terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Septicflesh: os quatro primeiros álbuns.

Saudações leitores do Labirintos do Ser!

 Em minha primeira postagem de 2013 apresento a lendária banda grega1 de Death Metal Sinfônico Septicflesh. Formada em Atenas, no ano de 1990, conta na sua formação clássica  Sotiris Vayenas (guitarra e vocais limpos) e os irmãos Christos Antoniou  e Spiros Antoniou (respectivamente guitarra  e baixo e vocal áspero/gutural). Entre 1991 e 1998 essa formação manteve-se estável. Nos anos de 1997 e 1998 foi acrescentada a vocalista Natalie Rassoulis, de sólida formação lírica. Formado em composição erudita, Christos Antoniou é o principal eixo desse grupo bastante coeso, coordenando a alquimia entre elementos clássicos, étnicos e a base propriamente rockeira, que consiste no Death, o Black e o Dark Metal. Em outubro de 2003  o grupo se separa, cada um desenvolvendo seus projetos. No início de 2007,é anunciada a reunião do Septicflesh.  A temática lírica está calcada na mitologia grega, egípcia, sumeriana e na ficção de H. P. Lovecraft, além do ideário ufológico sobre os chamados "deuses astronautas". Ao mesmo tempo inquietações contemporâneas sobre os rumos incertos de nossa sociedade estão presentes. Desse modo, desde o primeiros EP e Full-length até o último álbum (The Great Mass, de 2011) temos a nossa frente uma obra vigorosa e feita com paixão.

 Conforme salientei acima, trata-se de uma trajetória musical consistente. Todavia, considero os quatro primeiros cds excepcionalmente criativos. Os dois álbuns seguintes (Revolution DNA, 1999 e Sumerian Daemons 2003) mantém o padrão de qualidade, agregando toques eletrônicos e industriais. Comunion (de 2008, que sacramenta a reunião da banda) e The Great Mass, resgatam o espírito dos primeiros trabalhos, com maior ênfase no Death metal.

 Desse modo, disponibilizo aos meus leitores os arquivos dos quatro primeiros álbuns: Mystic Places of Dawn (1994), Esoptron (1995), Ophidian Wheel (1997) e finalmente, A Fallen Temple, de 1998, pois, lamentavelmente, como tantos outras obras essenciais, nunca foram lançados por estas plagas. Selecionei também algumas canções e respectivas letras para dar uma visão geral do trabalho do grupo neste período.  Assim espero proporcionar alguns momentos de devaneio e prazer sonoro e como grande admirador da cultura helênica, faço votos de que o povo grego possa se reerguer e enfrentar de cabeça erguida os momentos dramáticos pelo qual está passando. 


1. Remeto a uma postagem antiga: Sete bandas Gregas de Heavy Metal.





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Crescent Moon



The sand beneath your feet
a yellow carpeting
the palace of wilderness
Only king and servant is you
searching for the pyramid
that guards the emerald board

It was a crescent moon
when you have been initiated
in the science of the black earth,
And the optimism of youth
pushed you in quests
into the paper worlds
of the libraries of Cairo

Crescent Moon
Two sides of the same coin
The poor in mind are satisfied
with what they see

Crescent Moon
And they bear the sign of imperfection
because they miss the other side
the invisible

Crescent Moon
Few words carved with diamond
could draw the curtains
that cover the glassy cage of senses
The warm touch of the starlight
(magnes) will be the proof
and the philosopher's stone your trophy

Grab the golden rope and climb
the imaginary walls of your thoughts
you may fall but at least you'll have tried




The Underwater Garden





Melancholy ascended in the surface
Knowing that she'll have forever a lair
In the underwater garden.
Serene the azure body that filled
The landscape crowled as ever.

The sound here is a word without a
Meaning nothing can agitate the
Monotony.
The new and the old event roll indolent
Embraced in a circle.

The one takes the place of the other
Returning continuously in the beginning.

What didn't belonged in the fluid kingdom
Has now become its integral part.
The plunder that was stolen
From the marvelous world of the unknown
Is hidden deep.
Imprisoned from the seeweeds
Ornamented with the flowers of the sea.

Every piece has its own story
Every creation is also a piece
Of its creator.
Behind the coral gate of the garden
Are sealed emotions
[solo : sotiris] 







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Esoptron

Reversing the view towards the soul
Absorbed from the swirl of the chaotic ego
Naked from the warm familiar
Company of matter
Here desires and fears are shaped,
Uncontrolled multiplied in
The rhythm of ecstasy
Gathered under the threat of
Upcoming afflictions
Parallel futures that may
Never happen are blocking
The entrance of the inner most sanctum
They are the guardians
Who is the master of this cosmos ?
Who posted them here ?
Illumination comes from within
And levitates the eidolon
Effigies and marble busts lined in
External chains silent,
Laden with creases deep like self deceit
They seem lost in their contemplation
Their laurel wreath is withered
Now i know how felt the first amphibian
When allowing the air to inhabit in its lungs
The sceptre was always in my hand
Esoptron

Ice Castle


In the land that was born from
The sperm of winter is
The incarnation of all enchanted fairy tales
An imposing figure
Isolated from an ocean of frozen waves
Trying to unite the sterile earth
With the celestial dome
Like a crystalline bridge of ice
In the claws of four ancient mountains
Ice castle
Transparent halls filled with
Wonder worthless
For those who are sweeping along with
The purposeless flood of wasted feelings.
Priceless treasure
For the children of the serpent dream
In the claws of four ancient mountains
Ice castle
There they claim life
In a feast with your nightmares


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Phallic Litanies





Welcome to the joyous carnival of passion
Where the mind surrenders to the animal.
Smell the seductive odor of the naked skin
Bathed in the exotic oils, the potions of desire.
It would be folly to defy the eldest law
For resistance will only supply the fire of lust
With her wooden excuses.
We are here to drink this old wine without remorse
To spill the fluid of genesis
In abundance because we all know
That as this elixir of life will flow
We will be left exhausted but smiling.
Nails sink into sweaty ground
Marking dionysiac stings
Sparks set from velvet tongues
That bring close soft orange lips
Phallic litanies
Paths lead inside warm nests, that scared shrines of sin
As serpents we crawl beneath
The guises that we all wear.
It would be folly to defy the eldest law
For resistance will only supply the fire of lust
With her wooden excuses.
So it will grow stronger and stronger
Until fatally it will consume the renegades
With the flames of their denied satisfaction
Phallic litanies




Marble Smiling Face






Black leather gloves
On soft thin hands.
Red celtic knives,
Sharp as your touch.
[chorus:]
Hunting eagle proudly land
On this island that's my heart.
Twin mirrors blue.
Cold lakes consealing fire.
Red coral hair.
A dazzling ruby dome
[chorus:]
Hunting eagle proudly land
On this island that's my heart.
Elegance combined with grace
Dressed your marble smiling face.
[solo:chris]

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Gaston Bachelard - Matéria e mão.




Um escritor romântico, pintor nas horas vagas, acreditava fazer voto de realismo ao proclamar: "Para mim, o mundo exterior existe." O gravador se compromete mais: para ele, a matéria existe. E a matéria existe imediatamente sob sua mão obrante. Ela é pedra, ardósia, madeira, cobre, zinco... O próprio papel, com seu grão e sua fibra, provoca a mão sonhadora para uma rivalidade da delicadeza. A matéria é, assim, o primeiro adversário do poeta da mão. Possui todas as multiplicidades do mundo hostil, do mundo a dominar. O verdadeiro gravador começa sua obra num devaneio da vontade. É um trabalhador. Um artesão. Possui toda a glória do operário.
Meditando-se materialmente sobre as páginas deste Álbum1. encontra-se a ação salutar de mãos dinamizadas pelos devaneios da vontade. O resultado estético feliz não oculta a história do trabalho, a história das lutas contra o cobre, os estratagemas tão diferentes dos entalhes da madeira, a prudente aproximação da pele granulada da pedra, enfim os tempos heroicos do gravador nós os revivemos se tomarmos consciência da matéria inicial atacada pela mão.
Pensamos em Georges Braque, que escreve: "Para mim, o processo de realização tem sempre precedência sobre os resultados esperados". A gravura, mais que qualquer outro poema, remete-nos ao processo de criação.
Sim, a primeira matéria atacada permanece lá, sob o papel, mais no fundo do que a pasta celulósica: a madeira e o cobre não podem se deixar esquecer, trair, mascarar. A gravura é a arte, entre todas, que não pode enganar. é primitiva, pré-histórica, pré-humana. Já a concha gravou seu manto na inspiração da substância de sua pedra. A concha não trabalhou com o mesmo buril a sílica e o carbonato.
Essa consciência da mão no trabalho renasce em nós na participação no ofício do gravador. Não se contempla a gravura: a ela se reage, ela nos traz imagens de despertar. Não é somente o olho que segue os traços da imagem, pois à imagem visual é associada uma imagem manual e é essa imagem manual que verdadeiramente desperta em nós o ser ativo. Toda mão é consciência de ação.
Porém, já que o mais precavido processo de execução é, segundo Braque, uma das primeiras felicidades do criador, é preciso prestar atenção às alegrias dos primeiros desenhos, quando, antes do ácido sobre o cobre envernizado, o poeta da mão sonha, lápis nos dedos, sobre a página em branco. Já se disse alguma vez esse primeiro duelo das matérias, essa justa com armas não afiadas, antes do instrumento de pleno agravo? Quem gosta de ir ao minusculo das coisas, à competição da matéria negra e da matéria branca, ganhará em escutar o físico. Entrará então no mistério das lutas dos gnomos atomizados. Viverá uma incrível dialética da coesão e da adesão. Pois o que faz o desenhista? Aproxima duas matérias: empurra suavemente o lápis preto em direção ao papel. Nada mais. A coesão do grafite é então solicitada à adesão pelo papel imaculado. O papel é despertado de seu sono de candura, despertando de seu pesadelo branco. A que distância começa o mútuo apelo, o íntimo apelo do preto e do branco? A partir de que limite a adesão extrovertida ultrapassa a coesão introvertida? Em que momento a vaga de átomos de carbono - negro pólen - deixa a mina para invadir os poros do papel? Em sua linguagem rápida a física responde: A 10-5 centímetro, a um décimo milionésimo de milímetro. Os átomos são ainda mil vezes menores.
Eis o lápis sobre o papel.
Eis onde a falange sonhadora torna ativa a aproximação de duas matérias: eis onde as matérias empenhadas no desenho concluem e fixam a ação da mão obreira.
Assim, com a mais extrema delicadeza, a mão desperta as forças prodigiosas da matéria. Todos os sonhos dinâmicos, dos mais violentos aos mais insidiosos, do sulco metálico aos traços mais finos, vivem na mão humana, síntese da força e da destreza. Explica-se então, ao mesmo tempo, a variedade e a unidade de um álbum no qual dezesseis grandes trabalhadores vieram cada qual nos dar a vida de uma mão. São elementos de uma confissão da dinâmica humana, elementos de uma nova quiromancia, aquela que, ao desvelar forças, revela-se criadora de um destino.

1. A la Gloire de la Main, por Gaston Bachelard, Paul Eluard, Jean Lescure, Henri Mondor, Francis Ponge, Rene de Solier, Tristan Tzara, Paul Valéry...

Tradução de José Américo Motta Pesanha
Fonte: BACHELARD, Gaston O Direito de Sonhar. São Paulo: Difel, 1985   pp. 52-54
A imagem que abre a postagem é de autoria de Lívia Alessandrini, pode ser localizada em http://www.artlimited.net/image/en/115230






segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Baruch de Espinosa e a liberdade de expressão.



As recentes polêmicas envolvendo a divulgação do vídeo "A inocência dos muçulmanos" e seus desdobramentos atualizam questionamentos a respeito da pertinência (ou não) de limites na liberdade de expressão em Estados democráticos. Esta seria absoluta, irrestrita? Paralelamente, o entrelaçamento entre fé e política, em especial do poder econômico e simbólico de grupos religiosos, está na ordem do dia, como no caso das eleições municipais deste ano. Destaco também a questão do ensino religioso nas escolas públicas, com inquestionáveis elementos que comprovam privilégios dados a determinadas confissões, constrangimentos sofridos por alunos e familiares que discordam deste tipo de visão, além de injunções que não são legítimas dentro de um Estado verdadeiramente laico.

Transcrevo abaixo, alguns trechos do capítulo XX do Tratado Teológico Político, do filósofo holandês Baruch de Espinosa (1632-1677), que acredito, possam lançar alguma boa semente para esta discussão.

Publicado em 1670, sem mencionar o nome de seu autor, o Tratado logo foi vítima de censura estatal, por influência do Sínodo calvinista, os Estados Gerais da Holanda declaram a obra "perniciosa", proibindo sua impressão e divulgação.


Para Espinosa a função da política é garantir a segurança da sociedade, salvaguardando o direito de natureza e do mesmo modo a autonomia de cada cidadão. Não se trata, portanto, de um Estado pedagogo/educador, cuja finalidade seria constituir o sujeito humano, mas apenas preservá-lo; algo que não é simples. Assim, a perspectiva espinosiana é bastante distinta de boa parte da perspectiva iluminista (não que seja impossível dialogar com esta cosmovisão)): a questão politica é essencial para o desenvolvimento da sociedade e da felicidade humanas. O progresso científico é secundário e depende da efetivação da política, nos termos colocados por Espinosa.

Utilizei a tradução de Diogo Pires Aurélio, publicada pela Martins Fontes em 2008, na coleção Paidéia.


"Se fosse tão fácil mandar nos ânimos como é mandar nas línguas, não haveria nenhum governo que não estivesse em segurança ou que recorresse è violência, uma vez que todos os súditos viveriam de acordo com o desígnio dos governantes e só em função das suas prescrições é que ajuizariam do que era bom ou mau, verdadeiro ou falso, justo ou iníquo. (…) A vontade de um homem não pode estar completamente sujeita a jurisdição alheia, porquanto ninguém pode transferir para outrem, nem ser coagido a tanto, o seu dreito natural ou a sua faculdade de raciocinar livremente e ajuizar sobre qualquer coisa. Por conseguinte, todo poder exercido sobre o foro íntimo se tem por violento, da mesma forma que se considera ultrajar e usurpar o direito dos seus súditos um soberano que queira prescrever a cada um o que deve admitir como verdadeiro ou rejeitar como falso, e até as opiniões em que deve apoiar-se na sua devoção para com Deus: porque tudo isso pertence ao direito individual e ninguém, mesmo que quisesse, poderia renunciar-lhe. Bem sei que o discernimento poder ser influenciado de muitas maneiras, algumas quase inacreditáveis

Claro que reconheço que tal liberdade traz por vezes certos inconvenientes; mas será que já houve alguma coisa instituída com tanta sabedoria que daí não pudesse surgir depois nenhum inconveniente  Quem tudo quer fixar na lei acaba por assanhar os vícios em vez de os corrigir. Aquilo que não se pode proibir tem necessariamente que se permitir, não obstante os danos que daí se advêm.

Se se quiser, pois, que se aprecie a fidelidade e não a bajulação, se se quiser que as autoridades soberanas mantenham intacto o poder e não sejam obrigadas a fazer cedências aos revoltosos, terá que obrigatoriamente de conceder a liberdade de opinião e governar os homens de modo que, professando embora publicamente opiniões diversas e até contrárias, vivam apesar disso em concórdia. E não há dúvida de que essa maneira de governar é a melhor e a que traz menos inconvenientes  porquanto é a que mais se ajusta à natureza humana. Com efeito, num Estado democrático (que é o que mais se aproxima do estado de natureza), todos, como dissemos, se comprometem pelo pacto a sujeitar ao que for comumente decidido os seus atos, mas não os seus juízos e raciocínios; quer dizer, como é impossível os homens pensarem todos do mesmo modo, acordaram que teria força de lei a opinião que obtivesse o maior numero de votos, reservando-se, entretanto, a autoridade de a revogar quando reconhecessem que havia outra melhor. Sendo assim, quanto menos liberdade de opinião se concede aos homens, mais nos afastamos do estado mais parecido com o de natureza e, por conseguinte, mais violento é o poder.


I - É impossível tirar aos homens a liberdade de dizerem o que pensam.
II – Esta liberdade pode ser concedida aos indivíduos sem o prejuízo do direito e da autoridade dos poderes soberanos, podendo cada um utilizá-la sem prejuízo ainda desse mesmo direito, desde que daí não retire pretexto para introduzir alterações na legislação do Estado ou para fazer algo que vá cotra as leis estabelecidas.
III – A mesma liberdade não representa nenhuma ameaça em relação à paz, nem acarreta inconvenientes que não possam facilmente neutralizar-se.
IV – O mesmo se pode dizer em relação à piedade.
V – As leis promulgadas sobre matérias de ordem especulativa são de todo inúteis.
VI – Finalmente, a liberdade de opinião, não só pode ser concedida sem que a paz do Estado, a piedade e o direito dos poderes soberanos fiquem ameaçados, como inclusive o deve ser, se se quiser preservar tudo isso. Na verdade, onde quer que se tente retirá-la aos homens, onde quer que as opiniões dos dissidentes sejam levadas a tribunal e não as intenções, quando só estas é que podem ser pecaminosas, aí, os castigos que se dão para servirem de exemplo, aos olhos dos homens de bem, parecem martírios, e aos outros, enfurecem-nos e induzem-nos mais a ter compaixão, senão mesmo a vingar-se, do que a ficar com medo. Depois, os bons costumes e a lealdade deterioram-se, a bajulação e a perfídia são encorajadas e é o triunfo dos inimigos porque os detentores do poder cederam perante a sua ira e se tornaram seguidores da doutrina de que eles próprios se têm na conta de intérpretes. Daí que tenham a ousadia de lhes usurpar o direito e a autoridade e não corem de vergonha quando se gabam de ter sido diretamente eleitos por Deus e de que os seus decretos são divinos, enquanto os da suprema autoridade são simplesmente humanos, razão pela qual esta se deveria subordinar aos decretos divinos, ou seja, aos seus. Haverá alguém que possa ignorar que tudo isso vai totalmente contra os interesses do Estado? Concluímos, portanto, tal como já tínhamos feito no cap. XVIII, que não há nada melhor para a segurança do Estado que fazer consistir a piedade e a religião unicamente na prática da caridade e da justiça e limitar o direito das autoridades soberanas, tanto em matéria sagrada como profana, aos atos, deixando a cada um a liberdade de pensar aquilo que quiser e de dizer aquilo que pensa. "


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Gaston Bachelard: Sobre a imaginação...



A imaginação não é, como sugere a etimologia, a faculdade de formar imagens da realidade; é a faculdade de formar imagens que ultrapassam a realidade, que cantam a realidade. É uma faculdade de sobrehumanidade. Um homem é um homem na proporção em que é um super-homem. Deve-se definir um homem pelo conjunto das tendências que o impelem a ultrapassar a humana condição. Uma psicologia da mente em ação é automaticamente a psicologia de uma mente excepcional, a psicologia de uma mente tentada pela exceção: a imagem nova enxertada numa imagem antiga. A imaginação inventa mais que coisas e dramas; inventa vida nova, inventa mente nova; abre olhos que tem novos tipos de visão. Verá se tiver “visões”. Terá visões se se educar com devaneios antes de educar-se com experiências, se as experiências vierem depois como provas de seus devaneios. Como diz D'Annunzio:

Os acontecimentos mais ricos ocorrem em nós muito antes que a alma se aperceba dele. E, quando começamos a abrir os olhos para o visível, há muito já estamos aderentes ao invisível.”

Essa adesão ao invisível, eis a poesia primordial, eis a poesia que nos permite tomar gosto por nosso destino íntimo. Ela nos dá uma impressão de juventude ou de rejuvenescimento ao nos restituir inintewrruptamente a faculdade de nos maravilharmos. A verdadeira poesia é uma função de despertar.

BACHELARD, Gaston A água e os sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria. Tradução: Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1998 (Tópicos) pp. 17-18 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Amorphis - Silent Waters





Silent Waters (2007) é o oitavo álbum de estúdio do Amorphis. A banda finlandesa prossegue com seu trabalho inspirado na mitologia de seu país, as letras constituem traduções de poemas escritos por Pekka Kainulainen. A lírica está centrada no personagem Lemminkäinen, um dos heróis do Kalevala, compilação de poemas épicos da mitologia e folclore finlandeses realizada por Elias Lönnrot (1802-1884). Médico, botânico e linguista, Lönnrot empreendeu diversas viagens no interior da Finlândia e Rússia coletando canções, poemas e narrativas da tradição oral. Este trabalho teve uma papel fundamental na estruturação da língua e identidade nacional finlandesa, contribuindo para a independência do país em relação à Rússia.
Sucessor de Eclipse, de 2006, Silent Waters mantém o nível de qualidade musical do grupo. Destaca-se, também, a belíssima arte gráfica do encarte, do qual reproduzo algumas imagens.




Silent Waters





A day's light told me of my son's fate
The sun showed the way, grim and severe
Pulled under the raging waters, my child
Sank in the drowning currents, my son
My strenght is not enough, my powers failed me
I need the heavens help, I ask for thunder's force
I plead for you oh lightning, forge an iron tool
A magic rake for dragging, a river for my son
God of fire bring your light
Forger of sun help me now
Guardian of the shore will sleep in your warmth
Lull the folk of cold water
Banish the serpents of the dark
To the river let me go and fetch my son away
A rake made of iron from the Gods of skies
The spirit of bright days sent me the sun
Cold troops of Tuoni can not stand in my way
Untouched I shall walk by the river of the night
My child
My son
A luz do dia me contou sobre o destino de meu filho
O sol me mostrou o caminho, duro e severo
Empurrado para as águas ferozes, minha criança
Engulido pelas correntes, meu filho
Minha força não é o suficiente, meus poderes me falharam
Preciso da ajuda dos céus, peço a força do trovão
Eu te imploro, ó tempestade, forje uma arma de ferro
Um ancinho mágico para arrastar, um rio para meu filho
Deus do fogo, traga-me a luz
Forjador do sol, me ajude agora
Guardião das marés irá dormir em seu calor
Acalme o povo da água fria
Expulse as serpentes das trevas
Ao rio deixe-me ir e buscar meu filho
Um ancinho de ferro feitos pelos deuses dos céus
O espírito dos dias claros me enviou a luz
Tropas frias de Tuoni não podem ficar em meu caminho
Intocado, devo caminhar no rio da noite
Minha criança
Meu filho




Towards And Against



I have known the arcane lore
on strange roads such visions met
that I have no fear nor concern
for hatred and obstacles of this world
By stone-shooed wanderer I am taught
my visions from fiery eyed iron-armed chanter
I know how to fight, I know how to sing
I know hot to bend, I know how to break
I've not grown weary on lengthy roads
on strange lands not hone astray
such is the knowledge cast in me
such is the knowledge, such are the skills
I know how to fight
I know how to sing
I know the way
If ruin is said to befall me
it has not come to pass
I've conquered all who stood on my way
and drowned the snakes of death
Because of treason i now shall leave
because of my blood burning my soul
and now I raise this flaming sword
towards darkness, against everyone

Eu conheci a sabedoria dos arcanos
Nas estradas estranhas visões, encontrei
O que eu não temo e nem me preocupo
Para o ódio e os obstáculos deste mundo

Ao andarilho pedra enxotou estou ensinou
Minhas visões de cantor de olhos inflamados de ferro armado
Eu sei como lutar, eu sei como cantar
Sei quente para dobrar, eu sei como quebrar

Eu não cansei de em estradas longas
Em terras estranhas não desviar afiar
Tal é o conhecimento elenco em mim
Tal é o conhecimento, tais são as habilidades

Eu sei como lutar
Eu sei como cantar
Eu sei o caminho

Se a ruína diz que se abateu sobre mim
Ela não tem passou aqui
Eu conquistei todos os que estavam no meu caminho
E afoguei as cobras da morte

Por causa da traição eu agora devo ir
Por causa do meu sangue queimando minha alma
E agora eu levanto essa espada flamejante
Para a escuridão, contra todos




Enigma



On his trail the stones grew
he was led astray
forces strange he had to face
magic unseen
when he asked he was not answered
but he would not yield
what he asked for was not given
To a whirling mass of waters
the mountains of high
his desire he spoke out
to claim his due
a shadow moved in Louhi's mirror
the fairest maid of them all
restless mind found her to his liking
but the queen wanted more
Louhi spoke in riddled tones of three things to achieve
fin and catch the devil's moose and bring it there to me
seek the stallion born of fire, harness the flaming horse
he captured and bound the moose, he tamed the golden horse
Still remained the final test
hunt the bird from the stream of death
Em seu rastro as pedras cresceu
ele foi desviado
forças estranhas ele teve de enfrentar
magia invisível
quando pediu que ele não foi respondida
, mas ele não daria
o que ele pediu não foi dado
Para uma massa rodopiante de águas
das montanhas de alta
o seu desejo, ele falou
para reclamar o seu devido
uma sombra passou no espelho Louhi de
a mais bela dama de todos
mente inquieta encontrou-a a seu gosto
, mas a rainha queria mais
Louhi falou em tons crivados de três coisas para alcançar
fin e pegar alce do diabo e trazê-lo de lá para me
buscar o garanhão nascido do fogo, aproveitar o cavalo flamejante
ele capturou e prendeu o alce, ele domou o cavalo de ouro
Ainda continua a ser o teste finalcaçar a ave do fluxo de morte.


Shaman
 Mother wept for her son
she wept and sang
anxiously pndered fate
his and her own
A sun's ray, in through the eye
glimmered in the room of mind
changing the woman shape
sorrow fled her face
From the shaman into shaman
From the chimney a witch flew out
shaman dived across the sky
under her the woods and lakes
till she saw the Northland gates
I have come for my son, where is my son?
I accept no lies, no falsehoods or deception
I'll send you plagues unnumbered
destruction upon your house
I lay to waste your treasures
and slay your fairest daughter
The queen of north told the way
the road to River Black
impossible and incomplete
the path of no return
Mãe chorou por seu filho
chorou e cantou
destino ansiosamente pndered
seu e seu próprio
Um raio sol, no meio do olho
brilhava na sala da mente
mudando a forma mulher
fugiu tristeza seu rosto
Desde o xamã em xamã
Da chaminé de uma bruxa voou
xamã mergulhou no céu
sob seus bosques e lagos
até que ela viu os portões Northland
Eu vim para o meu filho, onde está meu filho?
Aceito sem mentiras, sem falsidades ou engano
vou enviar-lhe atormenta sem numeração
destruição sobre sua casa
eu leigos a perder os seus tesouros
e matar sua filha mais justa
A rainha do norte disse o caminho
da estrada para Rio Negro
impossível e incompleto
o caminho sem volta


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Ódio ou arte? Em torno de uma charge de Glenn Mccoy.



A charge do cartunista norte-americano Glenn Mccoy lembra uma provocativa instalação de arte contemporânea; em especial A fonte, de Marcel Duchamp (1882-1968). Trata-se, como se pode observar acima, de um espaço ocupado por dois vasos sanitários, lado a lado. No da esquerda, um exemplar do Corão está mergulhado quase até a metade. Acima, encontra-se a inscrição “Crime de ódio”, feita na parede, de forma que remete a um grafite, com a tinta ainda escorrendo, dada a urgência com que foi escrita. No da direita, uma Bíblia Sagrada se encontra na mesma situação. Acima, dentro de uma bela moldura, está escrito “Arte”, em caracteres trabalhados, com serifas.

 Muitas perguntas e reflexões podem ser feitas a partir da leitura desta imagem. Qual a finalidade dela? Qual é a intenção do ilustrador? A quem se destina? Por que, se são situações semelhantes, numa está marcado ódio e na outra assinalado arte? Neste caso, quem define o que é “ódio” e o que é “arte”? Se um cartunista muçulmano fizesse algo semelhante, invertendo os sinais, como seria tratado? Ou ainda, este iconoclasta, dentro de seu país, teria a liberdade de satirizar sua religião? Receberia apoio dos “bem pensantes” caso fosse cerceado e perseguido? Enfim, quais são os limites da liberdade de expressão? 

 Por que afirmar, tão categoricamente, que a imagem da esquerda evoca “ódio”? Sentimento este que vai além da esfera religiosa envolvida; abarca a dimensão da etnicidade, política, modos de vida. Lembrando que as duas tradições religiosas tem origens comuns, embora constituam cosmovisões distintas, que se formaram ao longo dos séculos, com desdobramentos específicos e povos destas duas tradições travaram  relações interculturais (ainda que não necessariamente cordiais e pacíficas). Seria desnecessário lembrar, que a palavra revelada2 tem importância capital em ambas, com as devidas particularidades. Como é sabido, encontramos muçulmanos vivendo entre nós, aqui no chamado Ocidente, seja pela via da imigração e, ao mesmo tempo, ocidentais (sejam de origem cristã, agnóstica e outras) que abraçam a fé islâmica de livre vontade, enquanto africanos e asiáticos, criados no Islã, aderem às várias ramificações do Cristianismo com igual fervor.

 Complicando a minha reflexão: por que aparenta uma certa “naturalidade”, para muitos, acreditar que o Corão mergulhado na latrina representa uma odiosa expressão de “islamofobia”, enquanto a Bíblia no mesmo suporte é vista como algo irreverente, de saudável atividade criativa, exemplo da liberdade de expressão que existe em boa parte do Ocidente. E não uma manifestação de “cristianofobia”? Cristãos de extrema direita reclamam de “cristianofobia” (termo tão vago e abrangente quanto “islamofobia”, por hora não vou discutir seu significado) enquanto manisfestam, mal dissimuladamente, um desprezo pelo diferente e mesmo, pelas regras do discurso democrático (recorrendo as mais variadas teorias conspiratórias). Fundamentalistas muçulmanos agem de maneira análoga. 

 Vale ressaltar que o Islã, tal como o Cristianismo, não é um bloco monolítico. Em tese, há várias maneiras de ser muçulmano. Várias escolas de interpretação da lei. Todavia, determinados grupos parecem monopolizar esta tradição, cerceando vozes divergentes1. A mídia do nosso lado do mundo também contribui para a criação de estereótipos, apresentando os muçulmanos como intolerantes, extremistas, numa desumanização típica das táticas de guerra. Porém, criticar representações caricatas, não equivale a virar costas a problemas graves nestas sociedades. Não é pecado criticar o Islã, ou qualquer religião, filosofia, corrente estética.... O crítico deve assumir responsabilidade por suas considerações (e é preferível que tenha conhecimento de causa dos assuntos sobre os quais discorre). Se o tom de sua intervenção é irônico, seco, duro ou suave, ao meu ver é algo secundário.  

 A imagem do vaso sanitário carrega um simbolismo forte, relacionado processos fisiológicos, como a defecação. No sentido figurado remete à falta de asseio, acúmulo de sujeira, imundície, lodo, sentimentos de repulsa... Algo semelhante ao saco / lata de lixo. Lembrar da célebre expressão “Lata de Lixo da História”. O ato de puxar / acionar a descarga também tem seu valor metafórico: algo como se livrar de coisas indesejáveis, asquerosas, segredos, sentimentos, memórias. Objetos que não servem mais ou cuja presença é incômoda e deletéria. Igualmente comum é o expediente que os contraventores utilizam: queimar/picotar documentos comprometedores, atirá-los na privada e dar descarga... Na defecação, eliminamos produtos que não servem mais ao corpo (e que podem ser prejudiciais à saúde, se acumulados). 

Pode-se fazer uma leitura diferente. Nesse caso, a Bíblia representa não necessariamente os diversos livros que a compõem, mas as muitas ramificações do Cristianismo com suas doutrinas específicas, cujos dogmas já não servem mais vida das pessoas, tornaram-se asfixiante. Daí a necessidade de ser descartada... Neste caso, estamos evacuando elementos ignóbeis e vis do cristianismo, tais como a intolerância, o exclusivismo, a arrogância, o recurso à violência, seja física ou simbólica, o sexismo, o moralismo. 
Todavia, para muitos, a imagem é bastante explicita. O que vai na latrina é o livro sagrado propriamente dito, sem maiores sutilezas, e com tudo que é valioso para a fé destas pessoas.

 Por outro lado, o Islã seria todo bondade e tolerância. O Corão nunca é lido equivocadamente, a favorecer o interesse de certas facções, distorcido a ponto de instilar o ódio, preconceito e tirania. Não possui passagens cuja interpretação carrega ambiguidades; assim como se fez (e ainda se faz) na Cristandade. No entanto, existem cristãos esclarecidos e ponderados. Dispostos ao diálogo com o outro. Aceitam criticamente alguns valores da Modernidade, enquanto criticam outros de forma coerente e fundamentada. Que reconhecem os equívocos que sua religião pode promover e os valores nobres que acompanham a trajetória do pensamento cristão. Estes não tem o direito a se indignar com a forma que a Bíblia foi representada na imagem? Não seria igualmente um tipo de “crime de ódio”? 

 Como se pode notar, há diversos níveis de interpretação. E que a imagem dos livros sagrados na latrina não são necessariamente algo literal. Mas nem todos possuem (ou estão interessados em utilizá-las, quando não é conveniente) estas sutilezas interpretativas. Logo, a profusão de mal-entendidos. Mal-entendidos estes, que são gerados por estereótipos: todo cristão seria intolerante, inculto, defensor de uma postura anti-intelectualista, não possui dúvidas no tocante a sua fé, extremista em termos de comportamento e moralidade... Do mesmo modo toda a história do Cristianismo se resumiria em arbitrariedade e obscurantismo (perseguição aos hereges, Cruzadas, Inquisição, repressão sexual, Index Librorum Prohibitorum ).

 Não se trata de negar eventos que consideramos equivocados, dentro de uma perspectiva histórica, na trajetória da Cristandade. O problema está na perspectiva em preto e branco, seletiva, que ignora (deliberadamente?) a complexidade da história. Para ser justo, temos que pesar os dois monoteísmos na balança. Ambos possuem facetas de luz e sombre (e muitas gradações de cinza). A tonalidade apenas negativa sobre o Cristianismo mascara certa complacência frente ao Islã, que também perpetrou (e ainda promove, por meio de alguns autodenominados representantes) elementos de barbárie, assim como alguns cristãos em nome de sua fé. Não há inocência em lado algum.

 Há quem qualifique esta imagem de “racista”. Entretanto, a questão do racismo parece mais um elemento retórico que não se sustenta, pois existem cristãos e muçulmanos de quase todas as etnias possíveis. O que existe é um conflito em torno de valores éticos e culturais; além da questão do estatuto do indivíduo em cada cultura. No Ocidente, na maioria dos casos, há a afirmação da autonomia do sujeito (que não é absoluta e divorciada das relações intersubjetivas), sua liberdade de escolha, direitos e deveres. Nas sociedades islâmicas a questão é colocada de outra maneira: a liberdade do indivíduo é delimitada pelos valores da comunidade e leis religiosas.

Existe a questão da má consciência ocidental. As feridas deixadas pelo imperialismo, neocolonialismo, eurocentrismo, darwinismo social, eugenia são de difícil cicatrização (e algumas marcas nunca serão removidas) tanto nas próprias sociedades do Ocidente, como na África, Ásia e Oceania. Todavia, a forma de gerenciar esta culpa pode ser equivocada, gerando um autodesprezo frente a própria cultura ocidental, como se nosso legado se resumisse apenas num desfile de barbárie. Só invertemos o lado da moeda. A degradação de nós mesmos e a idealização da alteridade, esta dotada de todas as virtudes, e eventuais defeitos são relevados. 

 Há um elemento muito pouco abordado em meios laicos e na grande imprensa; que é sobre a situação das minorias cristãs em países de religião predominantemente muçulmana. Vejo um grande mal-estar do ocidente secular e progressista em torno deste assunto, que não está fundamentado em boatos ou teses conspiratórias,mas na realidade, tocando o nervo delicado do relativismo cultural, direitos humanos e soberania das nações. Finalmente há o fator 11/09/2001, acontecimento que não pode ser olvidado. Apresentou o enigma Islã3 para o mundo de forma definitiva. Sua diversidade de situações, legado religioso, filosófico, científico, artístico e literário, assim como a inegável presença do fundamentalismo religioso, do Talibã ao rígido e implacável Wahabismo saudita. Dados como o exclusivismo religioso (igualmente rígido e totalizante quanto seus congêneres cristão e judaico), a questão feminina (apartheid de gêneros, crimes de honra, desigualdade e ausência de direitos), tratamento dispensado aos homossexuais, minorias religiosas etc. Os recorrentes morticínios de cristãos na Nigéria estão longe de serem casos pontuais. Todavia, como o tema fica quase restrito à mídia cristã (e setores conservadores, que nem sempre estão preocupados com estas pessoas, mas muitas vezes apenas para provocar a esquerda e obter ganhos políticos).

 A guisa de conclusão: a charge4 é uma forma crítica a um padrão duplo, da extrema sensibilidade do politicamente correto frente ao Islã, ainda que, em nome dessa civilização se cometam as mesmas coisas que são tidas como condenáveis, caso praticadas por cristãos de diversas denominações (os já referidos acima, intolerância, sexismo, exclusivismo, desrespeito aos direitos civis...). Todavia, a noção de tolerância absoluta minimiza esses fatos.  Novamente entra a questão das diferenças entre Ocidente e Oriente no tocante a liberdades de expressão e temas correlacionados. Porém, um item é inegociável: A liberdade de crítica e expressão não pode ser policiada. No caso da propagação de preconceitos e difamações existem medidas legais. Os limites entre humor e agressão são tênues, mas não servem para justificar retrocessos em nome do respeito ao outro. Uma comunidade dialógica pode criar certos consensos, valores universalizáveis; afinal o ser humano é um só, seja em qualquer canto da Terra. Ele ou ela sentem dor tanto na África, quanto na Europa, Américas, Ásia … No entanto respeito mútuo sem conflitos, sem manifestação livre de divergências, ponderações ou concordâncias (totais, parciais...) não existe. É uma utopia (bem autoritária, pois sufoca a expressão individual). O que se pode é gerenciar estas tensões sem que exista possibilidade de recurso à violência. 

 As religiões não são estruturas inertes feitas por paredes de templos e páginas de livros, mas criadas por seres humanos e suas relações no palco da história. Somos livres para criticar, aceitar, debater racionalmente. 

 Notas: 

 1. Ouvi algo mais ou menos assim, da escritora iraniana Azar Nafisi, na ocasião de uma palestra na Bienal do Livro de São Paulo, em 2010. 
 2.O Catolicismo se apoia na tríade Tradição, Revelação e Magistério, onde há ampla margem para discussão, o livro portanto não é determinante. Quanto ao Sola Scriptura dos reformados, o conflito ainda é maior, pois a Bíblia é considerada a única fonte da verdade, inquestionável (no sentido de que tudo é verídico e deve ser acatado), ainda que deva ser devidamente interpretada (todavia, a interpretação é uma espécie de questionamento, de forma que existem interpretações mais abalizadas que outras, pode-se falar em interpretação oficial e autorizada das instituições/igrejas). No caso do Corão, este é a fonte da Sharia, ou seja, a lei de Deus, matriz da vida muçulmana.   Vale destacar um outro elemento: no ocidente a religião tornou-se algo relacionado a vida particular do indivíduo, não obstante a atuação grupos mais tradicionalistas e fundamentalistas, e oportunismo de alguns políticos, o poder das religiões em ditarem normas para a sociedade de forma mais abrangente é bastante limitado. No Islã o quadro é bastante diferente: o peso da Lei, que não nos esqueçamos, foi ditada à Muhammad (e há diferenças nodais entre revelada e ditada, a revelação do Antigo Testamento comporta uma dimensão histórica, enquanto o Islã é extremamente legalista na aplicação do que consideram leis divinas).    
 3. Para mim o Islã é um enigma no sentido de algo de difícil apreensão. Certos conceitos permanecem fluídos e obscuros. Ambíguos, por mais que se afirme o contrário; também ligado à questão do relativismo cultural, que abordarei numa próxima postagem, dedicada ao véu. 
 4. Ao que parece esta charge não é tão popular quanto a do cartunista dinamarquês Kurt Westergaard que, em setembro de 2005, publicou charge com o profeta Muhammad utilizando turbante em forma de bomba. Foi condenado à morte por extremistas muçulmanos. Até hoje continua sob proteção policial, tornando-se uma espécie de prisioneiro em seu próprio país. Ao que parece, não compreenderam o significado iconológico da caricatura, que não é um ataque direto à pessoa do profeta, mas sim uma reflexão em torno do que se faz com suas palavras. Vale ressaltar que a representação do rosto do profeta é proibida pelo Corão, mesmo que de forma não ofensiva. Todavia há correntes que afirmam que representar sua figura não é ilícita. Fato que não é difícil de verificar, pesquisando a iconografia islâmica. De modo que a questão da representação ou não do profeta acaba dependendo da interpretação do Corão que se faz... Uma reflexão interessante pode ser encontrada em: http://www.icarabe.org/noticias/charges-de-muhammad-desencadeiam-protestos-que-expoem-situacao