaparte, virada do século XVIII para o XIX, um evento curioso chamou a atenção do médico Jean Itard (1774-1838): a descoberta, por um grupo de caçadores, de um menino, com idade entre 10 e 12 anos, de hábitos selvagens, errando pelas florestas de Caune, distrito de Aveyron, sul da França. Mudo, aparentemente surdo, alimentando-se de nozes,castanhas e raízes, isolado de todo convívio humano, e indiferente tanto as pessoas que lhe proporcionam algum afeto ou satisfação de necessidades, como também aos que o maltratam. Talvez, contemporaneamente, seria considerado "autista". O menino selvagem de Aveyron, como ficou popularmente conhecido, depois de várias peripécias, foi finalmente enviado à Paris. Sob os cuidados da Instituição Nacional dos Surdos-Mudos, onde foi confiada a guarda do menino, mediante o pagamento de uma pensão ao médico Itard e a governanta, Madame Guerin.
Itard escreveu dois relatórios, em 1801 e 1806, para prestar contas às autoridades ministeriais de Paris, dos resultados de seu empreendimento pedagógico. Bem escritos e muito detalhistas, estes textos tornam Jean Itard um dos fundadores da Educação Especial.

Contrariando os prognósticos negativos de Philippe Pinel, que considera o garoto "idiota" (no sentido da psiquiatria da época), portanto, irrecuperável, Jean Itard acredita que o menino pode ser educado e "civilizado". O menino recebeu o sugestivo nome de Victor.

Formado nos ideais político-sociais e na epistême do século XVIII, Itard tem como fundamentos teóricos a produção filosófica de John Locke, Condillac, além da medicina moral dos ingleses. Portanto,uma pedagogia fundamentada na observação e na experimentação para decidir que caminhos devem ser percorridos na educação do "selvagem", embora Itard reitere, no primeiro relatório, que adaptou os ensinamentos científicos e filosóficos às condições de educação de uma criança dita "anormal".

A partir das lições destes mestres, Itard constituiu estratégias de socialização: desenvolver a sensibilidade dos órgãos dos sentidos (visão, olfato, tato, paladar e audição), estimular Victor a participar da vida social, ensinar a falar, ler, escrever. Desenvolver noções de moralidade e justiça e proporcionar-lhe novos gostos e necessidades.

Entretanto, fazê-lo abandonar a vida primitiva e interiorizar novos hábitos não é tarefa fácil. Comportando-se mais como cientista do que preceptor, Itard não parece aprender com os imprevistos. Não parece admitir que pode estar errado em algum ponto. Operando a partir de conclusões de antemão, não pode deixar de mostrar descontentamento, no segundo relatório, texto bem pessimista, frente aos rudimentos de sociabilidade que Victor , já adolescente,"conquistou" (?). Na verdade Victor só assimilou automatismos comportamentais. Assim como suas preocupações com relação ao descomedimento, no tocante à sexualidade, se revelam infundadas. No entanto, a indiferença de Victor quanto a este e outros assuntos, ao mesmo tempo tranquiliza e decepciona o obcecado cientista.

"(...) o homem é apenas o que o fazemos ser" (p.125). Feita esta constatação, observamos a importância que Itard, apesar de seu arcarbouço naturalista, concede às relações de interdependência entre os indivíduos. Portanto, assim que foi colocado frente aos olhares de curiosos, cientistas ou não, a sociedade assumiu um compromisso com relação a Victor.

Qual é a importância da leitura e análise destes escritos para os dias de hoje?Por que e para que educar? Após a leitura destes relatórios uma das conclusões que podemos formar seria: ele já não estava"educado" daquela maneira, antes do contato com os adultos? Por que não deixar como estava antes?

O conceito de civilização, em nossa contemporaneidade, juntamente com seus correlatos progresso e evolução, tornou-se extremamente "antipático", politicamente incorreto, etnocêntrico (como se não existisse sociedade não-etnocêntrica) para muitos. Contudo a visibilidade crítica de um conceito pode obliterar um complexo de relações de poder e legitimidade dentro dos campos político, científico e pedagógico, encobrindo o que realmente está em jogo: um projeto de sociedade e de formação dos sujeitos.

Civilizar, dentro da polissemia de significados que o conceito de civilização proporciona pode, na linguagem e procedimentos da jurisprudência, designar um ato de justiça. Tornar-se civil, participar da vida pública. Portanto, o que uma boa educação deveria fazer: ensinar a ler, escrever, contar, interpretar, a se expressar em público, oferecer um repertório científico e cultural ... Provocativamente, civilizar uma pessoa. A meu ver, deixar Victor seguindo sua vida no meio da floresta seria uma monstruosidade. Ele estava adaptado ao meio, mas não era um ser humano pleno, educado, de modo que simpatizo com a iniciativa de Itard, embora com distanciamento crítico, pois cometeu os equívocos acima mencionados.

Existe um grande risco de se efetuar uma antropologia caricatural, um positivismo às avessas, cristalizando uma identidade que está na mente do pesquisador, do educador... sem confronto com o vivido, romantizando, assim, as condições de sobrevivência dos "excluídos", loucos, miseráveis, crianças e adultos, que habitam seus "abrigos" de papelão e tecido estragado embaixo de viadutos e outros lugares, dos iletrados e analfabetos funcionais fora da cultura predominantemente letrada onde é difícil viver sem um grau satisfatório de instrução .

Para empreender uma crítica (no sentido de percepção dos limites de um discurso) ao legado de Jean Itard podemos, evitando anacronismos, compreender suas práticas dentro de uma configuração social específica. Uma sociedade em bruscas mudanças, desencadeadas pela crise do Antigo Regime e pela Revolução Francesa. A ascensão do indivíduo e seus direitos (dentro dos limites da sociedade de classes). A ideia da escolarização pública e universal e a reorganização da vida familiar. Em resumo uma nova organização dos poderes e conflitos. Itard foi testemunha e participante de tudo isto. Um processo onde existiram erros e acertos, perdas e ganhos, ainda não devidamente avaliado.

A colonização da educação, em especial de crianças e adolescentes, pela psicologia e seus dogmas (e psicologismos), da frágil tensão entre autoritarismo e permissivismo, onde tudo deve ser quantificado e previsível, onde é preciso reinventar a roda a cada mudança de administração, também é uma influência sua (e de outros também), ainda que involuntária. Voltarei a escrever sobre este assunto com mais profundidade em outra postagem.


Os relatórios de Jean Itard foram traduzidos e publicados no Brasil pela Cortez Editora em 2000, sob o título A educação de um selvagem: as experiências pedagógicas de Jean Itard, Luci Banks Leite e Izabel Galvão (orgs.) precedido de seis ensaios analíticos.

Infelizmente o belo filme de François Truffaut "O garoto selvagem" , inspirado nos escritos de Itard, não está disponível em DVD no Brasil. Salvo engano, há um DVD de distribuidora portuguesa, com o consequente preço salgado e dificuldade de localizá-lo.

6 comentários:

Karla disse...

Adorável o relato claro e conciso, perfeito para a pesquisa. Agradeço a colaboração e espero que o autor continue nos brindando com seus artigos.
Karla Lopes - Profª; Psicopedagoga Clínica e Pesquisadora.

MARCELO disse...

Olá, que bom que tenha gostado. Outros escritos estão aguardando alguns retoques e revisões. Obrigado pela visita.

Malu disse...

oi, Marcelo, o DVD do filme do Trufautt está disponível (para comprar) na 2001 Video e na Livraria Cultura - São Paulo, com legenda em bom português. De fato é um belíssimo e tocante filme.

MARCELO disse...

Obrigado Malu pela informação!

pedra feliz disse...

A que se presta a educação? Está se humanizando lentamente o conceito de educação.
Que bom ler você Marcelo.
Eu já ouvi dizer que a Humanidade ainda está na infância.

MARCELO disse...

Olá Pedra Feliz, muito obrigado pelas belas palavras. Em breve retornarei ao blog com novas reflexões sobre educação e outros assuntos