sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Christopher Lasch - "O movimento Nova Era: Nenhum esforço, nenhuma verdade, nenhuma solução...



(...) O movimento Nova Era  - a última contribuição à nossa longa história de bizarros modismos e panaceias espirituais - atrai um misto de ridicularização e alarme indignado. Não só a degradação da religiosidade mas sua flagrante comercialização levanta a suspeita de fraude religiosa em larga escala (...) O movimento Nova Era tenta combinar meditação, pensamento positivo, cura pela fé... misticismo, ioga, hidroterapia, acupuntura, incenso, astrologia, psicologia junguiana, bio-realimentação, percepção extra-sensorial, espiritualismo, (...) a teoria da evolução, terapia do sexo reichiana, mitologias antigas, (...) hipnose e um sem-número de outras técnicas destinadas a aumentar a percepção, incluindo elementos retirados das principais tradições religiosas.
A substituição da religião pela Nova Era apazigua a consciência em vez de perturbá-la. Seu ensino central é que não importa em que você crê, contanto que funcione no seu caso. "É verdade se você crê que é": lema da Nova Era...
A questão não é se as terapias da Nova Era realmente funcionam, mas sim se a religião deve ou não ser reduzida a uma terapia. Se ela oferece nada mais do que um enlevo espiritual, a religião se torna uma droga a mais numa sociedade dominada pelas drogas.

Christopher Lasch - "O movimento Nova Era: Nenhum esforço, nenhuma verdade, nenhuma solução. Notas sobre Gnosticismo - Parte V, Abril de 1991"

sábado, 29 de julho de 2017

Crimson Glory - In Dark Places







Waves pound the gloomy shores, I watch them roll
across my feet so warm
I know she's waiting there for me
In ancient rhymes she whispers in the wind
a strange and haunting melody
As it fills the silence, I feel the shivers cold
embrace my soul
From the deep she beckons me
promising eternity
In a world where nothing's real
beyond this realm of light and dreams
You, mystic moon it's you who rules the night
breathing life into my dreams
I see your face in nightmares shining bright
So, it's fare to you my sunlit world
so full of hate and misery
You see I can't take it anymore
From my sleep you beckon me
promising eternity
In your world of mystery
to your realm of harmony
In dark places
In dark places we will be
forever beyond the light
In dark places we will be free
from the pain that fills our lives
Through arching moonbeams of light we glide
in bending shadows of warm starlight
Angels of colors light the night as they fly
transcending into the electric sky
In dark places
In dark places we will b
forever beyond the light
In dark places we will be free
from the pain that fills our lives
In dark places we will be
forever beyond the light
In dark places we will see
worlds we've always dreamed

Ondas batem em margens sombrias, eu as vejo rolar 
em meus pés tão quentes 
Eu sei que ela está lá  esperando por mim 
Em rimas antigas, ela sussurra ao vento 
uma melodia estranha e assombrosa,
enquanto preenche o silêncio, eu sinto gélidos arrepios 
abraçarem minha alma.
Da profundeza ela me acena
promissora eternidade.
Em um mundo onde nada é real,
além deste reino da luz e sonha.
Você, a lua mística, é você que governa a noite 
vida respirando em meus sonhos 
Eu vejo seu rosto brilhando  em pesadelos 
Então, é a passagem do meu ensolarado mundo 
tão cheio de ódio e miséria 
Você vê que eu não aguento mais 
do meu sono você me acena
promissora eternidade
Em seu mundo de mistério 
para o seu reino da harmonia 
Em locais escuros, 
em locais escuros estaremos 
sempre para além da luz 
Em locais escuros estaremos livres 
da dor que enche nossas vidas 
Através luar arqueamento de luz que deslizam 
nas sombras de flexão de luz das estrelas quentes 
Anjos de luz as cores da noite como eles voam 
transcendendo para o céu elétrico 
Em locais escuros, 
em locais escuros estaremos
sempre além a luz 
Em locais escuros, estaremos livres 
da dor que enche nossas vidas 
Em locais escuros, estaremos 
sempre para além da luz 
Em locais escuros, vamos ver 

mundos que sempre sonhamos...


sexta-feira, 28 de julho de 2017

Catulo - Que, oprimido por dura sorte e desventura – Quod mihi fortuna casuque oppressus acerbo



Não exitem retratos ou esculturas do poeta romano Caio Valério Catulo (c.87 ou 84 a.C. - 57 ou 54 a.C). Assim como inúmeros vultos da Antiguidade, sua "face verdadeira" é uma incógnita. Muitos, séculos depois, descobrimos que eram de outra pessoa, cuja identidade pouquíssimo ou nada sabemos, e não aquela a quem a tradição atribuía. Esta imagem de homem jovem é um dos retratos de Fayum - série de retratos pintados sobre madeira utilizando ora as técnicas de encáustica ora de têmpera, durante o Egito romano - foi utilizada numa edição dos poemas de Catulo  pela Penguin Classics. Utilizei um destes retratos na postagem sobre Sulpícia, poeta romana quase sua contemporânea. Transmitem uma  intensidade bastante expressiva e ao mesmo tempo serena, um sentido de mistério e anonimato que o decorrer dos séculos vai aprofundando. Uma arte poderosa, digna de retratar, ainda que imaginariamente, um poeta.

68

Que, oprimido por dura sorte e desventura,
         me envias esta carta escrita em lágrimas,
por que um náufrago eu salve das ondas que espumam
         no mar, e do portal da morte eu tire
5. a quem nem Vênus deusa em doce sono deixa,
         deserto, descansar em leito só,
nem a Musa no canto de antigos poetas
       deleita, e a mente aflita faz vigília –
isto me apraz pois, vejo, me tens teu amigo,
10.        e dons da Musa pedes e de  Vênus;
mas não esqueças, Álio, meus agravos nem
         creias que odeie meus deveres de hóspede,
e vê as vagas de infortúnio em que eu afundo:
          não peças alegria a um infeliz.
15.  No tempo em que vesti a toga branca, quando
          a vida em flor trazia primaveras,
              muito me diverti com versos, nem me esquece
        a deusa que ata doce e amaro a amor:
 mas tal empenho, em luto, a morte irmã tolheu-me
20.         (eu mísero), ah irmão!, de mim roubado,
 tu, irmao, ao morrer, partiste minha calma,
           contigo nossa casa está enterrada,
 contigo fosse embora, vã, nossa alegria
           que em vida teu gentil amor nutria.
25.  Por sua morte afugentei da mente inteira
            tais empenhos e da alma tais delícias;
 quando então dizes, Álio, “é tolice, Catulo,
            ficares em Verona, que um Romano
 já esquenta o frio dos pés no leito que deixaste”,
30.         isto não é tolice, mas tristeza;
 perdoarás se o que este luto me tomou –
            meus dons – não te conceda: não consigo,
 e livros eu não tenho aqui comigo muitos
        (em Roma vivo: aí é minha casa,
35.  aí, minha morada, aí desfruto a vida)
             e dentre todos, poucos me acompanham.
  Assim não vás pensar que por maldade ou muita
            ingratidão no peito eu faça isto:
  nenhum verso verter dos dois pedidos teus;
40.         bem mais faria se algo mais pudesse.

  Não posso calar, deusas, como Álio ajudou-me,
        ou com quantos favores me ajudou.
  Nem o tempo, fugindo nos séc’los que olvidam,
         com cega noite cubra o seu empenho;
45.   mas eu vos direi, vós logo a muitos dizei:
          nem que antigo, o papel fazei falar,
  POR QUE EM MEUS VERSOS VIVA MESMO APÓS MORRER;
morto seja lembrado mais e mais,
  nem alta aranha, urdindo tênue teia, a obra
50.     erga sobre o perdido nome de Álio.
    Pois a dor que me deu a dúplice Amatúsia
sabeis e como fez por corroer-me,
    quando ardi tanto quanto as penhas da Trinácria
e, no Eta, as águas Málias das Termópilas:
55.     tristes de assíduo choro os olhos consumiam-se
e afundava-se a face em ondas míseras,
    qual luzindo nas cimas de etérea montanha
salta um riacho da mucosa pedra
    e que a rolar precípite do vale prono
60. em meio a denso povo faz caminho,
    doce alívio do suor do viandante Iasso,
quando a estiagem sulca a terra exausta.
    Então, tal qual ao nauta em meio a negro vórtice,
soprando afável, vem um vento leve
65.     da prece a Pólux já, já rezada a Castor,
  assim foi Álio auxílio para mim.
    Ele as via e me abriu largas em campo ocluso,
    meu deu morada e deu-me à sua dona,
    e lá comuns nós praticávamos amores
70.   e clara minha deusa em passo manso
    entrou e os pés sobre alisado umbral luzentes
deteve entre sandálias sonorosas,
    qual Laodamia outrora ardendo pelo esposo
 à casa veio de Protesilau,
75.     de mau começo até que os celestes senhores
 sacro aplacasse o sangue de uma vítima.
    Que eu não venha a querer nada, ó virgem Ramnúsia,
 que contrários senhores mal acolhem.
    Com quanta sede o altar queria o pio cruor
80.  viu Laodamia ao partir seu marido,
    do novo esposo os braços tendo que largar
 antes que um após outro a vir invernos
    amor voraz em longas noites saturassem,
 para aturar viver, rompido o enlace.
85.     Já sabiam as Parcas: partiria em breve,
 se partisse soldado aos muros de Ílio
    pois do rapto de Helena, primeiros Argivos,
 Tróia atraía homens junto a si.
    Tróia, nefas!, comum sepulcro a Europa e Ásia,
90.  Tróia – aos fortes, às forças, todos, áspera
    cinza – tão miserável morte ao meu irmão
 trouxe, ah irmão roubado a mim tão triste,
    de ti tão triste, irmão, ah, luz também roubada,
 contigo nossa casa está enterrada,
95.     contigo foi-se embora, vã, nossa alegria
 que em vida teu gentil amor nutria.
    E agora longe estás, nem dentre conhecidas
 tumbas nem junto às cinzas de parentes;
    mas em Tróia fatal, Tróia cruel, areias,
100.  terras alheias lá têm-te enterrado,
    às quais se diz que às pressas juntos jovens Gregos
foram abandonando arcanos lares
   por que Páris, gozando a amante que raptou,
em calmo leito não fruísse fácil
105.    ócio: então te roubaram, linda Laodamia,
teu enlace mais doce que alma e vida
   pois te absorvendo em tanto vórtice de amor
a ardência a abismo te levou abrupto,
   qual o de Fêneo de Cilene, os Gregos dizem
110. que haurindo humores seca o solo píngüe,
   que (é fama) fez, talhando as medulas do monte,
de falso pai o filho de Anfitrião
   quando com certas setas no Estinfalo os monstros
matou a mando de um senho pior
115.    para a porta do céu a mais deuses abrir-se
e Hebe não ser de longa virgindade.
   Mas teu amor mais fundo foi que fundo abismo
pois te ensinou sofrer, domada, o jugo:
   nada mais grato ao pai pela idade abalado
120.   que um neto temporão que a filha embala,
   que, herdeiro, vindo enfim, da fortuna do avô,
seu nome faz lavrar no testamento,
   que aos risos do parente causando irrisão,
o espanta, abutre, da cabeça em cãs.
125.    Nem tem tanto prazer com o seu branco par
a pomba que, se diz, desfruta beijos
   das bocas sempre a dar mordidas, menos proba
que a mulher que por muitos tem quereres.
   Mas tu sozinha a estes furores venceste,
130. ao reveres de vez teu loiro esposo.
   A esta pouco ou nada tendo a conceder,
Minha Luz a meus braços entregou-se
   e correndo-lhe à volta aqui e ali Cupido
claro brilhava em túnica açaflor,
135.    e embora com um só Catulo não contente,
porque é discreta, as raras fugas vamos
   tolerar (não causemos tédio como os tolos).
Até Juno, a maior entre os celícolas,
   calou muito ódio ardente às culpas do marido –
140. Jove, o de muito querer, muitas fugas.
   Mas não é justo comparar homens e deuses
NEM MALES NÓS SOFREMOS TANTO COMO
   JUNO; ENTÃO DEIXA AS QUEIXAS E FIRME, CATULO,
larga a tarefa ingrata de pais trêmulos,
145.    pois ela pela mão do pai trazida não
veio à casa a exalar odor Assírio,
   mas numa noite incrível dons furtivos deu-me,
próprios dos braços de seu próprio esposo;
   basta-me, pois, que só a mim foi dado um dia
150. que ela marca com pedra bem mais branca.
   Para ti o que pude, um dom, perfeito em versos,
te dou, Álio, por teus favores todos,
   por que ferrugem não te cubra o nome, espessa
cada dia que passa, todo dia.
155.   Que os deuses tragam cá seus dons sem fim, que Têmis
soía dar aos homens bons de antanho.
  Sede felizes, tu e os que são tua vida,
a casa em que gozamos, a senhora,
  e a hóspede, que desde o início deu-me abrigo;
160. de quem todo o meu bem primeiro veio;
  que mais que todos é mais grata a mim que eu mesmo:
Minha Luz. Viva, é doce meu viver.

O Livro de Catulo. Tradução, introdução e notas de João Angelo Oliva Neto. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996 (Texto e Arte; 13), pp. 139-144






Lorde Kames - Nosso apego a objetos de angústia.



Nosso apego a objetos de angústiai.

Um célebre crítico francêsii que trata de poesia e pintura se dedica a um tópico que outros já examinaram, mas sem sucesso; qual seja, explicar o nosso forte apego por objetos de angústia, imaginários ou reais. “Não é fácil”, diz ele, “explicar o prazer que nos dão a poesia e a pintura, que com frequência lembra a aflição e cujos sintomas são por vezes idênticos aos da mais profunda tristeza. As artes da poesia e da pintura nunca são tão aplaudidas como quando logram produzir a dor. Um misterioso encanto nos vincula a representações dessa natureza, no mesmo instante em que o nosso coração, repleto de angústia, se insurge contra o prazer. Tentarei desfazer esse paradoxo e explicar o fundamento dessa espécie de prazer, tarefa que pode parecer ambiciosa, quando não incauta, pois promete dar conta do que ocorre no peito de cada um, das secretas fontes de sua aprovação e desgosto”. Acompanhemo-lo em sua árdua tarefa. A título de fundamento, ele arrisca a seguinte explicação: “O homem é, por natureza, destinado à atividade; a inatividade do corpo ou da mente traz langor e desgosto, e esse motivo é suficiente para que se recorra a toda sorte de ocupação em busca de alívio. Por instinto, saímos à cata de todo objeto que possa excitar nossas paixões e nos mantenha agitados, e isso a despeito da dor que nos traz, das noites em claro e dos dias perdidos; os homens sofrem mais com a ausência de paixões do que com a agitação que elas ocasionam”. Eis, em suma, a primeira seção. Na seção seguinte, ele desce a exemplos particulares. O primeiro é a compaixão, que faz com que nos atenhamos à miséria e angústia alheia, embora desse modo tomemos parte em seu sofrimento. Esse impulso, observa o autor, depende inteiramente do princípio anterior, pelo qual preferimos uma ocupação, por mais dolorosa que seja, à desocupação. O autor menciona ainda o exemplo das execuções públicas. “Acudimos em multidão ao espetáculo mais horrendo que se poderia contemplar, assistir a um pobre miserável sendo torturado numa roda, queimado vivo ou estripado. Quanto mais angustiante a cena, maior o número de espectadores. É possível antever, mesmo sem a experiência, que as cruéis circunstâncias da execução, que os profundos gemidos e a angústia de nosso semelhante produzirão uma impressão cuja dor só será dissipada após um longo período de tempo. O atrativo da agitação é mais forte que os poderes de reflexão e experiência juntos”. Ele prossegue mencionando o estranho deleite do povo romano com os entretenimentos encenados no anfiteatro: criminosos expostos a feras selvagens, grupos de gladiadores que se abatem uns aos outros, e aproveita a ocasião para fazer a seguinte observação a respeito da nação inglesa: “Os ingleses têm um coração tão terno que mostram humanidade para com os piores criminosos. Não permitem a tortura, alegando que é preferível deixar impune um crime a submeter um inocente aos tormentos que outros países cristãos utilizam para extorquir uma confissão de culpa. Mas este povo tão cioso de seus semelhantes sente um prazer infinito no pugilismo, na tourada e em outros espetáculos selvagens”. E conclui mostrando que o próprio horror à inação é o que leva os homens a se entregarem aos jogos, cartas e dados: “Os tolos e os trapaceiros é que procuram o jogo com a esperança de ganhar. A maioria tem outros motivos. Negligenciam as diversões que requerem destreza e habilidade, e preferem arriscar a fortuna em jogos de azar, que mantêm a mente em contínuo movimento e onde cada lance é decisivo”.
Tal é, em linhas gerais, a explicação de nosso autor. É inegável que ela tem ares verdadeiros; mas as seguintes considerações levam-me a colocá-la em questão. Em primeiro lugar, se a dor da inação é o motivo que nos arrasta aos referidos espetáculos, seria de esperar que estes só fossem frequentados pelos que se sentem mais oprimidos pelo ócio. Mas não é o que acontece; toda sorte de gente acode a eles. Cenas de perigo e angústia exercem um fascínio misterioso, que retira os homens das ocupações mais sérias e opera tanto sobre os ativos como sobre os indolentes. Em segundo lugar, não houvesse em tais espetáculos algo mais que atrai a mente, além da perspectiva de suprimir a dor da inação, a agitação seria o único fundamento para que se preferisse um objeto a outro: quanto mais agitada a mente, mais atraente o objeto. Mas a experiência diz o contrário. Muitos objetos de horror e desgosto agitam a mente de forma tão extrema que mesmo os mais ociosos procuram evitá-los. É o que mostra cabalmente o exemplo que nosso autor encontra em Lívio: “No início, a luta de gladiadores à moda romana mais assustava do que agradava à plateia grega, desabituada a um espetáculo como esse. Mas a frequência das exibições acostumou os olhos do povo, que passou a apreciá-lo; e, com o tempo, difundiu-se entre os jovens a paixão pelas armas.”iii De início, os gregos não se deixavam atrair pelo espetáculo, ao contrário, detestaram-no até que o costume o tornasse mais familiar, menos incômodo, por fim apreciável. Pelo mesmo motivo, um dos entretenimentos prediletos dos ingleses, a rinha de ursos, é considerada repulsiva pelos franceses e por outras nações polidas, como excessivamente selvagem para agradar a pessoas de gosto refinado.
Fosse o homem cujo ser cuja única perspectiva de ação consistisse em obter prazer ou em evitar a dor, como quer a premissa de nosso autor, que vai buscá-la no Sr. Locke,iv essa suposição tornaria difícil, senão impossível, explicar satisfatoriamente por que nos inclinamos a frequentar, de olhos arregalados, entretenimentos inteiramente dolorosos. Mas, se examinarmos com mais atenção a natureza humana, encontraremos numerosos e variados impulsos de ação, independentes de prazer e dor. Sigamos agora essa trilha, e vejamos se não nos leva a uma solução do problema.
Se prestarmos atenção às nossas emoções, não somente às que despertam de objetos externos, descobriremos que são muito diversificadas, fortes ou fracas, distintas ou confusas etc. Não há divisão mais abrangente de nossas emoções do que entre agradáveis e desagradáveis. Mas é desnecessário, e talvez seja vão, indagar pela origem dessa diferença. Tudo o que podemos afirmar é que a constituição de nossa natureza é tal que seu arranjo responde ao sábio e benigno propósito do criador.
Outras circunstâncias a considerar nas emoções é que a afeição entra na composição de algumas, a aversão na de outras. Sentimos afecção por certos objetos, queremos possuí-los e desfrutá-los, outros despertam em nós aversão, e procuramos evitá-los. Objetos agradáveis são os únicos capazes de comover nossa afeição, na nossa aversão só se comove por objetos desagradáveis. Não investigaremos aqui se todo objeto agradável tem por efeito despertar uma afecção. Observo apenas que muitos objetos desagradáveis e mesmo dolorosos não despertam em nós a menor aversão. É verdade que objetos horrorosos, repugnantes ou terríveis despertam aversão, mas muitas paixões e emoções, e mesmo as mais dolorosas, não despertam qualquer aversão. O pesar é uma emoção extremamente dolorosa, que não é, entretanto, acompanhada de qualquer aversão. Pelo contrário, pode ser tão atraente quanto algumas de nossas mais prazeirosas emoções, e é com obstinação que nos apegamos a muitos objetos que o despertam. Exemplo semelhante se encontra na compaixão. Objetos que produzem angústia, embora causem dor, não despertam aversão; pelo contrário, atraem-nos e inspiram-nos o desejo de aliviar a aflição alheia.
Na infância, desejos e apetites são os únicos incitamentos à ação. Ao longo da vida, aprendemos a distinguir, em meio aos objetos que nos cercam, os que produzem prazer dos que produzem dor, e vamos assim adquirindo um incitamento de outra espécie. O amor-próprio é uma poderosa motivação a buscarmos tudo o que possa contribuir para a nossa felicidade. Opera por meio de reflexão e experiência, e todo objeto que pareça acrescentar à nossa felicidade desperta em nós inequívoco desejo de posse. Quando atua o amor-próprio, prazer e dor são os únicos móbiles de ação. Mas nem todos os nossos apetites e paixões são desse gênero. Muitos operam por um impulso direto, sem intervenção da razão, à maneira de instintos animais. E, assim como estes não são influenciados por nenhuma espécie de raciocínio, também a perspectiva de não ser miserável, mas sim feliz, não é inerente ao móbil que nos impulsiona. É verdade que a gratificação de nossas paixões é agradável; também é verdade que, ao dar ensejo a um apetite particular, a perspectiva do prazer pode se tornr um móbil de ação, graças a um ato de reflexão. Mas não se deve confundir tais coisas com o impulso que resulta diretamente do apetite ou paixão, que opera às cegas, como eu disse, à maneira de um instinto, sem qualquer consideração por eventuais consequências.
Confirma a distinção entre ações orientadas por amor-próprio e ações dirigidas por um apetite ou paixão em particular a observação de que se a meta do amor-próprio é sempre a mesma – a nossa felicidade –, os demais apetites e paixões podem ter uma tendência diferente. Isso se torna evidente pela seguinte indução: é agradável a gratificação que temos quando nos vingamos de alguém que odiamos. O caso é outro quando somos ofendidos por um amigo: a amizade me impede de machucá-lo, por mais ofendido que eu esteja. “Não encontro em meu coração um motivo para magoá-lo; procurarei torná-lo ciente do mal que ele me fez”. Mas a sede de vingança que é assim represada pode atacar os órgãos vitais da parte ofendida e ser extravasada na forma de irritação e mau humor, e os vapores só se dissipam com o tempo ou com um pedido de desculpas. Não faltam exemplos de pessoas atingidas por esse humor nefasto, por essa espécie de vingança que se volta contra a parte ofendida e que, em troca de um pedido de desculpas, infligem a si mesmas um grande malefício. Lembremos aqui a jovem que se desilude com o amor, e que, para fomentar ainda mais sua angústia, se atira nos braços do primeiro janota que lhe pede em casamento. Cada um pode observar por si mesmo que a paixão do pesar, quando chega ao auge, afasta para longe tudo o que tende a produzir tranquilidade e conforto. Tomado pelo pesar, o homem se entrega à miséria com uma espécie de simpatia pela pessoa por quem ele padece. “Como poderia ser feliz, se meu companheiro não é?” Tal é a linguagem dessa paixão. O homem que se encontra nessa circunstância é um tormento para si mesmo. Temos assim um fenômeno singular da natureza humana: um apetite pela dor, uma inclinação a tornar-se miserável por contra própria, pior que o suicídio, crime que ao menos põe fim a uma miséria que se tornou insuportável.
Isso nos mostra quão imperfeita é a descrição da natureza humana oferecida pelo Sr. Locke e pelo Abade Dubos, que não reconhecem outro móbil de ação além do que resulta do amor-próprio ou das medidas que tomamos para obter prazer e evitar a dor. Esse sistema exclui muitos apetites e paixões, bem como a afeição ou aversão neles envolvida. E, no entanto, podemos dizer, com alguma probabilidade, que é mais frequente sermos influenciados por esses móbiles do que pelo amor-próprio. Tão variada é a natureza humana, tão complexos os seus poderes de ação, que ela não pode ser contemplada de um único ponto de vista.
Podemos agora retornar ao nosso tópico, uma vez expostos os princípios de ação que lhe dizem respeito. Pode-se inferir do estabelecido que a natureza nos designou para a sociedade e nos uniu intimamente uns aos outros pelo princípio de simpatia, que comunica muitos a alegria ou a tristeza de cada um. Compartilhamos da aflição de nossos semelhantes, padecemos com eles e por eles, e seus infortúnios nos afetam às vezes mais que os nossos próprios. E não admira que ao invés de evitarmos objetos de miséria nos apegamos a eles, o que é tão natural quanto o pesar que sentimos por conta de nossos próprios infortúnios. Admiremos, entrementes, a sábia ordenação da providência: se a nossas afecções sociais estivesse misturado um mínimo de aversão, que fosse por eventuais sofrimentos, estaríamos inclinados, ao perceber um objeto de angústia, a afastá-lo dos olhos e da mente, não a aliviar o sofrimento alheio.
De modo algum pode-se considerar esse princípio como um defeito ou vício; é o cimento da sociedade humana. Não há quem esteja ao abrigo do infortúnio, e a simpatia promove a felicidade e segurança dos homens. A prosperidade e segurança de cada um deve ser preocupação de muitos, o que contribui mais para a felicidade geral do que se cada um só tivesse de depender de si mesmo, como numa ilha deserta, sem poder contar com a consideração e o cuidado dos outros. Mas isso não é tudo. Observando nosso caráter e ações a partir de uma perspectiva reflexiva, não poderemos deixar de aprovar a ternura e simpatia que encontramos em nossa natureza. Deleitamo-nos com nós mesmos em virtude de nossa própria constituição, a consciência de nosso mérito é fonte de satisfação contínua.
Ampliando um pouco a nossa discussão, observaremos que por natureza temos uma grande curiosidade pela história da vida de alguns homens. Julgamos suas ações, aprovamos ou desaprovamos, condenamos ou absolvemos, e a mente, assim ocupada, obtém um maravilhoso deleite. Há mais. Envolvemo-nos profundamente com as preocupações alheias, tomamos partido, compartilhamos alegrias e angústias, preferimos estes, não gostamos daqueles. Esse pendor da mente explica porque histórias, romances e peças são um entretenimento universal que agrada a todos. Trata-se de algo natural ao homem, como criatura sociável, e mais sociáveis são aqueles que mostram essa espécie de curiosidade e preferem entretenimentos como esses.
A tragédia é uma imitação, uma representação de caracteres e ações humanas. É uma história fictícia, que em geral produz impressões mais fortes que as de histórias reais: uma obra de gênio que privilegia incidentes que produzam a impressão mais profunda, conduzindo-os de modo a manter a mente em contínuo suspense e agitação, mais intensos que na vida real. Uma boa tragédia excita cada uma das paixões sociais. Somos tomados de súbita afeição pelos personagens que representa: cativam-nos como amigos queridos, e sentimos esperança e medo como se tivéssemos diante de nós uma história verdadeira.
Ao filósofo ignorante, que desconhece o teatro, pode parecer surpreendente que a imitação tenha um efeito tão grande na mente que a falta de verdade e realidade não seja um empecilho à operação de nossas paixões. Mas, deixando de lado uma explicação material, é evidente que essa aptidão da mente humana a receber impressões de objetos fictícios ou reais contribui para os mais nobres propósitos da vida. Não há nada melhor para aprimorar a mente e torná-la virtuosa do que examinar as ações dos outros, compreender o que impele o virtuoso a aprovar sua conduta e condenar e repelir o vício. Pois a mente, a exemplo do corpo, só se torna forte com o exercício. Se essa espécie de disciplina se confinasse a cenas da vida real, teria pouco proveito para a maioria dos homens, dado que tais cenas são relativamente raras. Mesmo na história, não são muito frequentes. Em composições da arte, por outro lado, quando a ficção tem lugar, somente a falta de gênio pode impedir o exercício da mente pelo qual ela adquire sensibilidade e consolida hábitos virtuosos.
Assim, a tragédia cativa nossas paixões tanto quanto uma história real. Amizade e respeito pela virtude, repulsa ao vício, compaixão, esperança e medo, a série inteira das paixões sociais é despertada e exercitada.
Parece que temos aqui uma boa explicação de nosso gosto pelo teatro; mas, examinando bem a questão, encontraremos dificuldades às quais os princípios acima delineados dificilmente poderiam oferecer uma resposta satisfatória. Não admira que os jovens acudam ao entretenimento teatral. O apreço pela novidade, o desejo de se manter ocupado e a beleza da ação constituem atrativos poderosos, e se uma pessoa, qualquer que seja sua idade, toma a peito os interesses das personagens, a atração se torna tão intensa que o prospecto de aflição e pesar não é suficiente para impedir que ela se envolva. Em geral, a experiência nos torna mais sábios; e pode parecer surpreendente, dado que a angústia é o desfecho infalível de encenações como essas, que pessoas dotadas de juízo mais maduro não prefiram simplesmente evitá-las. Estaria adormecido o amor-próprio, esse princípio tão ativo. Mais natural seria pensar que a experiência nos ensina a nos mantermos afastados do perigo, e que poucas pessoas dotadas de reflexão frequentariam as tragédias mais dramáticas. O contrário, no entanto, é verdade: as tragédias mais dramáticas são as prediletas de pessoas de todas as idades, e em especial das mais impressionáveis, cujos sentimentos são mais delicados. Um homem desse caráter mal se livrou da profunda angústia em que foi lançado na noite anterior por uma bela tragédia, quando decide calmamente, em seus aposentos, sem o menor vestígio de amor-próprio, retornar ao teatro para assistir a outra encenação como essa.
Isso nos leva a uma conjectura das mais curiosas, acerca da natureza humana. Estas especulações oferecem uma prova cabal de que, contrariamente ao que se pensa, o amor-próprio nem sempre intervém para evitar dor e angústia. Ao examinar como isso acontece, descobrimos um admirável artifício da natureza humana para dar plena vazão às afecções sociais. Tendo em vista, como dissemos, que algumas paixões dolorosas são acompanhadas de aversão, e outras de afeição, descobriremos, num exame mais rigoroso, que as paixões dolorosas que na sensação imediata estão isentas de toda aversão, dela também estão livres na reflexão em ato. Ou, para expressar-me de modo mais prosaico, quando refletimos sobre a dor que sofremos em nossa consideração pelos outros, se uma aversão se mistura à reflexão, é devido à dor que sentimos ao considerar o objeto. Que nos seja permitido, para ilustrar esse ponto, comparar a dor que resulta da compaixão com uma dor física qualquer. O corte da pele humana é acompanhado da mesma intensa aversão na sensação imediata ou na reflexão posterior. Mas não sentimos o mesmo quando refletimos sobre as dores intelectuais acima mencionadas. Pelo contrário, quando refletimos sobre o infortúnio de um amigo, por exemplo, a reflexão é acompanhada de intensa satisfação. Aprovamos a nós mesmos quando sofremos com um amigo, sentimos apreço por nossa pessoa por conta desse sofrimento, e suportamos de bom grado a angústia de uma ocorrência como essa, tudo isso sem a menor oposição do amor-próprio.
O escrutínio das paixões dolorosas e livres de aversão nos mostra que elas são todas do gênero social e resultam do nobre princípio de simpatia, que é o cimento da sociedade humana. As paixões que nos causam dor são acompanhadas pelo mesmo apetite de indulgência concomitante às que nos causam prazer. Submetemo-nos resignados a essas paixões dolorosas, e não nos parece que sofrê-las seja uma penúria. Dada a nossa constituição temos a consciência de que há regularidade e ordem nas coisas, de que nosso sofrimento é correto e conveniente. Afecções morais em geral, as dolorosas inclusive, estão inteiramente isentas de aversão, mesmo quando refletimos sobre as angústias mais comuns que nos oprimem. A simpatia, em especial, nos vincula tão fortemente ao objeto de angústia, que chega a sobrepujar o efeito do amor-próprio que dele nos afasta. A simpatia, consequentemente, embora seja uma paixão dolorosa, é atraente: no consolo ao próximo, a gratificação da paixão é um prazer considerável. Essa observação ressalta o brilho próprio das afecções morais, em contraste com as malignas ou egoístas.
Muitas e variadas são as molas de ação da natureza humana, nenhuma é tão admirável quanto a que ora examinamos. A simpatia é o princípio que conecta as pessoas em sociedade por laços mais fortes que os de sangue. E, por mais que a compaixão, que é sua cria, seja uma emoção dolorosa, se fosse acompanhada de aversão, mesmo na reflexão sobre angústia que ocasiona, esse sentimento enfraqueceria gradualmente a paixão e nos curaria de uma grave doença. Mas o criador de nossa natureza não deixou inacabada a sua obra. Deu-nos esse nobre princípio por inteiro e sem contraparte, para que sua operação fosse vigorosa e universal. Longe de termos aversão à dor ocasionada pelo princípio social, refletimos sobre ela com satisfação, e a ela nos submetemos contentes e de bom grado, como se fora um prazer. Por isso, permitimos que a tragédia se apodere da mente, com os muitos encantos que despertam do exercício das paixões sociais, sem qualquer objeção do amor-próprio.
Estivesse nosso autor ciente do princípio de simpatia, ele poderia explicar porque compartilhamos a angústia alheia, sem precisar recorrer a uma razão tão imperfeita como a repulsa à inação. Tampouco seria preciso entrar em questões filosóficas, pois não faltam indícios de que de fato é assim na vida comum. Em toda parte encontramos pessoas de temperamento simpático que optam por dedicar suas vidas ao cuidado dos carentes e doentes, que compartilham de suas aflições e sentem profundamente suas preocupações, tristezas e pesares. Vivem tristes e abatidas, sem outra satisfação que a do dever cumprido.
Se é justa essa explicação, podemos estar certos de que pessoas dotadas de um temperamento caridoso são as que mais apreciam a tragédia, que oferece pleno escopo ao fomento de sua paixão. Os efeitos que a tragédia produz são mesmo admiráveis. As paixões, assim como ganham força ao serem fomentadas, tornam-se fracas na falta de exercício. Pessoas prósperas, que desconhecem a aflição e a miséria, tendem a se tornar insensíveis. A tragédia é um antídoto admirável a essa fraqueza. Ela humaniza o temperamento, pois oferece objetos fictícios dignos de piedade cujo efeito é praticamente o mesmo que o de objetos reais, ou seja, o exercício das paixões. Levados por um impulso natural, mergulhamos nas aflições despertadas pela representação de infortúnios fictícios, e mesmo que nada mais atraia a mente ou lhe acene com satisfação, a piedade é uma paixão capaz de reunir multidões nessas representações.
A curiosidade explica porque as execuções públicas são tão populares. Pessoas dotadas de uma sensibilidade mais refinada se empenham em corrigir um eventual apetite cujo fomento produz dor mas não é acompanhado, na reflexão, do sentimento de mérito próprio. Se execuções públicas entretêm sobretudo o vulgo, é porque este se deixa guiar cegamente pela curiosidade, sem considerar se tais espetáculos contribuem ou não para o seu bem.
O pugilismo, a exemplo da luta de gladiadores, anima-nos e nos inspira com exemplos de coragem e bravura. Entramos no espírito do lutador, e tornamo-nos tão audaciosos e intrépidos quanto ele se mostra diante de nós. Por outro lado, compartilhamos da angústia dos derrotados, pelos quais sentimos uma simpatia proporcional à valentia de sua conduta. Não admira que espetáculos como esses sejam frequentados por pessoas de gosto distinto. Nossa motivação tem aqui o mesmo princípio que produz em nós o desejo de conhecer os feitos de conquistadores e heróis. Observe-se ainda que esses espetáculos têm o notável efeito de ensinar a juventude a ser intrépida e destemida. Portanto, não me parece que os estrangeiros tenham razão em condenar o gosto inglês nesse particular. Espetáculos dessa espécie merecem o estímulo do Estado e devem ser objetos de políticas públicas.
Quanto ao jogo, não concebo qual prazer haveria em manter a mente suspendida, como se fora num cadafalso, tal como fazem os que apostam dinheiro em jogos de azar. Inação e ociosidade são dores mais suportáveis do que essa. Estou convencido de que, no fundo, move o jogador a ganância pelo dinheiro. E não me venham dizer que alguém prefere apostar seu dinheiro em jogos de azar por desprezo aos jogos de habilidade e destreza, pois essa escolha só pode decorrer de algo como impaciência, presunção ou indolência. Uma especulação curiosa quanto ao jogo, é que há nele um prazer que se segue ao bom desempenho e uma dor que se segue ao mau, independentemente do resultado da partida ou da soma de dinheiro envolvida. É evidente que a boa sorte eleva o espírito e a má sorte o deprime, não importa o resultado final. Isso é próprio de nosso interesse pelo jogo como diversão. Deixo a outros que investiguem a qual princípio de nossa natureza pertence esse interesse.
Aproveito esta 3ª edição de meus Ensaios para resolver uma questão que permaneceu em aberto nas edições anteriores. A terra mal produz para o uso do homem o que não requeira o trato da indústria ou da arte; e o homem, que é naturalmente artificioso e industrioso, está pronto a responder o chamado. Se encontrasse tudo ao alcance das mãos, sem que tivesse de pensar ou trabalhar, seria inferior à mais vil das criaturas animais. E, se digo inferior, é porque a mais vil criatura, perfeita em seu gênero, está acima de uma outra corrompida, de não importa qual gênero. O amor-próprio nos incita a trabalharmos em benefício próprio; a benevolência em benefício dos outros. A emulação reforça esses princípios. Encontra-se mesmo entre crianças, que querem vencer, ainda que não saibam o que as incita tanto. Na luta por riqueza, glória e poder, a emulação é uma figura esplêndida, que opera vigorosamente em obras que requerem destreza e não adormece em disputas que dependem do acaso, como jogos de cartas ou de dados. A verdade é que o prazer da vitória sem a perspectiva do lucro é mais fraco. E lamento dizer, mas os riscos extremos aos quais os homens se submetem nos jogos de azar são instigados, senão em todas, no mais das vezes, pela avareza.


i“Our Attachment to Objects of Distress”. In: Essays on the principles of morality and natural religion, ensaio I. 3ª edição. Londres: 1779. Tradução: Daniel Lago Monteiro. (NE)
iiO abade Dubos. [Jean-Baptiste Dubos, Réflexions critiques sur la poésie et la peinture, introdução, cap. 1; livro I. 01 ss. Paris: 1719. Cf. Hume, “Da tragédia”. In: Quatro ensaios. Londres: 1757.] (NA)
iiiTito Lívio, História de Roma, Livro XLI. (NA)
ivLocke, Ensaio sobre o entendimento humano, livro II,cap. XXI, §§ 37-43. 4ª edição. Londres: 1704. (NT)


Bibliografia: Lorde Kames (Henry Home) Nosso apego a objetos de angústia. PIMENTA, Pedro Paulo (org.) O Iluminismo Escocês. São Paulo: Alameda, 2011




Imagens: John Collet , The Female Bruisers, 1770 The British Museum; The Enraged Musician, 1741 - William Hogarth; Engraved print of The Beggar's Opera by William Blake after Hogarth, London, England, c.1729

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Sobre a diversidade pedagógica.


Denomino “diversidade pedagógica” um conjunto de enunciados a respeito da educação em seus vários aspectos. Seus formuladores, membros da sociedade civil – não apenas trabalhadores da educação, em certos casos, estes são meros coadjuvantes – ou de órgãos governamentais, encontram-se no amplo espectro das ideologias políticas. Trata-se de vários tipos de discursos que pretendem constituir um espaço de discussão de questões educacionais num sentido público, aberto às diversas abordagens políticas, epistemológicas, estéticas… Mas, por certas razões (inconscientes e intencionais), eles não cumprem este objetivo. Lamentavelmente, tende a se tornar uma abstração de gabinete, algo que não existe, apenas um construto que traz apaziguamento às consciências inquietas que acreditam que a educação é a solução para todos os problemas do mundo (enquanto outros temas igualmente essenciais ficam relegados a um segundo plano). Um natimorto, se realmente chegou a ser concebido da forma pretendida… Ele atravessa todo o espectro ideológico, como afirmei acima, da esquerda à direita (para quem leva a ferro e fogo essas distinções), agregando as particularidades de cada credo. Por que a educação atrai tantos palpiteiros salvadores da pátria? Talvez porque todo mundo passou por um processo educativo, escolar ou de outro tipo, e o laço emocional seja muito forte, a experiência, com seus aspectos agradáveis ou não marca muito a personalidade da pessoa. Afinal, o que seria do animal humano sem o processo da educação? Entretanto, nenhum idealismo justifica a produção de juízos voluntaristas sem o mínimo conhecimento de causa (e entendo como causa aspectos históricos, filosóficos e políticos de todo campo educativo, não apenas “receitas caseiras”; requer um trabalho reflexivo paciente, que mobiliza história e memória, ética e racionalidade…).

Antes de avançar, alguns esclarecimentos oportunos. A expressão não é original e muitas vezes pode parecer estranha ao leitor da maneira como a emprego. Falo da  “minha diversidade pedagógica”, isto é, tal como a concebo. Contém certa dose de sarcasmo, por ser um tema banalizado a ponto de perder qualquer pertinência. Pode-se encontrar, “diversidade pedagógica” em outros contextos, bastante diferentes de minhas convicções a respeito do tema. Poderia utilizar “pluralidade pedagógica” ou “pluralismo pedagógico”; o efeito seria o mesmo. Melhor ainda: "Dissimulação pedagógica"! Entretanto, alguma implicação com a questão diversidade dentro de meu ser impeliu-me a usar a expressão. Por fim, “diversidade” remete a uma multiplicidade de visões, heterogêneas e conflitantes a respeito do tema. Dá uma ideia de uma sociedade aberta atuando. Mas, não é isso que ocorre.

Outra coisa; não defendo que qualquer elaboração intelectual seja aceita indiscriminadamente no contexto de uma conversação, diálogo e discussão acerca dos fundamentos de uma “boa educação” (no tocante a conteúdos, currículos, metodologias, políticas públicas, legislação, etc.). De forma alguma. Refiro-me ao vasto repertório formado ao longo dos séculos e que faz parte de nossa tradição ocidental – termo tao aviltado e propositalmente mal compreendido – , o que abrange desde a cultura clássica, passando pelas várias cristandades, até a produção intelectual do Renascimento e dos séculos da Modernidade e, finalmente, a Contemporaneidade. Estarei sendo “reducionista”, “etnocêntrico”, “elitista”, entre outros qualificativos que querem explicar tudo e acabam não esclarecendo nada? Depende do que se entende das expressões arroladas acima. Não dá  para abranger tudo o que existe. Vira superficialidade. Operamos a partir da perspectiva em que estamos; somos brasileiros, latino-americanos, tributários principalmente da cultura europeia e de elementos das culturas indígenas e africanas. De forma conflituosa, muitas vezes. O elitismo? Se se entender elitismo como opção deliberada pelo que melhor se produziu dentro de nossa tradição, algo canônico – certamente discutível e provisório, mas que passou pelo olhar de gente mais experiente que nós e, portanto, afigura certa excelência paradigmática, a ser conhecida, apreendida e depois reelaborada, ou deixada de lado, se for o caso – então, sou um elitista…
Existe muita coisa (autores, obras e conceitos) desconhecida, subestimada, mal compreendida, dentro de nossa tradição. Quanto às outras civilizações? Respeitemo-las, porém, antes de iniciar uma grande conversação com o outro, devemos conhecer em profundidade o que nos formou ao longo dos séculos. O que nós somos, para o bem e para o mal. Daí empreendemos um diálogo franco com o outro. Não se dialoga renegando nossa identidade (termo tão instrumentalizado e desgastado). Ou se envergonhando dela. Tanto no que se denomina “Ocidente”, “Oriente”, “África” quanto em outras configurações culturais e territoriais possíveis, existe barbárie e civilização, luz e trevas, sabedoria e ignorância. Não há paraíso em lugar algum.

Terminado este parenteses. Retomo a problematização da “diversidade pedagógica”

A diversidade pedagógica é, portanto, uma diversidade aparente, diria ilusória, no sentido de tentar cumprir sua promessa de dialogicidade sem fronteiras, na plena circulação das ideias, criticidade e conflito, sem limites rígidos, mas sem estofo (quanto à qualidade dos argumentos, conteúdos, honestidade intelectual e mesmo, real interesse de levar a efeito esse projeto). Acrescentaria que é uma diversidade dissimulada, seletiva (talvez hipócrita), pois apenas certas concepções, conceitos, autores e narrativas são considerados os mais legítimos e apropriados para o suposto diálogo.

Predomina certo tato, um “bom tom” em contextos mais refinados ou descolados, ou minimamente polidos, relacionado ao que é legítimo, válido e passível de discussão no campo educativo. Do mesmo modo, existe aquilo (conceitos, ideias, autores etc.) que é categorizado como secundário, irrelevante, “pouco complexo”, ou ainda, “ultrapassado”, “reacionário”, “conservador”, “tradicional”; esses quatro últimos, são adjetivos infalíveis quando se desqualifica qualquer um que pretenda problematizar os pressupostos epistêmicos, políticos, estéticos, éticos da “diversidade pedagógica”. Assim, é mais fácil descartar ou estigmatizar visões divergentes de forma mais elegante e “científica”. Entendo “contextos mais refinados ou descolados” aqueles ambientes tais como Universidades, gabinetes de secretarias de educação, diretorias de ensino e eventos da grande mídia do tipo “Cafés Filosóficos”, cursos, publicações encontros e debates (ou, pelo menos, se pretende debater algo…) promovidos pela Folha de São Paulo, Carta Capital, entre outros veículos de comunicação, ONGs, entidades da iniciativa privada, preocupados com a educação. A “polidez” talvez seja ironia e maldade de minha parte. Quem passou por um curso de licenciatura e tentou questionar determinado pensador e sua obra sabe do que estou falando. Melhor entender “polidez” como dissimulação, desfaçatez, com um pouco de humor britânico.
Em ambientes mais rudes (seja no tom da linguagem ou significando “vamos direto ao assunto sem enrolações”), entretanto, o clima é mais áspero, por vezes brutal, mas não necessariamente. É possível encontrar gente educadíssima. Refiro-me a lugares tais como o chão da luta sindical, da sala dos professores (sob certas circunstâncias, embora seja doloroso reconhecer isto; no entanto, acredito que na maior parte das vezes a sala dos professores tende a ser uma espécie de distanciamento da rotina entre as aulas), das reuniões pedagógicas (aqui, no Estado de São Paulo: PCTP), OT’s e cursos ministrados pelas Diretorias de Ensino (poderia alocar estes dois últimos itens nos “ambientes polidos”). Aqui, o “bem” e o “mal”, o “adequado” e o “inadequado”, (termos irritantes e vagos, apropriados da psicologia comportamental mais rasteira), o “amigo” e o “inimigo” da educação pública e do professorado são nomeados de forma mais direta. Em especial após as jornadas de junho de 2013, a tensão tornou-se mais feroz, quem era colega um dia antes vira desafeto no dia seguinte. Contribuiu em muito o uso intenso das redes sociais…
Os dois ambientes que descrevi acima, de maneira um tanto quanto artificial e subjetiva, são igualmente maniqueístas e classificatórios, diferindo apenas na intensidade dos discursos prescritivos, imperativos e/ou estigmatizadores.
Talvez a diferença marcante entre os dois seja socieconômica, o primeiro, mais elitizado, enquanto o outro engloba a totalidade do professorado (os ATPC’s são obrigatórios e é impossível escapar da convivência na sala dos professores na maior parte do tempo).

O que conta é a subserviência intelectual, adesão acrítica a uma determinada filiação metodológica (diria “teórica”, todavia um verdadeiro trabalho teórico com o necessário rigor é o que menos se encontra) no sentido mais superficial do termo, o de se afilar, aplicar, (como se a relação entre teoria e práxis fosse tão mecanicista assim…) indiscriminadamente e sem nenhuma mediação, as mais variadas concepções pedagógicas (ou psicopedagógicas) disponíveis no mercado das ideias educacionais. Se na concretude e complexidade da sala de aula este aparato ficar aquém dos resultados desejado ou tornar o trabalho ainda mais difícil, a responsabilidade é quase sempre do docente, e não necessariamente do ideário que foi proposto (ou melhor, imposto de cima para baixo).

Além da subserviência intelectual, existe a espinhosa questão da filiação política, ou politização, ideologização, partidarização entre outros… Que a Política (com p maiúsculo mesmo, significando a arte de dialogar e debater para organizar as relações entre os indivíduos, da sociedade civil e o Estado, do gerenciamento de recursos para o bem comum, ou seja, Republicanismo na melhor acepção do termo) é algo imprescindível em tudo o que se relaciona à educação, a política (minúscula em vários aspectos) no seu sentido mais depreciativo torna o ato educativo algo quase irrealizável. A subserviência a uma ideologia política é extremamente valorizada. Seja a partidária, em especial no sentido do “nós contra eles” ou algo mais metafísico, idealizado: “acredito na justiça social”, na “igualdade”, no desenvolvimento do “senso crítico”, no “socialismo” que, de forma alguma foi aquilo praticado na Cortina de Ferro e outros lugares, caso seja um educador de esquerda; um adepto da economia de mercado tem este discurso: “acredito firmemente que a educação (nesse caso sempre a escola) é um instrumento de fundamental importância (senão o único) para a inserção do jovem no mercado de trabalho”. De certo modo produzo uma caricatura. Acredito que a educação tem certo papel na vida econômica. Porém, é preciso especificar este papel, para que ele não inviabilize o que é o principal do dispositivo escolar, a transmissão de um legado cultural e a formação de um sujeito letrado, no sentido mais amplo da palavra. A educação não se limita a instituição escolar, e a tal “inserção no mercado de trabalho” pode ser feitas de forma mais eficiente em outras instâncias. Acredito na “justiça social”, mais é necessário qualificar o que se entende por este conceito, para destruir falsas expectativas e projetos enganosos (e oportunistas). E, novamente, verificar o que a escola pode contribuir para este ideário e o que pode comprometer o que é próprio da escola. Em outras palavras, uma escola pública de qualidade e acessível a todos é uma forma de fazer uma parte da “justiça social”. Outras instituições podem fazer sua parte.
“Senso crítico”? Temos aqui uma expressão que pode ser falaciosa se não for bem compreendida. Se entendermos como discernimento dos elementos de um dado discurso (filosófico, científico, político, religioso, estético, moral…), análise dos seus componentes, seus limites, ideal de autonomia intelectual, capacidade de pensar por conta própria após adquirir uma disciplina intelectual. Se for isso, tudo bem. Entretanto, muitas vezes “senso crítico” significa demonizar aquilo que é diferente e divergente, seguir uma “cartilha ideológica” de antemão, sem nenhuma autonomia, apenas para fazer parte do grupo ou por mesquinharia sectária.
A “diversidade pedagógica” tende a ignorar ou embaralhar estes pressupostos, tornando qualquer análise diálogo mais densos impossíveis.
O que torna a “diversidade pedagógica” um projeto inviável é a incapacidade ( ) que os seus defensores têm em apreender criticamente os limites de seu discurso e sua efetivação possível. Além disso, não sabe lidar com o imprevisto`, com o contraditório e com a divergência. É uma espécie de “cientificismo” que espera sempre estar no controle de tudo e nunca errar, atribuindo seus fracassos àqueles que lhes fazem resistência e questionamento. Desse modo, “Educação para Todos”, educação para a tolerância e diversidade (étnica, de gênero, religiosa, de lugar...), educar para a “Sociedade do Conhecimento”, formação integral, educação para a igualdade ou para equidade (em ambientes menos esquerdistas), educação para o empreendedorismo e para o protagonismo juvenil, entre tantos outras concepções que deveriam ser melhores analisadas, se reduzem a meras cartas de boas intenções que não se desdobram em práticas realmente significativas. Quando não se transformam em slogans repetidos ad infinitum, promessas que nunca serão realizadas. O que realmente ocorre, contra tudo que parte de seus proponentes acredita com ética e honestidade intelectual (uma outra parte, mais atuante, está satisfeita com a dissimulação e engodo) é uma socialização, uma adaptação ao existente – certo índice de alfabetização, ainda que insatisfatório, certas competências e habilidades exigidas pelo mercado de trabalho, embora por si só não garantam uma colocação –, mas não um processo educativo, uma formação cultural que mereça este nome.
Se desejamos/lutamos pela formação de um sujeito letrado e autoconsciente – com pleno domínio do ler, escrever, contar e apto a interpretar elementos de suportes diversos (escritos, sonoros, visuais…); que tenha conhecido e se apropriado de parte significativa do patrimônio cultural da humanidade, os caminhos para se chegar a este fim são variados (não inumeráveis, mas não apenas um).não existem professores, salas de aula, escolas ideais, experiências idênticas. Existem várias formas de educar, sem que estas entrem em conflito umas com as outras, ou uma seja privilegiada em detrimento das demais. Vários afluentes deságuam num rio. Teorias e metodologias, tomadas sem nenhum critério desembocam em lugar algum. 

Resenha do seriado Handmaid's Tale (O Conto da Aia).



Minhas primeiras impressões a respeito do Conto da Aia (Handmaid's Tale) são extremamente positivas, as melhores possíveis. Digo isto com certo sarcasmo, pois, foi bastante desconfortável assistir os primeiros episódios, tal a brutalidade concreta e simbólica que a história e sua competente forma de narrativa nos apresentam. E, se provocou mal-estar é porque a intenção do elenco, diretores, roteiristas e demais envolvidos foi atingida. E congratulo a escritora canadense Margareth Atwood, autora do livro homônimo, publicado em 1984, de onde série foi inspirada, por uma obra que provoca enorme inquietação sobre temas urgentes da contemporaneidade.
Do mesmo modo que Game of Thrones, comecei pela adaptação televisiva e, depois, aos poucos fui lendo a saga de George R.R.Martin. Curiosamente, estou lendo Orys e Crake, romance distópico da mesma autora. É o meu primeiro contato com sua obra.
         Narrada por Offred, outrora June, jovem de 31 anos, que vive na República de Gilead - Estado Teocrático que ocupa o território dos Estados Unidos num futuro próximo. Formada em ciências humanas, June sofre as imposições do novo governo, perde, assim como todas as mulheres, seu emprego e direito à conta bancária, e se vê dramaticamente afastada de sua filha e marido,após uma tentativa malsucedida de fuga para o Canadá. Depois de um treinamento brutal empreendido pela "Tias", June é transformada numa Aia, mulher fértil que deve servir a família dos Comandantes (chefes militares que detém o poder) e, periodicamente, participar de um ritual bizarro, denominado "Cerimônia", que consiste na violação sexual da aia em presença da esposa do Comandante. Inspirado em  Gênesis 30: 1-3, em que Raquel, impossibilitada de gerar filhos para Jacob, como que legitima que seu irado marido se aproveite da serva Bilha, para que Raquel "receba filhos por ela". As mulheres destes militares são estéreis, devido à idade ou transformações ambientais, que ficam subentendidas na trama.
        Portanto, vamos conhecendo aos poucos o mundo fechado da República de Gilead através dos olhos de Offred (em outras palavras, June perdeu seu nome e tornou-se propriedade do Comandante Fred Waterford, aportuguesando: de Fred). Há outros focos narrativos, mas Offred é o centro de todo o desenrolar dos acontecimentos.
        Sagas sobre indivíduos e coletividades submetidos a regimes totalitários contados sob diferentes prismas mobilizam a atenção de todos, especialmente quando bem contadas. Seguindo uma linhagem que engloba Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, Nós, de Nós, de Ievgueni Zamiatin, 1984, de George Orwell e, em especial, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, para ficar nos mais emblemáticos, Margaret Atwood imprime seu estilo na literatura de ficção científica, com uma marca implacável como o metal incandescente sob a pele de um animal ou uma pessoa submetida à tortura.
        Vou denominar essa marca de universo da não-palavra. A República de Gilead é um universo da não-palavra porque a palavra – escrita, lida, falada – está sob rígido controle, sufocada a ponto de perder qualquer relevância. Os livros estão banidos. Mesmo a Bíblia (em especial o Antigo Testamento), que seria o fundamento teológico e institucional da República de Gilead; Estado teocrático que, num futuro próximo abrange parte do território dos Estados Unidos após um golpe de estado, dentro de um contexto de crise ambiental severa; é apropriada numa forma extremamente seletiva, enfatizando aspectos do interesse da camada dominante. Frases e passagens descontextualizadas, lidas de forma literal, sem nenhuma hermenêutica, sob a forma de imperativos. Salvo engano, não vemos personagens lendo a Bíblia. Na oração que antecede a bizarra e brutal “Cerimônia”, o Comandante lê uma oração dum livrinho que, tanto pode ser uma Bíblia de bolso ou uma coletânea de passagens que são consideradas adequadas. É uma sociedade onde predomina a comunicação oral, que igualmente está sob um controle tão implacável quanto o mínimo de palavra escrita que é permitido, nesse caso para aqueles que detém o poder, apenas homens.
        Utilizo “palavra” no sentido de linguagem, veículo da interação entre os seres humanos. Ferramenta criadora de cultura e conflito, sentidos, significados, conceitos, caminhos e limites; com toda sua ambivalência e resultados inesperados.
No ambiente estéril do Conto da Aia, com altas taxas de infertilidade e recursos alimentares escassos, a palavra já não é mais criadora, instituidora de cultura. Serve apenas para demarcar fronteiras e hierarquias, absolutas e inegociáveis.
Nos supermercados, os rótulos limitam-se a sinais e símbolos bastante simplificados que indicam o que se está adquirindo. Numa estação do metrô, operários retiram placas e letras afixadas nas paredes de concreto. Serão substituídos por outra linguagem.





      Após uma sucessão de catástrofes globais, que provocaram:

– degradação ambiental e escassez de alimentos, acompanhada por efeitos na saúde (no caso do Conto da Serva, uma repentina perda da fertilidade de vastos contingentes da população, em especial a feminina; além disso, poucos bebês sobrevivem após nascerem, e não apresentam doenças congênitas, que acabam invariavelmente levando a morte)
– crise econômica, falência dos parques industriais e desemprego crescente;
– perda de confiança na política e advento de grupos que defendem soluções autoritárias.

       Nesse caso, os Filhos de Jacob, mediante estratégias inspiradas na CIA, nos totalitarismos de direita e de esquerda. Encarceramento e execução de intelectuais e professores, tal como praticado pelo Kmer Vermelho. Contrainformação e clima de terror permanente, via delações, a maneira orweliana. Momentos de extravasamento de ódio através de linchamentos. Uso da internet apenas pela elite (masculina) governante e militares; ataques terroristas a edifícios símbolos da democracia norte-americana e finalmente, acesso ao poderes que constituem uma religiosa, com a reelaboração de leis e expurgo dos dissidentes. 

Como os Estados Unidos da América foram, em poucos anos, se transformando na República de Gilead? O povo demorou aperceber? E quando tomou consciência da tragédia, já era tarde demais, restando o exílio e a fuga. Questões que ficam em aberto, e mostram como a democracia é uma sistema frágial e precioso, que precisa ser...

      Há hipocrisia e resistência, mercado negro e prazeres proibidos à todos, porém acessiveis a alguns privilegiados.

       As comparações com a recém-instalada era Trump e seus desdobramentos políticos e culturais precisam ser matizasas. Existem analogias possíveis, no tocante ao isolacionismo econômico e xenofobia. Suas piadas grosseiras a respeito das mulheres e acusações de abuso sexual … Entretanto Donald Trump é um hedonista e é pouco provável que esteja interessar em vedar o acesso das mulheres à educação ou proibi-las de trabalhar.

       É inegável a existência de reacionarismo político e religioso dentro do Partido Republicano. E também de certos grupos cristãos à margem da política partidária. Vale lembrar das bizarras figuras de Rick Santorum e Sara Palin, que concorreram como candidatos para a nomeação republicana à presidência dos Estados Unido nas prévias de 2008. O primeiro, católico tradicionalista, com forte teor anti-intelectualista e a segunda, de orientação protestante, seguindo um viés militarista. Mitt Romney e John McCain eram mais razoáveis e bem mais equipados intelectualmente para assuntos de economia e política externa. Romney que é mórmon, sofria certa discriminação por causa de sua fé, vista por alguns como não-cristã. O que dá uma ideia da complexidade do universo religioso estadunidense.

De qualquer forma o que vemos no seriado é uma distopia com forte inspiração no mais extremo fundamentalismo muçulmano, representado pelo Estado Islâmico (ISIS) e o Talibã quando em seu auge. Gostemos ou não, o Islã contemporâneo tem pendores mais totalitários do que o cristianismo ocidental. Basta pesquisar com distanciamento crítico a situação dos cristãos em países islâmicos e a perseguição de muçulmanos mais contestadores em seus próprios Estados.

Embora a República de Gilead seja uma ditadura de inspiração cristã fundamentalista, ao estilo WASP norte-americano, é impossível ignorar as conexões com o extremismo islâmico, sobremaneira sua obsessão em controlar a sexualidade feminina e o papel da mulher na sociedade. Uma das primeiras medidas foi a proibição do trabalho feminino ao ponto das mulheres não poderem mais ter conta bancária. Quem acompanha com atenção a série se lembrará de quando June, acompanhada da amiga Moira, ao adentrarem um Café, não conseguir pagar o lanche com seu cartão de débito, embora o pagamento tenha caído há poucos dias. E ainda são tratadas com grosseria pelo dono do estabelecimento (talvez devido aos trajes esportivos que usavam na ocasião), provável simpatizante da nova ordem que se instituía sorrateiramente. 

Outra medida extremista foi a proibição do acesso à leitura às mulheres, lei que teve a participação da esposa do Comandante Waterford, paradoxalmente uma acadêmica responsável por pesquisas importantes sobre fertilidade e meio ambiente.

Não é coincidência que Margaret Atwood situe a formação de seu Estado fictício na Nova Inglaterra, região da caça às bruxas de Salém e marcada por rígida tradição puritana. O vestuário vermelho das aias remete à indumentária do século XVII, lembrando a pintura holandesa deste tempo e a severa tradição calvinista.

De qualquer forma, as analogias com o Estado Islâmico e o Talibã (quando no seu auge) são mais fortes do que com a tradição cristã, especialmente a Reformada. Um olhar sem preconceitos para com a história do cristianismo mostra que, antes da instrução pública do século XIX, reivindicada pelos revolucionários de 1789, os protestantes defendiam o acesso à leitura e escrita, ainda que básicas, para as camadas populares, incluindo as mulheres, cada indivíduo seria seu sacerdote, dizia Martinho Lutero, daí aprender a ler para ter acesso à sagrada escritura. Vale lembrar que as grandes universidades estadunidenses têm origem na tradição reformada. Do mesmo modo, o Islã não se resume ao fundamentalismo. Em tempos de politicamente correto e desonestidade intelectual é preciso se precaver para certo anticristianismo barato e irresponsável. E tratar a sociedade de forma acrítca. Ou criticá-la sem fundamento teórico e empírico.





Uma série feminista? Sim, no aspecto de valorização dos direitos e dignidade da mulher, pois são as primeiras vítimas de regimes totalitários deste tipo. Mas os homens também são atingidos quando violam as rígidas regras. Há uma cena rápida, quando Offred e sua amiga voltavam do supermercado e presenciam os militares saindo das emblemáticas vans pretas e aprisionam um homem que portava uma maleta. Homossexual? Suspeito de espionagem e traição? Contrabandeava livros e outros materiais proibidos?
        Para além dessa polêmica, o seriado trata da destruição do humano, independente de gênero, etnia, condição social. E demonstra essa barbárie através da ficção de forma brilhante.  

    A construção dos personagens é delicada, sem caricaturização. Todos apresentam a devida complexidade para uma ficção madura, mesmo aqueles mais abjetos. Existe, portanto, uma presença do mal (que entendo como metafísico) e da injustiça, mas sem a necessidade de um maniqueísmo empobrecedor. Só um insano simpatizaria com a ideologia totalitária da República de Gilead, os procedimentos das “Tias” e dos Comandantes e seus subordinados. Todavia, estamos lidando com personagens consistentes, com todas as ambivalências, o que torna o espetáculo mais estimulante. Torcer por June/Offred e as pelas demais aias, pela democracia e Estado de Direito que foram abduzidos não significa apenas alguns momentos de entretenimento pensante, neste caso. Significa defender valores civilizatórios através da arte, sem panfletarismo, algo extremamente difícil. 

    O elenco é irrepreensível, destacando, sem dúvida, a Elizabeth Moss, que compõe com luminosidade uma sofrida e corajosa, na medida do possível, June/Offred que luta contra sua aniquilação (desculpem-me não ter uma expressão mais original, usaria “uma sofrida e resiliente June/Offred”, porém tenho restrições ao uso banal das palavras resiliência/resiliente - implica certo conformismo e transformação da pessoa num objeto maleável, não é por acaso que é um termo importado da física e engenharia, mas fica para outra discussão). Destaco principalmente seu olhar, predominante triste e com alguns lampejos de frágil esperança, que diz quase tudo… Joseph Fiennes, quiçá o ator mais conhecido, encarna um contido e um tanto sinistro Comandante Waterford. Sua consorte,  Serena Joy (Yvonne Strahovski) é uma mulher que recalcou sua carreira intelectual pela causa política e a insana fé. Angustiada pela impossibilidade de ser mãe. Ann Dowd, implacável na temível Tia Lydia, com sua postura imperativa e sufocante, toda vez que aparece. No entanto, também apresenta alguns momentos de ternura quando consola a aia Janine (outra personagem perturbadora, à beira da loucura) excluída de um evento, ao exemplo de outras servas, por causa das mutilações resultantes de castigos físicos, no caso dela, um olho perdido. Seria interessante uma maior exploração da vida interior destes “vilões”. Como viviam antes deste cataclismo civilizatório? O que os levou para esse caminho totalitário? de oprimirem sua humanidade e racionalidade e a infligir tanta dor aos outros. Em suas mentes ainda existe espaço para a dúvida? E por fim, o motorista Nick, soturnamente vivido por Max Minghella, uma espécie de agente de elite do Estado infiltrado no cotidiano de todos, chamado "Olho". 

O desenho de produção evita pirotecnias desnecessárias. Os cenários são despojados e escuros, em especial os interiores; tudo de acordo com o ideário ascético da República de Gilead. Quase tudo se resume ao mínimo necessário, como se demonstrar um traço pessoal fosse pecado (e é, na mente…). Uma possível exceção é o escritório do Comandante Waterford, com uma generosa biblioteca, com tudo aquilo que é negado ao povo, e as mulheres, livros.  As pessoas saem as ruas o mínimo possível, compras e trabalho, com a indumentária que distingue sua posição social. Os sisudos e onipresentes militares e seus veículos escuros são outra conexão com o mundo real, remetendo aos paramilitares do Oriente Médio e América Latina. Em contraste, o mundo pré-ditadura é mais luminoso, vívido; embora sintamos a presença sutil da crise ambiental e, da política e social que se desencadeará em breve.

A 1ª temporada limitou-se a dez capítulos, com um final em aberto, tal como o livro. Para quem leu o romance, esta temporada abrangeu o romance todo, exceto por um apêndice fictício, onde se especula sobre o destino de Offred/June.O que parece ser a base da próxima ou próximas temporadas. Agora fica por conta da imaginação e talento dos roteiristas, embora Margaret Atwood seja consultora da série e possa dar dicas de como continuaria sua história através de outros olhares .  Depois de reconhecer a excelência da produção fico sempre preocupado com uma possível “encheção de linguiça” que estraga tantos projetos interessantes. Todavia,  a equipe parece empenhada em realizar um trabalho de qualidade. Acredito que esteja errado e os passos seguintes sejam surpreendentes. O início foi promissor e constitui ótimo material rico para fruição estética e reflexão.