quinta-feira, 13 de julho de 2017

NWOBHM para o Dia do Rock

Uma breve seleção de bandas da NWOBHM (New Wave Of British Heavy Metal) para o Dia do Rock. Foi um movimento rico e sei que muita coisa relevante ficou de fora. Escolhi bandas menos conhecidas, porém de qualidade inigualável. Infelizmente não consegui localizar algumas letras.Se algum leitor puder ajudar a completar a postagem ficarei grato.

Um bom Dia do Rock para todos!

Tysondog - Painted Heroes






Words of anger scream in my head
But I can't think straight my mind is dead
The words you've spoken cut like a knife
So many times I've lived this life

Don't take it all away

Fight the tide back turn & run
I know I'm not the only one
So much is different so much has changed
But things can never stay the same

Don't take it all away

Paited hero's stand cold in command
Faceless warriors lie dead in the sand
Killer legions lay waste to the land
Marching south to the house of the damned

I see clearly but your so blind
An honest face is hard to find
I've walked alone,I've walked with men
But I may never walk again

Don't take it all away

Witchfynde - The Divine Victim







Pagan Altar - Sentinels of Hate





People often now stand and stare
And wonder who could they be
That would leave such a lasting
Tribute to their lives
But they never look down in the undergrowth
At the pile of broken stone
Or spare a thought
For all the young men who have died

Ruined Chapels and neglected graves
Have masked the truth for years
Only mangled limbs
Bear witness to their pain
Their lord and masters pampered lives
Are marked by a granite tomb
But in death the bones
Will always look the same

The hooves of black plumed horses
Are silent on the cobbled streets
And a rusty lock secures the cemetery gates
The age is long since dead and gone
When they ruled in our domain
All that's left are these sentinels of hate

Stone and marble pillars reaching higher
Pointing ever upward to the skies
Looking down on the rank and file
Beneath them in the cold dark ground
As they'd done throughout their selfish lives
All through there lives!

Evening falls to cast shadows ever longer
To slowly move across each soul again
As if to say look up to me
I'm still your master as I'll always be
Even in death our roles are still the same
They haven't changed!
Ashes down to ashes, dust down to dust
It was the children born with a silver spoon
And dealt the kind hand of fate
Created these monoliths to power
Built these sentinels of hate!

Their pious names cut deep into the marble
Clear for all to see down though the years
The means to their success lies buried
In crumbling vaults with broken headstones
No reflection left of all the tears
Shed down the years

Mendes Prey - Running for you (1982)







Tygers Of Pan Tang - Insanity



I walk around this place each day
See those kids, what do they say
The air is empty - I'm left alone
They speak to me in this accusing tone

Insanity

Clouds part and I can see the sky
The wind rushes through my mind
Will they take me? Will I be known?
Forever you'll be banished I hear one moan

Insanity

I know you're there in a space in time
I see its life evolve like mine
Although we're gone, when I dream I find
In the end we'll all be caught by time


 Mythra - Death And Destiny









A lonely life of mystery beyond the realms of sanity.
Pictures flash,
illusions spread propaganda for the dead.
Curiosity plants a bitter seed of clutching hands and mindless greed.
Murder, mayhem, savage sin for those who let the devil in.

Death and Destiny

Poetic justice to laugh at sight as blind lead blind towards the light.
A hollow sense of hollow greed to bite the hand that tries to feed.
Reality is never there for those who try so hard to compare
themselves with someone in their mind
tremendous foresight but oh so blind.

Death and Destiny

Searching brings despair, so don't seek
Seeing does not believe, so don't look
Loving brings pain, so don't love
Living brings death, so don't live

Death and Destiny

Elixir -  Dead Man's Gold  



On the day that we set sail
The sun rose on a shiny sea
Spray fell in a misty veil
And we were free

We heard tales in the tavern
We heard the legends told
Of one man's buried treasure
The story of a dead man's gold

For three months we had sailed
On rough and stormy seas
Heading for an inland cove
To find our destiny

On the voyage we all remembered
All the stories we'd been told
Of one man's buried treasure
The stories of a dead man's gold

When we saw the headland rising
Blue skies and pure white sands
With our hopes held in our hearts
And our maps held in our hands

Soon our dreams has all been shattered
We believed the lies of old
We spend our whole lives chasing fables
The ghosts of a dead man's gold  

sábado, 3 de junho de 2017

Reflexões em torno de minha internação hospitalar.



                                                                            Ter saúde não é não adoecer. É poder adoecer e se                                                                                   recuperar. Poder sofrer e ultrapassar o sofrimento,                                                                                   engendrando novas formas de lidar com a vida. 
                                                                                                                       Georges Canguilhem

                                                                            Felizes os que sabem que o sofrimento não é uma                                                                                   coroa de glórias. 
                                                                                                                      Jorge Luis Borges –                                                                                                                  fragmento de um evangelho apócrifo 

                                                                            Pois esta é a ferida da vida: letra morta sempre viva                                                                                 na palavra que se afirma e se nega na entrelinha.                                                                                                                              Mário Chamie 

                                                                            Que é isto? onde me lançou/ esta tempestade má?
                                                                                                                     Sá de Miranda - Cantiga III 


 Entre 14 de abril e 8 de maio do corrente ano, permaneci internado no Hospital do Servidor Público Estadual, no 11º andar, Gastroclínica e Otorrinolaringologia, para tratar de dores abdominais, uma taxa de glicemia altíssima e realizar exames e demais procedimentos. Um ultrassom realizado na semana anterior apontava uma trombose na vei porta do fígado.

 Esta história teve início na véspera do carnaval, quando resolvi fazer doação de sangue no Pró-Sangue do Complexo Hospitalar do Mandaqui. No entanto, o teste de anemia marcou 64% de hematócritos, o que significava o contrário da anemia, inviabilizando, ois, a doação. A hematologista da unidade recomendou-me a realização de um hemograma e exames correlacionados. Depois dos resultados, agendaria uma consulta com um colega de sua especialidade. Fiz tudo num laboratório conveniado ao IAMSPE. Dez dias depois os resultados estavam prontos. Curiosamente, o médico responsável pediu a repetição do hemograma. O que acendeu meu sinal de alerta de que este caso seria mais complexo. A alta taxa de glicemia, associada a outros sinais, apontava para algo que eu desconfiava há certo tempo e, que talvez, estivesse recalcando no mais profundo de meu ser.

 No início de abril, comecei a sentir fortes dores abdominais, certa fraqueza e indisposição/desânimo. Retornei ao HSPE, onde fiz exames de sangue e o referido ultrassom, além da medicação. A dor cessou por certo tempo. A medicação, Buscopan Composto, escondia o incômodo. No meio da semana seguinte, a dor retornou, recorri a umpronto socorro de meu bairro, onde foi aplicada uma dose de insulina para baixar a glicemia e medicação para aliviar a dor. todavia, a dor não era aplacada de forma alguma. No dia do feriado, 14/04, voltei ao IAMSPE. A taxa de glicemia estava bem alta, e a clínica geral, que também era endocrinologista, ao analisar o ultrassom, recomendou a internação pois a dor seria melhor tratada neste procedimento e precisaria de mais exames e investigar a causa da trombose. Apesar da novidade, não hesitei em autorizar a internação.

 Foi minha primeira experiência neste aspecto. A carga de exames foi considerável: desde coletas frequentes de sangue (por vezes mais de dois tubinhos), até os exames mais complexos como Tomografia, Angio Ressonância, Ecocardiograma, Espirometria, radiografias, endoscopia e endoscopia com ligadura e biópsia do fígado.

 Como eu suspeitava, fui diagnosticado com diabetes tipo dois. Entretanto, o que intrigava mais os médicos era a trombose na veia porta, pois eu não sou fumante e nem consumo álcool. E na minha família não havia histórico semelhante.

 A equipe da hematologia pediu minha autorização para a realização de um exame genético relativo ao gene JAK 2. Dias depois, os resultados do teste esclareciam parte do enigma. Sou portador de Policitemia Vera, doença mieloproliferativa crônica, atestado pela detecção da mutação V617F no gene Janus Kinase (JAK2). Caracterizada pelo aumento do volume dos glóbulos vermelhos. A produção anormal e acentuada de eritrócitos, leucócitos e plaquetas provoca eventos como tromboses e AVC. Há possibilidade muito remota de desenvolvimento de uma leucemia. A evolução da moléstia é benigna e seu quadro é assintomático, porém bastante controlável. Só detectado por meio de exames ou quando alguns destes eventos se manifestam. No meu caso o sinal de alerta foi a trombose na veia porta. Meu tratamento visa retardar e diminuir a produção de eritrócitos por meio de sangrias ou flebotomia (uma doação de sangue, cerca de 400 ml.) e o uso do quimioterápico Hydrea (Hidroxiureia) e o AAS infantil. Quanto à diabetes, tento seguir a dieta e faço uso do medicamento específico. No mais, levar o que chamam de “vida normal”.  O triste era se tornar um doador a menos de sanguem meu tipo, B negativo, é relativamente raro.

 Fui bem tratado, dentro das condições atuais do sistema público de saúde do Estado de São Paulo. Agradeço aos médicos, enfermeiros e demais funcionários do IAMSPE, e meus familiares e amigos pela atenção. Bem, até aqui narrei os fatos, de forma mais breve e objetiva possível. Agora, divagar um pouco...

 Não tenho, caro leitor, nenhuma retórica edificante para oferecer mesmo modo, nenhum exercício de autodepreciação (ainda que possua certa propensão a isso). Sou perfeccionista e rigoroso comigo mesmo. Não vejo problema algum na autocrítica, desde que não se torne paralisante.

 Não busco comiseração, não almejo à angelitude ou à irrupção de alguma divindade interior. Desconfio de profetas e profecias. Dispenso filosofias baratas, esoterismos e espiritualidades mercenárias, ou seja, aquelas mais preocupadas com a onipotência de quem as produz, do que com o destino daqueles que as consomem. Doses moderadas de epicurismo, estoicismo, Montaigne e Nietzsche me bastam quando advêm horas obscuras. Literatura fantástica, música erudita e pesada são imprescindíveis. Me abasteço disto nos momentos de desastre. Meu imperfeito racionalismo e ceticismo são o passaporte possível para atravessar paragens do desespero e desviar, o quanto for possível, do sofrimento. Estou me habituando a navegar pelo acaso e acolher os imprevistos. Feridas e fraturas expostas do meu ser não são o preço pago por tudo isto. São contingências que eu apreendo ou ignoro. Minha dor é impartilhável. Só diz respeito a mim. Reivindico apenas minha humanidade, ambivalente, incompleta e imprecisa. Entremeada de defeitos e qualidades. Apenas isso…

 O dispositivo hospitalar nos despoja de todo sensação de autossuficiência e independência (que nunca são absolutas). Nunca senti tremenda sensação de fragilidade e dependência de um outro (que não é o imediatamente próximo). As modificações no seu corpo, dores e alívios, progressos e recaídas, perda ou ganho de peso, alterações na pele, seus segredos mais íntimos (ao menos até certo ponto, você pode dissimulá-los), são desvelados, involuntariamente ou não… nudez simbólica e virtual que assinala a condição incerta do ser humano enfermo.

A solidão absoluta era impraticável, pois convivi com quatro companheiros de quarto, cujas histórias era difícil não partilhar, embora minha relativa misantropia conduzisse a busca por isolamento. Que conseguia passeando pelo corredor e pelo saguão, além de ler e ouvir rádio nos bancos desses ambientes.

 Todavia, não senti, na maior parte do tempo, que fui tratado como criança ou marionete. Se o hospital é uma instituição total, desconfio de certos construtos althusserianos e foucaltianos a respeito das instituições, que ainda predominam nas análises dos sistemas de saúde. Há uma relação de poder, desigual, imperceptível, mas por que seria apenas um mal? É claro que desejava ou imaginava outras formas de tratamento, porém, entre continuar com a dor aguda e viver sob a sombra do risco de alguma hemorragia ou coisa pior, a internação e a submissão a conceitos, juízos e procedimento que você não domina constituíram. Basta pensar nos despojados de tudo, sobrevivendo ao léu das ruas e construções, cujo modo de vida é hipocritamente romantizado por aqueles que possuem acesso ao que há de melhor no campo da saúde.

 Nunca estive tão próximo do sentimento de finitude. Embora, perto da alta, tenha ficado ciente da cronicidade do meu caso, os momentos iniciais foram de imensa interrogação, angustiosa interrogação: seria algum tumor? Necessitaria de intervenção cirúrgica complexa, quais sequelas adviriam de todo o processo. Nem as crises de depressão provocaram tamanho estilhaçamento em meus pensamentos e ações.

A passagem do tempo? Ah, o tempo. O que posso dizer, sem me valer de lugares comuns? Impossível não evocar a noção dos dias intermináveis e quase sempre iguais aos outros. E foram na maioria das vezes. Havia momentos de transgressão, alguns passeios para além do ambulatório, para exames. Creio que aproveitei bem o tempo da memória.Deu para esculpi-lo. Desviar da rotina de quando em quando. Rememorações ora agradáveis ou não, ou ainda aquelas difíceis de valorar. Vislumbres, sonhos. Indecifráveis, inesperados, minuciosos, banais e longínquos. Vastos universos com infinitas ramificações que se perdem. Difícil de contemplar sem a vertigem. Não estava numa condição em que oprimia um alheamento do mundo de fora, algo impossível; como imagino que é a passagem do tempo dos acamados, entubados, sedados e entregues ao coma induzido.

 Seria um mentiroso se negasse os momentos de impaciência, ódio até. Haviam dias em que nenhum exame era programado e as visitas do médico bastante breves, enigmáticas… Deslembranças e lembranças intoleráveis que gostaria de cauterizar de minha mente. Vocábulos e pensamentos travados que escapam de seu alcance e desesperadamente tenta recuperar…Quem nunca sentiu raiva de si? Quem nunca pensou em autodestruição?

 Meu primo trouxe os diários de classe, pois fui pego no encerramento do 1º bimestre. Completei-os da melhor forma que pude. Alguns livros, cd’s e meu tablet fizeram companhia. Não usufrui da forma que gostaria. Ouvia mais o rádio do celular. Escrevi pouco e não desenhei absolutamente nada. O que fiz de forma mais produtiva foi mergulhar em meus pensamentos. Surgiram as deslembranças e lembranças intoleráveis que aludi acima. Compreendi, entretanto, que esse mundo subterrâneo da existência constituía uma matriz de esperanças longínquas a que me agarrava. Projetos e sonhos, ainda que precariamente esboçados. Esquecer minha ruína financeira, a maldita chuva que estraga minha casa de tempos em tempos, por certos instantes foi um elixir que proporcionava alguma sanidade e margem de manobra. Foi e continua a ser doloroso. Melhor não seria deixar de trazê-lo à luz do dia? Após a alta, surgiu outro Marcelo?

 Não tenho resposta fácil. Uma vitória, se posso usar essa palavra, consiste em perceber que você não é uma carta fora do baralho. Existe a possibilidade de reorganizar a vida a partir de outros parâmetros, ao mesmo tempo que certos hábitos insatisfatórios são descartados, valores e características suas, muito preciosos, submersos nos vagalhões da existência são recuperados com outro olhar. Sobrevivi a experiência . Continuar a viver, entretanto, é algo mais complexo. Estou disposto a prosseguir. Seria hipócrita,todavia, em admitir que tudo é uma página virada e não existe a vontade de largar tudo. Recorro à metáfora da guerra, um tanto desgastada, como tantas outras, mas é a que disponho no momento, pois aprecio narrativas épicas clássicas ou na linha do Senhor dos Anéis e Game of Thrones. Se, a partir de agora, enfrento batalhas intensas, pretendo não desertar. Em várias ocasiões será uma guerra sem testemunhas, como foi quando resolvi escrever este texto. Que agora exponho publicamente.

 Encerro este texto como iniciei, sob as palavras de Georges Canguilhem:

                    “(…) A loucura, a dor subjetiva, a morte, o envelhecimento, não são ruídos, desvios,                             disfunções de uma vida que se extraviou de seu rumo [ao contrário, são, como afirma
                      o  filósofo francês] (…) os signos de uma vida normativa. Uma vida que não se depara 
                      com o   intolerável, com o assombro, com o sem sentido, é uma vida 
                       empobrecida, normatizada, incapaz de agir criativamente.”

Fonte da imagem:  http://insgid.ru/dobrovolnoe-meditsinskoe-strakhovanie-dms

sábado, 10 de setembro de 2016

Claude Kappler Monstros, demônios e encantamentos no fim da Idade Média.



Um presente para os meus leitores.

Monstros, demônios e encantamentos no fim da Idade Média, de Claude Kappler . (tradução: Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 1994; Coleção O Homem e a História) é um daqueles livros fundamentais que são sempre mencionados e recomendados mas que se encontram inexplicavelmente fora de catálogo.

Claude-Claire Kappler (n. em 1946) é uma  medievalista e orientalista francesa. Pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) na área de literatura medieval. Ela também é especializada em literatura persa clássica e sobre as relações entre o Oriente e o Ocidente.

A ideia deste livro teve origem na contemplação das pinturas de Hieronymus Bosch. A autora indagava: o que era o monstro na Idade Média? Como ele era compreendido? Que papel desempenhava?
O problema que orientou sua pesquisa, em suas palavras: “o que para nós é obscuro parece ter sido claro naqueles tempos” [pois] estavam inseridos num contexto que a esclarece e a explica.", p.3

Portanto, seu objeto de estudo consiste no monstro na imaginação, e não na natureza (pois a atitude adotada em relação ao primeiro item pode ser parcialmente explicada pelo segundo).
 A pesquisa foi realizada principalmente nas bibliotecas universitárias de Basiléia, Estrasburgo e Genebra. o enorme corpus documental abrangeu fontes literárias e iconográficas (muitas, até aquele momento inéditas). de modo que compreendia o seguinte:grandes obras/textos – o monstro aparece de forma esparsa e rara. Narrativas de viagens: “aparecem com uma constância e uma naturalidade que lhes conferem existência própria” p.4 --- séculos XIII-XIV-XVI... África e Ásia – "afinidades naturais entre viagens, contos e mitos: a imaginação é muito estimulada"., p.4

 Não havia uma definição de monstro, mas tentativas de defini-lo que variavam de acordo com os autores e fundamentalmente segundo às épocas. Geralmente o monstro é definido em relação à norma pp. 292-293; também o monstro é aquele cujo aspecto não estamos acostumados. É um desvio da forma... Na literatura o monstro pode ter várias funções: narrativa, simbólica (com finalidade moral) e uma função catártica. (que permite combater o mal e o excesso)

A palavra “monstro”, do latim monstrum: “prodígio / milagre” surgiu durante a primeira metade do século XII e é empregada para designar criaturas disformes que eram exibidas nos circos ou nas feiras.

No século XIX surge a teratologia, “ciência” dos seres monstruosos, ou mais precisamente estudo das anomalias do desenvolvimento embrionário. Segundo o zoólogo e naturalista francês Étienne Geoffory Saint-Hilaire (1772-1844) “o monstro é um homem inacabado”.

Na definição corrente: monstro é um ser vivo cuja conformação difere consideravelmente da dos indivíduos de sua espécie, por excesso, por falta ou pela posição anormal de certas partes de seu corpo.

Finalmente o termo “monstro” também remete às criaturas fantásticas e terríveis das lendas e das mitologias (Centauro, Quimera, Minotauro...). Sem olvidarmos do imaginário contemporâneo, cujo suporte é o cinema, a literatura de terror, as histórias em quadrinhos. Mas esse aspecto foge do livro em questão.

Para Claude Kappler a qualificação de “monstro” baseia-se em três tipos de argumentos:

O argumento genético, que leva em consideração as causas (Aristóteles, “Geração dos animais”; e também Ambrósio Paré)
O argumento teológico e estético, que se apoia na harmonia do universo (Santo Agostinho, “Cidade de Deus”; XVI,8)
O argumento exemplarista ou normativo, que se refere a modelos dos quais os monstros se afastariam como se fossem “más reproduções”.

O monstro existe em todos os níveis da Criação, tanto no reino humano, como nos reinos animal, vegetal e mineral.

Santo Agostinho interessava-se somente pelos monstros humanos. A questão que o mobiliza é saber se as raças monstruosas descendem de Adão, o que põe em dúvida a legitimidade da perfeição da Criação. O bispo de Hipona se vale de uma interessante noção de diversidade: nada ocorre ao acaso e Deus criou o Universo como um tecido onde a semelhança e a diversidade entre as partes se entrelaçam. Portanto o monstro representa uma espécie de contrapeso, enquanto criatura distinta do protótipo humano.

Segundo a perspectiva medieval os monstros são parte integrante da Criação, sendo contados entre a fervilhante população do Universo.
Quanto à atitude medieval com relação aos monstros. O imaginário medieval estabeleceu uma tipologia dos monstros que observa certos critérios:
  1. o monstro como símbolo do antiético, do “completamente outro”;
  2. o monstro como criatura “fraca” (a quem falta algo de essencial ou que apresenta uma deformidade dos órgãos;
  3. o monstro como fusão dos reinos animal, vegetal e mineral, ou ainda como fusão dos sexos;
  4. o monstro como criatura todo-poderosa ou destruidora.
Os modernos consideram o monstro um mistério, escândalo, espécie maldita e ligada a uma patologia.  

Enfim, uma obra muito rica de insights e muito bem escrita, constituindo excelente fonte de aprendizado sobre um imaginário sempre presente na contemporaneidade, via cinema, seriados, HQs e demais artes. 







sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Karl Sanders – Of The Sleep Of Ishtar




Of The Sleep Of Ishtar é a segunda faixa de Saurian Meditations, álbum solo de Karl Sanders, membro fundador do Nile, banda norte-americana de Technical Death Metal.A letra faz menção à aspectos dramáticos da saga da deusa suméria Inanna (aqui trata-se da contraparte acadiana Ishtar) para a “terra sem retorno”, submundo governado por sua irmã Ereshkigal, onde a deusa mesopotâmica do amor, da fertilidade e da guerra reivindicará o governo desta região.







Ishtar Mistress of the Gods
Whose yes is truly yes
 Ishtar queen of harlots
Lady of Babylon
Ishtar sweet jewel of Sodom
Beloved daughter of Sin  Ishtar [x3]
 Ishtar unlocked the seven gates

 Covenant of Absu
Impaled
Naked and Bleeding
Hung left to die upon a Stake
 Ishtar Suffer in Darkness
 Unheard you cry,
Cry for dawn [x3]

 Ishtar Senhora dos Deuses
De quem é verdadeiramente sim
Ishtar rainha das hierodulas
Senhora da Babilônia
 Ishtar doce joia de Sodoma
filha amada de Sin
Ishtar [x3]
Ishtar destrancou as sete portas

 Pacto de Absu
Impalada
Nua e sangrando
Deixada para morrer em cima de uma estaca
Ishtar Padecendo na Escuridão
Desapercebida você chora,
Grita a caminho da aurora[x3]


Claude Lévi-Strauss: Palavras retardatárias sobre a criança criadora.




Publicado originalmente no periódico La Nouvelk Revue des Deux Mondes, em janeiro de 1975, Palavras retardatárias sobre a criança criadora”, constitui o desdobramento de uma mesa redonda dedicada a “A escola e a criança criadora”. Este é o único escrito do antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009) dedicado exclusivamente ao tema da educação.

O tempo demasiado curto para um debate aprofundado, pouco espaço para discussão com o público e a falta de um fio condutor entre os participantes, advindos de diversas áreas do conhecimento causaram certo desconforto e insatisfação entre os presentes. Desse modo, ciente da importância do assunto, o antropólogo belga decidiu voltar ao tema, redigindo este artigo.

O que dizer? Em suas poucas páginas,Palavras retardatárias sobre a criança criadora”, revela-se mais incisivo do que muitos artigos, livros, palestras, congressos e seminários preocupadíssimos com a educação, elaborados pelos especialistas propriamente ditos neste ramo do saber…
Isto acaba fortalecendo minha visão de que a educação é um tema urgente demais para ficar nas mãos apenas dos pedagogos, psicólogos e psicopedagogos. Não defendo voluntarismo irresponsável e observações efetuadas sem um conhecimento básico do que está em discussão.

Criatividade, há tempos está na ordem do dia. Com a reconfiguração do mundo do trabalho, o advento do ciberespaço e dos aparatos digitais, “ser criativo” é a moeda corrente. Unido à resiliência, flexibilidade, empreendedorismo, foco e outras expressões. A educação escolar, neste contexto, será bastante requisitada para a consecução dessas metas.
Lévi-Strauss observa, a partir de seu olhar etnológico, que a criatividade infantil é algo muito recente. Culturas e sociedades na maior parte de sua história preocupavam-se em transmitir um legado aos pequenos. Usando como exemplo os mestres artesãos, o autor observa que a criatividade não ocorre num vazio, há códigos, disciplinas, padrões, modos de proceder, que, se não são imutáveis, opressivos e a-históricos, devem ser aprendidos e passados a diante. A criação pessoal ocorre após o domínio de um repertório anterior, que não pode ser ignorado. Do mesmo modo, a educação da criança não prescinde de uma disciplina intelectual metódica e o contato com grandes obras da cultura erudita.


Há reflexões sobre os métodos de ensino, pejorativamente denominados “tradicionais”, observações sobre leituras equivocadas das concepções piagetianas, do imediatismo do cotidiano sob o peso da economia. Enfim, reflexões fecundas elaboradas por um mestre.



Contrariamente ao que o título da mesa-redonda poderia implicar, não parece então que o problema da criança criadora resulte da imperfeição de um velho sistema pedagógico. Durante muito tempo, o sistema que ainda e teoricamente é o nosso resolveu-o de maneira satisfatória. Se descobrimos, hoje em dia, que um problema, a razão dele não é que o sistema fosse mau. Era tão bom quanto um sistema colectivo pode ser, mas deteriorou-se e, por razões exteriores a sua natureza, esta agora afundado. Antes de ser pedagógico, o problema da criança criadora poe-se em termos de civilização.

Também se sabe porque razão, ao acolher uma clientela cada vez mais numerosa, o ensino secundário viu a sua qualidade comprometida, tanto ao nível dos professores, como ao dos alunos. Não somente, no entanto, devido a dilatação dos efetivos e dos programas sobrecarregados. O nascimento e desenvolvimento daquilo a que se chama comunicação de massa alterou profundamente as condições em que o saber era transmitido noutros tempos. Ele já não e filtrado lentamente de uma geração para a outra no seio do meio familiar ou profissional, antes se propaga com uma rapidez desconcertante no sentido horizontal e em planos entre os quais surgem soluções de continuidade: de ora em diante, cada geração comunica com todos os seus membros com muito mais facilidade do que com a que a precede ou se lhe segue. Ainda fiel a antiga formula, a escola -se ultrapassada em todos os seus aspectos e, pelo facto de a família ter perdido uma das suas funções essenciais, a escola não pode mais prolongar essa função e alarga-la. Ela já não esta a altura de servir, como outrora, de elo de ligação entre o passado e o presente no sentido vertical e, no sentido horizontal, entre a família e a sociedade.

Mas falta entendermo-nos sobre as causas: o que torna a reforma oportuna não é que os métodos tradicionais fossem maus, mas que o contexto social, cultural e econômico se modificou. Encontramo-nos, entre nós, em condições comparáveis aquelas que encontram educadores europeus quando vão dispensar instrução as crianças de sociedades exóticas. Os resultados decepcionam-nos e concluem, quer que os povos em questão tem uma inteligência inferior por razoes congênitas, quer que as modalidades da sua existência pratica bloqueiam o seu desenvolvimento mental. Em ambas as hipóteses, chocar-se-iam com uma inferioridade de facto. Ora nos sabemos que isto não e assim: as crianças escolarizadas dessas sociedades limitam-se a aprender de cor, esquecem depressa e fazem poucos progressos porque não lhes deram os meios de organizarem e estruturarem os seus novos conhecimentos segundo as normas intelectuais em vigor na sua civilização. Desde que se faça um esforço nesse sentido, os resultados melhoram de maneira espetacular.

Seria então preciso que os nossos educadores se improvisassem em etnógrafos de uma sociedade que já não é aquela onde os métodos que eles aprenderam se aplicavam. Mas se novos métodos permitem interessar a criança naquilo que faz, a ajudam a compreender e a apreciar o que lhe ensinam, em lugar de o aprender de cor, a finalidade tradicional da escola não sera por isso modificada. Para a criança, tratar-se-a sempre de aprender; melhor, sem duvida, e de maneira mais inteligente do que conseguia anteriormente, mais aprender na mesma, ou seja, assimilar conhecimentos e outras aquisições do passado.
E não e o mais grave. Com efeito, teve-se muitas vezes a impressão de que, para outros participantes e certos elementos do publico, se tratava, de maneira aberta ou insidiosa, de contestar a missão tradicional da escola. Como se desejar que a criança aprenda constituísse, ao mesmo tempo, um empreendimento inútil e um atentado a sua liberdade; e como se os recursos intelectuais e espontaneidade próprios a criança se bastassem a si mesmas, excluindo toda a obrigação e deixassem a escola, como único papel, não entravar o seu livre desenvolvimento. Em apoio desta tese, ouviu-se mesmo alguém invocar os trabalhos justamente celebres de Piaget. O mestre de Genebra sem duvida que teria ficado muitíssimo surpreendido com isto, pois jamais pretendeu que as estruturas mentais cada vez mais complexas que surgem, segundo ele, nos sucessivos estádios de desenvolvimento da criança pudessem organizar-se e ordenar-se na ausência de toda a disciplina externa. De resto estas estruturas tem um carácter formal e ficariam vazias e inoperantes se não se exercessem sobre um adquirido de conhecimentos cujo aprovisionamento constitui um dos objetivos da escola. Mas mais; porque hoje se apercebem de que os resultados de Piaget, dos quais ninguém sonha em minimizar a importância, devem ser interpretados em função de uma problemática muito diferente, que se relaciona a neurofisiologia. Pelo menos entre os vertebrados superiores, apos o nascimento e durante a maior parte da infância, as estruturas cerebrais conservam uma grande plasticidade.

No entanto, os mesmos educadores que achavam admirável que se exercite a criança a bater-se contra objetos materiais como pigmentos coloridos, papel, pinceis, barro, tabuas e perpianhos, indignam-se que se lhe possa pedir que reaja, numa composição francesa, ao texto de um autor morto ou vivo, porque dizem-nos, a criança não o pensou ela própria. Como pode não se ver que a situação e a mesma, num e noutro caso? Em ambos, convida-se a criança a defrontar uma realidade ou um conjunto de realidades estranhas, de natureza material ou espiritual; espera-se dela que comece por se aperceber das suas propriedades características, que as assimile; enfim, contra as resistências que elas lhe opõem — quer seja ao manipula-las, quer seja ao compreende-las —, que ela faca obra pessoal ao produzir uma síntese original a partir de todos esses elementos.

A coação da escola, que se comprazem em denunciar, não e senão um aspecto ou uma expressão da coação que toda a realidade — e a sociedade e uma — exerce normalmente sobre os seus membros. E de bom tom ridicularizar ou estigmatizar a resistência que o meio social opõe as obras inovadoras. E não ver que, no seu estadio final, essas obras devem tanto a este meio como ao impulso criador que as leva a contornar as regras tradicionais e, em caso de necessidade, a viola-las. Toda a obra memorável a também feita das regras que obstam ao seu nascimento — e que ela teve que transgredir —• e de regras novas que, uma vez reconhecida, ela imporá por seu turno. Escutemos, a este respeito, a lição de um grande criador, numa obra que e, ela própria, consagrada a criação: refiro-me a Richard Wagner e aos Mestres Cantores (1), com as minhas desculpas pela desajeitada tradução:

Aprendei as regras dos mestres
Vara que elas vos ajudem a preservar
O que nos vossos mais verdes anos
A primavera e o amor vos tenham revelado.
E mais adiante:

Criai as vossas próprias regras, mas segui-as.

Que não há contestação possível se não houver nada para contestar, e uma lapalissada; mas ela tem o mérito de sublinhar que a resistência e o esforco para a vencer são necessários ao mesmo título. Para que as Flores do Mal e Madame Bovary pudessem existir, foi preciso, primeiro, que existissem Baudelaire e Flaubert, mas também teve que haver uma coação exercida hic et nunc que obrigava a desvios pelas vias da imaginação; senão, essas vias nunca teriam sido abertas. E, em todo o caso, te-lo-iam sido de outra maneira. Porque a obra criadora resulta de uma arbitragem e de um compromisso: entre a intenção inicial do criador — mas, neste estadio, ainda informulável — e as resistências que ele teve que vencer para a exprimir. Estas são as resistências que ao artista opõem a técnica, as ferramentas, o material; ao escritor, o vocabulário, a gramatica, a sintaxe; mas também, a ambos a opinião e as leis. Toda a obra de arte e revolucionaria, seja, mas não o pode ser senão ao atuar sobre o que subverteu. O seu caracter inovador (que desapareceria se nada houvesse perante ela) vem-lhe de ela morder no obstaculo, mas não sem lhe ceder e se modelar, ainda que pouco, sobre ele. A obra-prima e então feita, ao mesmo tempo, daquilo que e e daquilo que nega, do terreno que conquista e da resistência que encontra. Resulta de forcas antagônicas que compõe, mas a cujo impulso e contra-impulso fica a dever esta vibração e esta tensão que nela admiramos.

Os etnólogos estudam sociedades a quem não se poe o problema da criança criadora; e a escola também não existe nelas. Naquelas que eu conheci, as crianças ou brincavam pouco, ou não brincavam absolutamente nada. Com maior rigor, as suas brincadeiras consistiam na imitação dos adultos. Esta imitação levava-as de maneira insensível a participar a serio nas tarefas produtoras: quer fosse para contribuir, na medida do que podiam, na procura de alimentos, quer fosse para cuidar dos mais novos e distrai-los, quer fosse para fabricar objetos. Mas, na maior parte das sociedades ditas primitivas, esta aprendizagem difusa não basta. E também preciso que, num momento determinado da infância ou da adolescência, se desencadeie uma experiência traumática, cuja duração varia, conforme os casos, entre algumas semanas e vários meses. Entremeada de provas freqüentemente muito duras, esta iniciação, como lhe chamam os etnólogos, grava no espirito dos noviços os conhecimentos que o seu grupo social tem por sagrados. E também poe em ação aquilo a que chamarei a virtude das emoções fortes —ansiedade, medo e orgulho — para consolidar, de maneira brutal e definitiva, os ensinamentos recebidos no decurso dos anos em estado diluído.

As sociedades estudadas pelos etnólogos tem pouco gosto pela novidade: elas justificam os seus costumes pela antiguidade que lhes atribuem. Pelo menos para aquelas cujo efetivo demográfico não ultrapassa alguns milhares de indivíduos e que, por vezes, nem chegam a atingir a centena, o ideal — impossível, claro, de respeitar — seria permanecer tal como, segundo os mitos, os deuses as criaram no alvor dos tempos. No entanto, nessas sociedades não industriais, cada um sabe criar por si mesmo todos os objetos artesanais que lhe apetece usar. Que não se fale, aqui, de imitação instintiva: as mais humildes técnicas dos chamados primitivos fazem apelo a operações manuais e intelectuais de uma grande complexidade que e preciso ter compreendido e aprendido e que, de cada vez que se executam, reclamam inteligencia, iniciativa e gosto. Não e qualquer arvore que e própria para fazer um arco, nem mesmo qualquer parte da arvore; a exposição do tronco, o momento do ano ou do mês em que a abatem iao-pouco são indiferentes. Os gestos feitos para desbastar, trabalhar e polir a madeira, preparar a fibra destinada a corda e aos ligamentos, enrolar e apertar estes, tudo isto implica experiência, jeito, julgamento. O homem consagra-se inteiramente a estas tarefas, investe nelas o seu saber, a sua habilidade, a sua personalidade; o mesmo quanto a ceramista ou a tecedeira. As diferenças em relação a obra do vizinho podem ser minimas, indiscerníveis a vista não treinada. O pratico distingue-as e elas inspiram no seu autor um legitimo orgulho.

Ao querermos fazer dos nossos filhos criadores, estaremos a espera somente que, como o selvagem ou o camponês das idades pré-industriais, ele saiba fazer sozinho o que o seu vizinho também faz, mas no respeito por normas estabelecidas de uma vez por todas, ou pedimos-lhe algo mais? Reservaríamos então o nome de criação para aquilo que, no plano material ou espiritual, represente uma verdadeira inovação. Os grandes inovadores são, e claro, necessários a vida e a evolução das sociedades: para alem de um tal talento poder — e disso nada sabemos —• ter bases genéticas (pondo de parte que ele exista em estado latente em toda a gente), também nos devemos interrogar sobre a viabilidade de uma sociedade que desejasse que todos os seus membros fossem inovadores. Parece muitíssimo duvidoso que uma tal sociedade se possa reproduzir e ainda menos progredir, uma vez que se entregaria permanentemente a dissipar as suas aquisições.

Talvez tenhamos assistido a um fenômeno desta ordem em certos sectores da nossa própria cultura, no das artes plasticas em particular. Desvairados com as duas inovações maiores constituídas, na pintura, pelo impressionismo e pelo cubismo, que se sucederam uma a outra no lapso de poucos anos, atormentados sobretudo pelos remorsos de não as termos sabido reconhecer logo de principio, impusemo-nos como ideal, não o que inovações fecundas poderiam ainda produzir, mas sim a inovação em si mesma. Não contentes por a termos de algum modo divinizado, imploramos diariamente que ela nos traga novos testemunhos da sua omnipotência. O resultado esta a vista: uma cavalgada desenfreada de estilos e maneiras, ate na obra de cada artista. Afinal de contas, foi a pintura como gênero que não sobreviveu as pressões incoerentes que se exerceram sobre ela, para que não cessasse de se renovar. Outros domínios da criação sofrem o mesmo destino: toda a arte contemporânea esta presentemente numa situação aflitiva. Que a recente evolução da pintura atue com tao grande peso sobre os métodos pedagógicos que pretendem libertar a criança e estimular os seus dons criadores razão mais do que suficiente para que estes respirem alguma desconfiança.

Regressemos então ao sentido subjectivo, mas meçamos também a largura do fosso que, na nossa civilização, separa a ambição, mesmo modesta, que este sentido implica, das oportunidades que temos de a traduzir na pratica. Lembro--me da exaltação de duas jovens americanas durante uma estadia em Franca, quando lhes revelaram que a baunilha e uma vagem e como, a partir de um ovo, qualquer um pode fazer uma maionese por suas mãos. Para elas, essas substancias e os seus respectivos sabores pertenciam ate então a um reportório anonimo, feito de carteiras e caixas a cujo conteúdo atribuíam, em algumas doses, uma mesma uniformidade de origem. Logo que conexões insuspeitadas se estabeleceram no seu universo mental, sentiram-se reintegradas num devir histórico. Ao cumprirem gestos humildes, participavam numa criação.

Este exemplo trivial faz-nos por o dedo no drama de civilização, que, muito antes de se repercutir em crise pedagógica, esta na raiz de um problema a que não pudemos fazer mais do que sobrevoar. Os nossos filhos nascem e crescem num mundo feito por nos, que antecipa as suas necessidades, previne as suas perguntas, os encharca de soluções. A este respeito, não vejo diferença entre os produtores industriais que nos inundam e os ≪museus imaginarios≫ que, sob a forma de coleções de livros de bolso, de álbuns de reproduções e de exposições temporárias em jacto continuo desvitalizam e embotam o gosto, minimizam o esforco, baralham o saber: vãs tentativas para acalmar o apetite bulímico de um publico sobre o qual desabam desordenadamente todas as produções espirituais da humanidade. Que, neste mundo de facilidades e desperdício, a escola continue a ser o único sitio em que e preciso ter trabalho, sofrer uma disciplina, passar por vexames, progredir passo a passo, viver, como se costuma dizer, ≪no duro≫, não e coisa que as crianças aceitem, pois  não a podem compreender. Dai a desmoralização que as invade, quando sofrem toda a especie de coações para as quais tanto a família como a sociedade não as prepararam e as consequências por vezes trágicas desta inadaptação.
Resta saber se e a escola que esta errada, se e uma sociedade que perde cada vez mais e todos os dias o sentido da sua função. Ao pormos o problema da criança criadora, enganamo- nos no tema: porque somos nos próprios, tornados consumidores desenfreados, quem se mostra cada vez menos capaz de criar. Angustiados pela nossa carência, esperamos a vinda do homem criador. E como não nos apercebemos dele em parte alguma, viramo-nos, em desespero de causa, para os nossos filhos.



Temamos, no entanto, que, ao sacrificarmos as rudes necessidades da aprendizagem aos nossos sonhos egoístas, acabemos por lançar a escola pela borda fora, com tudo aquilo que ela ainda representa, e que venhamos a privar os nossos sucessores do pouco que ainda permanece solido e substancial na herança que podemos deixar-lhes. Seria aberrante pretender iniciar os nossos filhos na criação pelas vias da arte, recorrendo a métodos pedagógicos inspirados pelos frutos ilusórios da nossa esterilidade. Reconheçamos ao menos que procuramos nisso uma consolação: ao fazermos da criança a medida do criador, damos a nos próprios uma desculpa por termos deixado a arte regredir ao estadio do jogo, mas sem termos tido o cuidado de não abrirmos a porta a confusões muito mais graves entre o jogo e os outros aspectos sérios da vida. Ai de nos, nem tudo na vida e jogo. E aos jovens espíritos que nos incumbe formar que se fica a dever esta lição fundamental que nos convidam a calar, para a satisfação, na verdade bem ingenua, de justificar aquilo a que ainda se chama arte pelos exercícios atraentes de que, sob o colorido de reforma pedagógica, proporciona ocasião as criançasexercícios em que, no entanto, os próprios adultos podem encontrar — e nada mais — um muito vivo agrado.


Fonte: LÉVI-STRAUSS, Claude – Palavras retardatárias sobre a criança criadora” In O Olhar Distanciado. Tradução de Carmen de Carvalho. Lisboa: Edições 70, 1986 (Perspectivas do Homem; 24) pp. 373-386