quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Longa Florata - Annua Gaudia: A Música do Caminho de Santiago.




Santiago de Compostela foi o principal centro de devoção no ocidente cristão do século XII. Este cd reúne cânticos medievais produzido neste contexto de peregrinação. Estes cânticos estão documentados no Códice Calixtino, junto com peças compostas no Mosteiro de La Huelgas, na rota de peregrinação jacobéia e relatos de algus milagres marianos ocorridos com peregrinos, do Cancioneiro de Alfonso X, de Leão e Castela. Talvez cause estranhamento a predominância de cânticos marianos numa obra dedicada ao Caminho de Santiago. Contudo, não é difícil perceber a força da devoção à Mãe de Jesus na tradição católica, especialmente no medievo. Há um aspecto histórico-antropológico importante, para o culto mariano foram encaminhados antigos ritos dedicados a divindades femininas das culturas ibéricas (assim como em outras partes da Europa). Quiçá, naqueles dias, concomitantemente à este processo de cristianização ainda perdurasse venerações à estas deusas arcaicas... Além disso, nas estradas para Compostela existiam vários santuários dedicados à Virgem Maria, devoção muito presente na catolicidade galega.
O cd Annua Gaudia foi produzido em 1999 pelo Núcleo de Estudos Galegos da UFF, com apoio do Programa de Estudos Galegos da UERJ,  pelo conjunto de música antiga Longa Florata, com participação de componentes do Música Antiga de Universidade Federal Fluminense (UFF) e outros artistas convidados, contando com  patrocínio da Xunta de Galícia.

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Integrantes do Longa Flotata:

Lenora Pinho Mendes - vielas de arco e de roda
Leonardo Loredo - barítono, oud e buzuk
Márcio Paes Selles - barítono, flauta
Sônia Leal Wegenast - soprano, harpa e percussão

Músicos convidados: Pedro Hasselmann Novaes, viela de arco e gaita de fole,
Peri Santoro, barítono.
Participação: Emília Cassiano, soprano
Marcus Vinícius Urago, tenor
e
Rebeca Pinheiro, soprano
Kátia Dias, soprano.



1.      De grad' a Santa Maria   -  Afonso X;  1:46
2.      Annua Gudia    -   Codex Calixtinus; 3:30
3.      Psallat Chorus   -  Codex Calixtinus;1:24
4.      Congaudeant Catholici   -   Codex Calixtinus; 3:20
5.      Non é gran cousa   -   Afonso X ; 8:37
6.      Non dev' entrar null' ome    -  Afonso X; 5:53
7.      A Virgen Santa Maria    -   Afonso X; 8:21
8.      Maria Virgo    -   Codex de Las Huelgas; 3:40
9.      Eya Mater Fidelium   -   Codex de Las Huelgas; 7:23
10.    Cleri Cetus     -    Codex de Las Huelgas; 1:44
11.    Non sofre Santa Maria   -   Afonso X; 5:59

Jean Piaget - Objetividade


"A objetividade consiste em tanto tomar consciência das intromissões incontestáveis do próprio ser em todos os pensamentos e ilusões incontáveis daí resultantes - ilusões de sentido, linguagem, ponto de vista, valor, etc - que o primeiro passo na elaboração de cada juízo consiste no esforço para excluir a intromissão do próprio (...) Enquanto o pensamento não se tiver tornado consciente  do próprio ser, será a vítima de confusões perpétuas entre objetivo e subjetivo, entre o real e o ostensível."

Jean Piaget apud
SAYERS, Janet   
“Feminismo e ciência.” In  ROSE, Steven, APPIGNANESI, Lisa (orgs.) Para uma nova ciência. Lisboa: Gradiva, 1989 (Ciência Aberta, 30)    p.220

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Reflexões sobre História, Mitos e Heróis.

 
 
O mito, por vezes, tem sido abordado em sua negatividade. Dimensão a-histórica, estática. Situado no reino da ilusão, da mentira e do engano. Assim como a tradição, outro conceito confusamente considerado, seja para ser elogiada, defendida ou para ser pura e simplesmente abolida; contendo sempre a mesma carga de conservadorismo e conformismo. Não obstante estudos de historiadores e cientistas sociais(1) como Christopher Hill, E. P. Thompson, Carlo Ginzburg, Michael Taussig, Raoul Girardet, Christopher Lasch, Michael Löwy, entre outros, tem demonstrado que o mito, a tradição (religiosa, popular, de um passado distante...), bem como as narrativas fabulosas de diferentes épocas e lugares, podem também servir de fonte para projetos políticos utópicos e radicais, da contestação da ordem hegemônica, reivindicações de maior justiça social, liberdade... Reflexo de descontentamentos, dificuldades, miséria e desconforto material e psíquico. Desta forma, a tradição e as recordações positivas do passado são sempre evocadas em momentos de crise e ruptura, sendo suporte para alguns movimentos progressistas de crítica e projetos frente à situação presente.
Entendo o mito como um modo de comunicação, uma linguagem simbólica, forma de dizer as coisas de maneira indireta, conotativa, sintética, que se constitui de maneira complexa, em múltiplas e sucessivas sobreposições; mas, nem por este motivo está isento de uma historicidade, de contradições, da interdependência com processos sociais, históricos e culturais...Dessa forma, o mito é dotado de uma materialidade (e maleabilidade) pois variações nas narrativas acontecem, impulsionadas por diversas influências e condicionantes. Em resumo, o mito é uma construção social, produto de relações históricas que devem ser desentranhadas pelas operações do historiador. Como assinala o arqueólogo italiano Andrea Carandini: “Explicitar a lógica de um mito, cuja natureza aparente é frequentemente disforme, e compará-la com a lógica consequente de um acontecimento histórico é uma operação árdua, mas não inadmissível, se os mitos orientam e favorecem algumas ordens sociais, (…), poderia acontecer também o contrário. Talvez os mitos indiquem o que poderia ter acontecido, o âmbito da possibilidade / probabilidade, mas às vezes podem também ter englobado o fato de uma época, a exemplo da fundação de uma habitação. Estas verdades 'lógicas', mesmo se não 'narrativas', que os mitos podem chocar em seu seio, longe de serem inúteis ao historiador, podem ajudá-lo a entender a natureza das épocas mais longínquas.” (2)


Todavia, o mito, do mesmo modo que a ciência, a técnica e a religião, pode ser veículo de finalidades espúrias. Seria uma grande desonestidade intelectual negar ou minimizar esta condição. “Não se pode ignorar que o mito, por sua capacidade cognitiva e este potencial mobilizador é confiável instrumento para legitimar instituições, status, relações de autoridade, formas de dominação. Se a cultura é o universo das mediações de sentido, do valor, o direito à cultura é basicamente um direito à diferença. Mas o direito à diferença tem sido com frequência utilizado para eliminar a alteridade, as diferenças do outro. Que o digam as guerras santas, as purificações étnicas e os estigmas sociais. O mito pode ter como destinação a produção e, sobretudo, a reprodução de assimetrias no mundo social. Não é o mito, porém, que produz a dominação; imaginar essa vocação seria reificá-lo. São os homens, as relações que os homens estabelecem entre si que o conduzem a este rumo.” (3)
O herói também possui esta dubiedade semelhante ao mito, e, ao meu ver, talvez seja ainda mais problemático pois, de maneira geral o imaginário está centrado apenas numa pessoa.
Termo polissêmico, herói pode designar alguém que realizou feitos extraordinários, quase sobrenaturais, pessoa famosa por seus feitos guerreiros, vencendo enormes dificuldades; uma pessoa que é o centro das atenções, ou também o protagonista de uma narrativa (lendária, hagiográfica, um romance, filme, peça de teatro, ópera ou história em quadrinhos), ou finalmente o herói da vida cotidiana, que enfrenta enchentes, trânsito caótico, o tédio das filas e da burocracia ou, ainda, administra um orçamento apertado para sua sobrevivência...
Da mesma forma que o mito, o herói funciona como um referencial para a estruturação e reprodução de uma sociedade; fonte para a constituição de identidades, valores, ideais (tradições, costumes, liderança militar, mito fundador de uma comunidade ou nação), legitimação de poderes, leis e posses, garantindo assim a manutenção simbólica e imaginária das sociedades.


Desse modo o herói é aparentado e por vezes se confunde com o mártir, o santo, o missionário, o cientista, o revolucionário... Os chamados “grandes homens”, imbuídos de um heroísmo inconsciente (fizeram o bem, mas sem saber...), sentido de missão (mesmo atuando numa esfera secularizada). Ele pensa que está apenas expressando sua singularidade, mas é veículo da realização de determinados princípios universais, do qual depende a evolução/transformação de uma sociedade.

Devemos observar a relatividade, a historicidade do status do herói. Quem foi considerado herói por um determinado povo ou grupo social (ou mesmo no interior de uma sociedade) pode não ser para outros, pelo contrário: pode ser até um inimigo, um tirano. Em dado período, principalmente após bruscas mudanças políticas, sociais, culturais e econômicas, aquele que era tratado como herói vira “inimigo” (do povo, da nação, da tradição, da ordem social recém-estabelecida...) tornando-se figura “maldita” que deve ser esquecida, apagada da memória (por exemplo,a damnatio memoriae dos romanos, e outras formas de remoção da lembrança, seja através da educação dos pequenos, censura, destruição de documentos e monumentos, perseguição e eliminação física de seus seguidores), ou quando lembrada, sendo considerada um exemplo a não ser seguido.
De outro modo, pode-se acrescentar novos elementos à biografia do herói; qualidades que não haviam sido antes enfatizadas (ou que simplesmente não existiam), ou a incorporação de características de outros personagens cultuados, a associação com outras figuras célebres, sagradas, segundo as necessidades de cada configuração social. Concomitantemente pode-se omitir ou anular certas passagens e características da personalidade do herói que não são considerados “adequados” , “edificantes”, ou seja, “comprometedores” para a ordem política/moral/religiosa vigente.


O mito está enganchado à ilusão. Tomo esta palavra no sentido que Sigmund Freud (4), lhe deu : um mecanismo de defesa contra o reconhecimento do teor transitório e frágil da existência humana, desejo de negar o conflito, o desamparo, becos sem saída e as imposições do princípio de realidade. Todavia, devemos prestar atenção em algo fundamental: a ilusão possui um movimento dialético, o conflito entre o princípio do prazer e o princípio de realidade que é elemento estruturador das formações culturais e da constituição da subjetividade. Nas palavras do fundador da psicanálise: “Quando digo que todas essas coisas são ilusões, devo definir o significado da palavra. Uma ilusão não é a mesma coisa que um erro, nem tampouco um erro. (...) O que é característico das ilusões é o fato de derivarem de desejos humanos. (...) As ilusões não precisam ser necessariamente falsas, ou seja, irrealizáveis, ou em contradição com a realidade (...) Podemos, portanto, chamar uma crença de ilusão quando uma realização de desejo constitui fator proeminente em sua motivação e, assim, procedendo, desprezamos suas relações com a realidade, tal como a própria ilusão não dá valor à verificação.”(5)

Bertold Brecht considerava infelizes os povos e épocas que precisavam de heróis. Esta afirmação severa dura tem fundamento, dada à reificação e manipulação da dimensão mítica para fins de dominação. Mas não é possível extirpar os mitos e as ilusões das sociedades humanas (seria pernicioso e empobrecedor). O que se pode fazer é apreendê-las criticamente com nossa racionalidade e não perder de vista a relação com a realidade. Desconstruindo seus dispositivo conforme necessário, podando ou neutralizando seus elementos destrutivos e se apropriar de seus frutos promissores para a formação material e simbólica das sociedades humanas. Sem esquecer a ambiguidade que eles carregam. Seus laços com o engodo, o obscurecimento das relações de força: “mito da democracia racial”, “mito da neutralidade científica”, “mito do estado-providência”, “mito do bom-selvagem”, “mito do mercado auto-regulável” e tantos outros.

Como trabalhar estes elementos em sala de aula? Aqui estão alguns apontamentos sem pretensão de verdade absoluta e infalível:
Dar voz a outros segmentos sociais (ou seja, “heróis” de outros grupos: mulheres, trabalhadores, escravos, índios, negros, migrantes e imigrantes, professores,estudantes, artistas e intelectuais perseguidos) que não são mencionados pelas historiografias dominantes, ou são apresentados de forma superficial, pejorativa e preconceituosa, contrapondo às visões canônicas outros movimentos paralelos . No entanto, é importante não idealizá-los (transformando-os num poço de virtudes, sem contradições e defeitos), mitificando suas resistências e omitindo aspectos autoritários e discriminadores que os chamados “excluídos” também possuem. Reproduzindo os mecanismos de poder ao contrário...A História possui infinitas gradações de cinza, não é constituída de “bons” e “maus”.

É interessante observar os procedimentos de heroificação, ou mesmo certa divinização, de determinadas categorias profissionais como médicos, engenheiros, advogados e juízes, que, aos olhos de alguns seriam superiores às demais corporações profissionais e ao assim chamado “cidadão-comum”.

Aos heróis são vedados momentos de incerteza e hesitação (6). Devemos, pois desnaturalizar, humanizar a figura do herói. Mostrar que ele não fez tudo sozinho, possuía dúvidas, contradições, qualidades e defeitos lutava contra demônios interiores e desejos inconfessáveis, e não raro, sucumbia a estes... Inserir estes personagens nas tramas dos processos sócio-históricos, na rede de interdependência entre os seres humanos e relações de poder. Mostrar o conflito de representações e leituras que envolvem a figura do herói, efetuada por diferentes facções políticas, religiosas e concepções historiográficas.

Muitos heróis (de uma mesma sociedade, próximos ou distantes no tempo) são representados harmoniosamente em pinturas, cartazes, desenhos, esculturas, instalações entre outros suportes, dispostos um ao lado do outro, quase sempre com a mesma expressão facial e postura corporal (exibindo altivez ou serenidade). Se por algum feitiço fossem colocados numa mesa de debates, dificilmente se comportariam tão amigavelmente quando confrontados em suas visões de mundo, projetos políticos, econômicos... Diferente da imagem harmônica, que simula consenso, construída em torno de suas memórias, mostrando como o imaginário do herói encobre os conflitos sociais.

Em suma, ressaltar a historicidade dos mitos, resultado de uma construção social, atentando para as lutas entre diferentes grupos sociais (elites e camadas médias e populares) bem como os conflitos internos entre estes mesmos grupos, envolvidos nos processos de construção e canonização de seus heróis. Compreendendo os princípios de classificação e legitimação de identidades e sua eficácia social. E, o que é muito importante, mostrar que a “construção” e “destruição” de mitos e heróis é algo permanente.


Observação: Esta é a versão definitiva, revista e ampliada, portanto com mais elementos que a postada em 09/01/11.  Elaborei este texto no longínquo ano de 2001, mais precisamente no segundo semestre, entre agosto e setembro. Fazia parte de um projeto de estágio realizado no Museu Paulista da USP, durante minha licenciatura em História. Tratava-se de abordar o imaginário da Independência a partir do acervo do museu e depois trabalhar com uma turma do ensino fundamental. No entanto, meu grupo mudou o tema do projeto para a questão do processo de urbanização de São Paulo e este escrito ficou guardado... Meus colegas o elogiaram muito, o que me envaidece...Vez por outra eu o relia. Depois ficou arquivado vários anos. Quando criei o blog já tinha certa vontade de publicá-lo. Até que finalmente... A maioria dos parágrafos foram mantidos tal como deixei, certos excessos cortados, algumas passagens foram retiradas, outras acrescentadas, como o tema da ilusão, que não foi aprofundado na época.  Não é uma revisão radical, pois respeitei meu pensamento em formação naquele período.  Talvez os parágrafos sejam demasiadamente longos e um pouco repetitivos. Gostava, e ainda aprecio, de definições precisas e conteúdo sólido. De maneira alguma me envergonho disto. De qualquer forma, espero que algumas ideias fiquem melhor esclarecidas. Tenho enorme respeito pela tradição mítica e religiosa da humanidade, mas cultivo um racionalismo e ceticismo abertos, sem dogmatismos. Para mim, a última palavra é do logos.

Notas:

(1)Christopher Hill O mundo de Ponta-Cabeça: Ideias radicais durante a Revolução Inglesa de 1640. São Paulo:Companhia das Letras,1987;E. P. Thompson Costumes em Comum: Estudos Sobre a Cultura Popular Tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998; Carlo Ginzburg Os Andarilhos do Bem:feitiçaria a cultos agrários nos séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia das Letras,1988; Michael Taussig Xamanismo, Colonialismo e o Homem Selvagem: Um Estudo Sobre o Terror e a Cura. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1993;Raoul Girardet,Mitos e Mitologias Políticas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987;Christopher Lasch A cultura do narcisismo: a vida americana numa era de esperanças em declínio. Rio de Janeiro:Imago, 1983; Michael Löwy Redenção e Utopia: o judaísmo libertário na Europa Central. São Paulo: Companhia das Letras, 1989    (notar a influência de Walter Benjamin em Taussig e Löwy)
(2) Carandini, Andrea La nascitá di Roma. Dèi, Lari, eroi e uomini all' alba di uma civiltà. Parte Prima: Il metodo della ricerca. Tradução da introdução para fins didáticos.
(3)Bezerra de Menezes, Ulpiano “Mito e museu: reflexões preliminares.” in  FÉLIX, L.; ELMIR, C. Mitos e heróis: construção de imaginários. Porto Alegre: UFRGS, 1998 p. 47-48.
(4)Sigmund Freud O futuro de uma ilusão. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. XXI, pp. 13-71). Rio de Janeiro: Imago, 1974 (Texto original publicado em 1927) e Ansiedade e vida instintual [Novas conferências introdutórias sobre a Psicanálise]. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. XXII, pp. 103-138). Rio de Janeiro:Imago, 1976 (Texto original publicado em 1933)
(5) Sigmund Freud O futuro de uma ilusão,1974. p. 43
(6) Estou me referindo especialmente aos heróis nacionais. No tocante ao campo da ficção é notória a existência da figura do anti-herói e os próprios super-heróis passaram, a partir da década de 1970, por reformulações, onde lhes foram acrescentados elementos humanizadores, inquietações existenciais, o direito de errar e mesmo questionar sua missão... Nem os jogos de RPG utilizam personagens “quadradinhos”.

Bibliografia básica: 

Sobre a temática do herói:

CAMPBELL, Joseph  O herói de mil faces, São Paulo, Editora Cultrix/Pensamento, 1995.
HOOK, Sidney    O herói na história.  Rio de Janeiro: Zahar, 1962.
SEFFNER, Fernando O herói e o mito no espaço da sala de aula de história: algumas impressões. In: FÉLIX, L.; ELMIR, C. Mitos e heróis: construção de imaginários. Porto Alegre: UFRGS, 1998. p. 195-205.

Sobre o mito:

CASSIRER, Ernest   Linguagem e mito. São Paulo: Perspectiva, 1985
LÉVI-STRAUSS, Claude Mito e Significado.  Lisboa: Edições 70, 1987
VERNANT, Jean-Pierre  Mito e pensamento entre os gregos: estudos de psicologia histórica. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990

sábado, 1 de janeiro de 2011

Halford - Slow Down



Para começar bem 2011 com uma música poderosa, Slow Down, com letra, tradução e  áudio em modo "EMBED".  Slow Down é a minha faixa preferida de Resurrection, álbum que Rob Halford lançou com sua banda solo em 2000 após um período ruim. A letra está longe de propor um otimismo exagerado, mas também não é pessimista. Trata de tentar manter a calma e encarar as situações da existência de espírito aberto, sem subterfúgios, por mais difíceis que sejam . Daí você pode planejar seu ano com mais serenidade e consciência, sem ilusões.

Um bom 2011 para todos!

Slow Down, composição de Rob Hallford,Bob Marlette e Roy Z

Let it be
Still my anger
Bring me peace
From my temper

I´m trying every way I can
I´m doing wrong I understand

Let it be - slow down
Watch the pressure fall
Bring me peace - slow down
I can´t have it, I can´t have it all

Break the strain
Feed my hunger
Tell my mind
To be stronger


I´ve got to move and make it real
I´ve got to make myself a deal

Brake this strain - slow down
Give up what I crave
Tell my mind - slow down 
Watch what I can, watch what I can save

Will I rise
Out of shadow
Staying calm
Feeling hollow

I´m here to give me one more chance
That choice is resting in my hands, yeah...


Let it be - slow down 
Watch the pressure fall
Bring me peace - slow down 
I can´t have it, I can´t have it all

Brake this strain - slow down 
Give up what I crave
Tell my mind - slow down 
Watch what I can, watch what I can save



Vá mais devagar

Deixe ser
Ainda que minha raiva
Me traga paz
Para meu temperamento

Eu estou tentando de todas as formas
Eu entendo que estou fazendo errado

Deixe ser - vá mais devagar
Veja a pressão cair
Traga-me paz - vá mais devagar
Eu não posso ter, não posso ter tudo

Quebre a tensão
Alimente minha fome
Diga à minha mente
Para ser mais forte

Eu tenho que me mover e fazer isto real
Eu tenho que fazer um trato comigo mesmo

Quebre a tensão - vá mais devagar
Desista do que eu anseio
Diga à minha mente - vá mais devagar
Veja o que eu posso, veja o que posso salvar

Eu vou me erguer
Das sombras
Ficando calmo
Me sentindo vazio

Eu estou aqui pra me dar mais uma chance
Aquela escolha está em minhas mãos, yeah...

Deixe ser - vá mais devagar
Veja a pressão cair
Traga-me paz - vá mais devagar
Eu não posso ter, não posso ter tudo

Quebre a tensão - vá mais devagar
Desista do que eu anseio
Diga à minha mente - vá mais devagar
Veja o que eu posso, veja o que posso salvar







terça-feira, 28 de dezembro de 2010

J. R. R. Tolkien - Fantasia & Razão.




"A fantasia é uma atividade humana notável. Ela certamente não destrói, nem insulta a razão.
E também não ameniza ou obscurece a percepção da verdade científica. Pelo contrário. Quanto mais aguda e clara a razão melhor fantasia ela produzirá."


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Monteiro Lobato, a eugenia e o racismo



O affair em torno ao parecer do Conselho Nacional de Educação, relacionado a elementos racistas no livro "As Caçadas de Pedrinho" de Monteiro Lobato (onde é efetuado um processo de desumanização da personagem Tia Anastácia e uso de uma linguagem considerada degradante, normalizando preconceitos), foi útil para expor o conflito entre concepções de educação, combate ao preconceito e a meu ver, a inabilidade de grande parte da Mídia, defensores do escritor, OAB e ABL em conduzir a discussão de forma produtiva e transparente, sem desqualificar vozes discordantes, sem o recurso fácil à teorias conspiratórias, temor da volta da censura e as infalíveis associações com a Inquisição, o Nazismo e ao "Grande Irmão" de Orwell, sempre zelando por nós. Quem leu o texto árido do parecer com atenção e distância crítica não pode viajar tanto... Apenas é recomendado um olhar crítico quanto a este material.

Muitos se iniciaram no universo da leitura através de Monteiro Lobato e seus personagens. Além de seus méritos como escritor, ele foi um idealista e homem de ação. Ao lado do contador de estórias, existe o polemista, o empreendedor, defensor de nosso desenvolvimento económico e auto suficiência energética, aquele que consolidou entre nós a indústria editorial. Estas facetas construíram um sólido vínculo afetivo. Parece doloroso e inadmissível encontrar algo que macule esta imagem. Ainda mais com o recrudescimento do ideário desenvolvimentista, a reboque do fim das eleições. Desse modo é fácil compreender a reação áspera, porém mal informada, de muitos, frente ao parecer. Todavia, negar que o criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo está fora das relações culturais e sociais que estruturam os sujeitos, é ingênuo e pernicioso para o conhecimento de nossa realidade.


Há uma dimensão de classe com relação a este assunto. A maioria dos leitores de Monteiro Lobato é branca e provém de famílias com certo capital cultural. Quando “As caçadas de Pedrinho” e outros livros foram escritos, poucos negros, mestiços e mesmo brancos pobres tinham acesso à escola pública ou particular. O próprio ensino público estava nascendo e era um campo de lutas e discursos políticos, religiosos e pedagógicos muito disputado, e pouco tangível materialmente. Na década de 1960 o ensino seria massificado e atingiria parcelas mais expressivas da população, mas esta parte da história foge do centro desta postagem. Vale observar que boa parte (creio que a esmagadora maioria) destas pessoas não se tornou racista, demonstrando que o leitor, de maneira geral, não aceita ao pé da letra tudo o que lê. Há reinterpretação  e autoconsciência... No entanto, não se deve descuidar da necessária contextualização e crítica desta produção cultural quando for lida em sala de aula.


Monteiro Lobato adotava ideias que, hoje, consideramos racistas. Não obstante, dificilmente este escritor endossaria o recurso às câmaras de gás ou os linchamentos da Ku Klux Klan. Talvez, a maneira do presidente norte-americano Abraham Lincoln (1809-1865), reconhecia o crime que foi a escravidão, porém não acreditava na convivência das etnias e na miscigenação, que seria daninha à sociedade, defendendo então, uma espécie de desenvolvimento em separado, mas Lobato não se aprofundou muito nestas ideias.


E para complicar a situação também simpatizava com aspectos do eugenismo. Defino eugenia como o estudo dos meios capazes de proteger, aumentar e aperfeiçoar os elementos mais saudáveis e vigorosos das populações humanas, ou seja, de salvaguardar as qualidades genéticas das gerações futuras. O conceito de eugenia tornou-se palavrão, de certa forma compreensível, dado as atrocidades cometidas nos séculos XIX, XX, e ainda em curso em diversos pontos do planeta... No entanto, ela não é, necessariamente, sinônimo de racismo; sob certos aspectos, está presente em nossa realidade sem darmos conta. Remeto para um artigo , meio antigo, mas esclarecedor do geneticista Oswaldo Frota-Pessoa (1917-2010).


A questão é sinuosa. Nas primeiras décadas do século XX onde a demanda por "progresso", "regeneração nacional" e "aprimoramento da raça" estava na ordem do dia, no Brasil e na América Latina, a eugenia era a panacéia para debelar estes problemas... Não é difícil encontrar o criador da Emília e do Visconde de Sabugosa entre seus adeptos brasileiros. 

Em 1918 foi fundada a Sociedade Eugênica de São Paulo (Sesp), a primeira da América Latina, sob inspiração do psiquiatra Renato Kehl, com cerca de 140 associados, entre os quais estavam o fundador da Faculdade de Medicina de São Paulo, Arnaldo Vieira de Carvalho, o sanitarista Arthur Neiva, o psiquiatra Franco da Rocha, o educador Fernando de Azevedo e o escritor Monteiro Lobato, que, numa carta à Renato Kehl, declarou o seguinte:


“Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (...) Precisamos lançar, vulgarizar estas ideias. A humanidade precisa de uma coisa só: poda. É como a vinha. Lobato.” in História Viva , edição 49 - Novembro 2007 Eugenia, a biologia como farsa, por Pietra Diwan


Esta "poda" poderia ser realizada de diversas maneiras: esterilizações compulsórias de casais, restrições à imigração de certos povos considerados "não-assimiláveis" e proibição de casamentos inter-raciais. Existiam dentre os simpatizantes, aqueles que condenavam o racismo, como o médico e antropólogo Edgar Roquette-Pinto, diretor do Museu Nacional, que apoiava a miscigenação e achava que o mal do Brasil estava nas doenças e falta de saneamento e não na "raça".


Um trecho revelador da “Barca de Gleyre” descortina este aspecto que muitos gostariam de ver embaixo do tapete:


(...)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi ?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!... (in A barca de Gleyre. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).
Entretanto, o tom de lamentação do fragmento mostra mais uma atitude resignada frente a um fato consumado do que projeto eugenista com possibilidade de ser posto em prática. Um resmungo. Não dá para ser leviano, as ligações de Monteiro Lobato com as ideias racistas e eugenistas necessitam de estudos rigorosos e em especial desvendando como ele se apropriava delas a sua maneira. É interessante jogar Monteiro Lobato contra Monteiro Lobato. Não era uma persona unidimensional, como podemos ver nos trechos que selecionei abaixo:




"A diferença única é que a História é escrita pelos ocidentais e por isso, torcida a nosso favor. Vem daí considerar-mos como feras aos tártaros de Gêngis Khan e como heróis, com monumentos em toda a parte, aos célebres 'conquistadores brancos'. A verdade, porém, manda dizer que tanto uns como outros nunca passaram de monstros feitos da mesmíssima massa na mesmíssima fôrma."


História do Mundo para as Crianças. 15a. ed. São Paulo: Brasiliense, 1958 [1933] p.206


"Os grandes povos da Europa consideravam-se os primeiros do mundo porque dominam os fracos. Mas dum ponto de vista mais elevado, o simples fato de ainda serem povos guerreiros, isto é, dos que só conseguem as coisas pela violência, prova que estão muito longe do que constitui a verdadeira civilização." 

"Aquela poesia de Castro Alves, 'Vozes da África', é bem certa... Este continente parece que nasceu maldito. Além dos desertos, além da mosca tsé-tsé que propaga o bacilo da terrivel doença do sono, caiu sobre ele uma desgraça pior do que tudo: a cupidez da civilização européia."

"(...)o célebre 'tráfico de escravos africanos' virou a maior tragédia da História. A crueldade do branco, a cupidez dos civilizados, excedeu a tudo quanto se possa imaginar."


Geografia de Dona Benta. 11a. ed. São Paulo: Brasiliense, 1962 [1935] pp. 146, 184, 185