segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Christopher Lasch - A Cultura do Narcisismo.



Existem livros e autores que atravessam um período de efervescência, uma “idade de ouro”. São muito lidos e relidos, recomendados, criticados e absorvidos de maneiras diversas. No entanto, com o tempo, caem numa penumbra... Alguns, produtos de modismos intelectuais passageiros, onde, detectados sua superficialidade e inconsistência, são devidamente olvidados. Outros, textos fundamentais das ciências humanas, no caso do objeto desta resenha, por diversas razões não despertam o mesmo interesse de antes, apesar dos seus méritos.

É o caso de A Cultura do Narcisismo: A vida americana numa época de esperanças em declínio. (Rio de Janeiro: Imago, 1983) do historiador norte-americano Christopher Lasch (1932-1994). Publicado originalmente em 1979. Em que pese o subtítulo e passadas pouco mais de três décadas, seu diagnóstico do século XX é muito preciso e pode ser adaptado à outras realidades nacionais, todavia, com o devido discernimento crítico. De certa forma o processo de Globalização (ou Mundialização) tende a ser, sob certos aspectos, uma norte-americanização política, cultural, econômica etc.
Esgotadíssimo (1), um exemplar usado pode chegar a R$250,00 em sebos virtuais. 



Desse modo, fenômenos sociais e culturais como o Big Brother Brasil, o vício de se ver exposto em todas as redes sociais da internet, a literatura de auto-ajuda, jovens agredindo homossexuais na Avenida Paulista, pais que satisfazem todos os desejos das crianças e que se culpam por não conseguir isso (e ficam pesarosos em repreendê-los e dizer alguns nãos), a proliferação de chavões e chavões pedagógicos que mais confundem do que esclarecem, ganham inteligibilidade após a leitura atenta desta obra.
Trata-se de um texto de leitura exigente, onde o autor mobiliza recursos da psicanálise, sociologia e história social, política e econômica, buscando a precisão conceitual, alcances e limites dos diversos discursos analisados. Requer do leitor atenção constante e razoáveis conhecimentos de psicologia e dos demais saberes citados. Bastante erudito, como todo bom trabalho histórico, mobiliza recursos teóricos da Escola de Frankfurt (em especial Th. Adorno), o conceito de tolerância repressiva de Herbert Marcuse e também ideias de Guy Debord e sua "Sociedade do Espetáculo" (quando Lasch analisa a espetacularização da política e o apagamento da distinção entre realidade e ilusão, verdade e ficção). Há também críticas fundamentadas à obra de Erich Fromm e Erving Goffmnan.
“Cultura do Narcisismo” diz respeito ao modo como as sociedades capitalistas se estruturaram, material e simbolicamente, a partir da década de 1970. Trata-se de uma preocupação intensa com a realização individual, estreitamente relacionada com o universo do consumo e as inúmeras opções que são apresentadas aos indivíduos, em detrimento aos ideais coletivos. Ocorre, então, um retorno ao próprio eu e um desinvestimento nas relações com os outros e com o mundo da experiência. O mercado, a indústria cultural e a publicidade (que para Lasch é quase um sinônimo de propaganda) criam diversas necessidades e desejos a serem alcançados e consumidos: beleza, juventude, excelente desempenho sexual, segurança, sucesso profissional e financeiro, entre outros que se tornam fetiches destinados a apaziguar o narcisismo danificado. Utilizo este termo porque, o narcisismo não é somente uma condição patológica, ele desempenha um papel de protetor psíquico, permitindo que o sujeito equilibre a percepção de suas necessidades em relação às dos outros. No entanto, a configuração capitalista atual exaspera os traços narcísicos, impedindo a identificação mutua entre os indivíduos e enfraquecendo a busca pelo bem comum.
O narcisista possui uma consciência de si muito pouco desenvolvida, somada a enorme necessidade de se ver refletido nos outros. Ele reforça seu sentimento de existir medindo o impacto de seus qualidades sobre os outros. Dominado pela angústia (que predomina ou substitui sobre o sentimento de culpa) ele se refugia no hedonismo e no consumismo.


Para Lasch a “Cultura do Narcisismo” também é uma “cultura da sobrevivência de um mínimo eu” que confrontado com a perspectiva do conflito nuclear, da burocracia desumanizante, da onipotência das grandes corporações multinacionais e do assistencialismo estatal, do pessimismo e crise de confiança com relação à política e aos ideais comuns. Estes sentimentos de insegurança e desamparo obrigam os indivíduos a acionar suas defesas narcísicas como forma de sobrevivência.
Nas palavras de Lasch “a sociedade burguesa parece ter esgotado por toda a parte seu estoque de ideias construtivas. Perdeu tanto a capacidade como a vontade de se confrontar com as dificuldades que ameaçam subjugá-la. A crise política do capitalismo reflete uma crise geral da cultura ocidental, que se revela por um desespero difundido de compreender o curso da história moderna ou sujeitá-lo a uma direção racional.” 2

Compreender a dimensão psicológica articulada à social, apreendendo os traços narcísicos que aparecem na vida cotidiana constitui, portanto, o núcleo teórico-metodológico do livro. Trata-se de um trabalho de historiador que dialoga com a Sociologia, a Psicanálise e a Psicologia Social. Ainda mais porque a desvalorização da História (seja a História-saber ou a História compreendida como fatos do passado humano) é um aspecto fundamental da crise civilizacional de que trata o livro, pois:

“O narcisista não se interessa pelo futuro porque, em parte, tem muito pouco interesse pelo passado. Acha difícil interiorizar  associações felizes ou criar um estoque de lembranças amoráveis para enfrentar a última parte de sua vida, a qual, embora nas melhores condições, sempre traz tristeza e dor. Em uma sociedade narcisista (…) a desvalorização cultural do passado reflete não só a pobreza das ideologias predominantes, as quais perderam o pulso da realidade e cederam à tentativa de dominá-la, mas a pobreza da vida interior do narcisista. Uma sociedade que fez da 'nostalgia' uma mercadoria comercial, repudia, pelo lado cultural, a sugestao de que a vida no passado era, sob qualquer aspecto, melhor que a vida atual. Tendo trivializado o passado, ao igualá-lo a estilos ultrapassados de consumo, modas e atitudes, dos quais abriram mão, as pessoas, hoje em dia, ressentem-se de qualquer um que recorra ao passado para sérias discussões sobre as condições contemporâneas, ou que tente usar o passado como um padrão com que julgar o presente.
pseudo-progressista em favor do status quo. Contudo, sabemos agora – graças à obra de Christopher Hill, E.P. Thompson e de outros historiadores – que muitos movimentos radicais do passado extraíram força e sustento do mito ou memória de uma era áurea no passado ainda mais distante. Esta descoberta histórica reforça o critério psicanalítico de que as recordações amoráveis se constituem numa fonte psicológica indispensável na maturidade, e que aqueles que não conseguem recorrer às recordações de relações amoráveis no passado sofrem, como resultado, tormentos terríveis. A crença de que, em alguns aspectos, o passado foi um tempo mais feliz, de modo algum baseia-se numa ilusão sentimental; tampouco leva a uma paralisação retrógada e reacionária da volição política.” 3

A chave para a compreensão da “cultura do narcisismo” está na degradação do trabalho, em especial a partir da década de 1920. Naquela época houve a transição da prioridade dada à produção e produtividade para a prioridade ao consumo. A publicidade tomou a missão de convencer as pessoas de que a felicidade estava no lazer e na intimidade doméstica, e não mais no trabalho bem realizado. Assim estão colocados os alicerces do que chamamos de sociedade de consumo, onde são projetadas imagens de satisfação imediata, que se plenifica no consumo de bens, serviços e experiências:

“A propaganda de mercadorias serve a uma dupla função. Em primeiro lugar, ela defende o consumo como uma alternativa para o protesto e a rebelião. (…) O cansado operário, em vez de tentar mudar as condições de seu trabalho, procura a renovação ao tornar mais animado seu ambiente imediato, com novos bens e serviços.(...) Em segundo lugar, a propagando do consumo transforma a própria alienação uma mercadoria. Ela se dirige à desolação espiritual da vida moderna e propõe o consumo como sendo a cura. Ela não somente promete diminuir todas as velhas infelicidades , das quais a carne é herdeira; cria ou exacerba novas formas de infelicidade – insegurança pessoal, ansiedade pelo status, ansiedade dos pais sobre sua capacidade de satisfazer às necessidades dos mais jovens. Parece fora de moda perto de seus vizinhos? Seus filhos tem tanta saúde quanto os deles? São tão populares? Saem-se tão bem na escola? A publicidade institucionaliza a inveja e suas ansiedades resultantes.” 4

Outro elemento importante, consequência da cultura narcisista é o fato da sociedade ter se tornado “terapêutica”, em ritmo crescente nas décadas finais do século XX. A educação dos filhos, relacionamento entre os cônjuges, a vida escolar e o cotidiano do ambiente de trabalho é mediado pela perspectiva terapêutica, seja da psicologia e/ou da psiquiatria, enfatizando a “autenticidade”, a “criatividade” (que parece vir do nada ou melhor, dispensaria a disciplina intelectual e esforço próprio), o “otimismo”, as chamadas “críticas construtivas”. Tudo isto só encobre os conflitos e problemas mais profundos sob superfície de “consenso” e “harmonia”. Esta nova configuração social necessita de um novo tipo de controle social, mais sutil, pois:

“A popularização dos modos terapêuticos de pensamento desautoriza a autoridade, em especial no lar e na sala de aula, enquanto existe a dominação sem críticas. As formas terapêuticas de controle social, ao abrandar ou eliminar a relação adversa entre subordinados e superiores, torna cada vez mais difícil para os cidadãos defender-se contra o Estado, ou para os operários resistir às demandas da corporação. À medida que as ideias de culpa e inocência perdem seu sentido moral e até meso legal, os que estão no poder não mais impõem suas regras por meio de éditos autoritários de juízes, magistrados, professores e pregadores. A sociedade não mais espera que as autoridades articulem um código de leis e de moralidade claramente racional e elaboradamente justificável; tampouco espera que o jovem interiorize os padrões morais da comunidade. Exige somente conformidade às convenções das relações cotidianas, sancionada por definições psiquiátricas do comportamento normal.” 5

Esta ideia de “sociedade terapêutica” e/ou “Estado terapêutico é um tanto tributária dos pensamentos de Ivan Illich, o célebre teórico da desescolarização e criador do termo “medicalização da sociedade”. Cabem algumas observações; certamente não se trata de uma junta de médicos e psicólogos que se reuniram na calada da noite maquinando planos maquiavélicos de dominação política e social. Seria uma análise de um primarismo abissal e estaria coisificando os saberes médicos e psi, que possuem sua pertinência em si mesmos. Como se não existissem psicólogos e psiquiatras conscientes do uso indevido de suas ciências. São as relações de poder entre indivíduos e instituições que se apropriam e mobilizam conceitos utilizados por estes profissionais em contextos precisos e específicos para o uso em certos fins. Esta socialização de conceitos psiquiátricos, psicológicos e mesmo psicanalíticos serve para despolitizar o cotidiano, transformando o que era uma questão de luta e negociação política num mero problema técnico, a ser resolvido conforme esquemas pré-determinados. De qualquer forma a “psicologização” de aspectos do cotidiano ocidental é evidente, ainda que tal conceito deva ser melhor refinado.


Christopher Lasch vê certa ambiguidade no movimento feminista. De um lado empreendeu críticas e atitudes de mudanças urgentes com relação ao mundo do trabalho, das relações entre os sexos e destacou aspectos que a esquerda e sindicalismo tradicionais não deram importância. Por outro lado também está imerso no narcisismo contemporâneo, ainda que involuntariamente, em certos casos, alimentando a ilusão de uma sociedade andrógina, sem diferenças essenciais entre os gêneros. Há também a questão do enfraquecimento da estrutura familiar, com o apagamento da figura paterna, fragilização do vínculo conjugal, mães com enormes jornadas de trabalho (doméstico e fora de casa); situação que perpetua a dependência do mercado de “especialistas” em criação de filhos, convivência doméstica e sexualidade.

Muito se escreveu sobre o estatuto ideológico do autor. O fato de um intelectual de esquerda ser extremamente crítico quanto a sua tradição política ( inconsistências, pontos cegos que não levam a caminho algum) não deveria causar estranheza. Não demorou muito para a criação de uma imagem de conservador e reacionário, direitista, nostálgico de sociedade burguesa do século XIX, ou mesmo do mundo aristocrático pré-Revolução Francesa, antifeminista, elitista e outras qualificações. Na maioria das vezes, estes juízos negativos são produto de uma leitura desatenta e preguiçosa, ou simplesmente má-fé, profundo desconforto de quem compreendeu as implicações das análises de Lasch e se recusa a refletir, preferindo recorrer à desqualificação intelectual, política e argumentos ad hominem, amesquinhando a discussão. Lamentavelmente parte do pensamento de esquerda considera persona non grata quem pensa diferente ou discorda de suas posições, preferindo este expediente cômodo da arrogância e detratação do outro. O estilo de Lasch e sua estratégia de argumentação são um tanto elípticos, com elementos importantes a serem apreendidos nas entrelinhas. Uma leitura mais apressada pode nos levar a uma conclusão totalmente diversa àquela pretendida pelo autor. Essa forma de exposição seguramente provocou muitas incompreensões desnecessárias.

Minhas críticas? Em especial a dois aspectos. Primeiro, há um excessivo apego ao ideário de Theodor W. Adorno quanto a onipresença da indústria cultural. Nada de errado em privilegiar a cultura erudita, elaborada, mais complexa, na formação das novas gerações. O dispositivo escolar deve abranger principalmente o que não é imediatista e facilmente apreendido. O famoso slogan “a educação deve partir da realidade do aluno” já estragou muito o trabalho formativo. Nem se deve minimizar o poder homogenizante da máquina ao uniformizar e propor gostos sem o devido espaço para a crítica, o enfraquecimento e destruição de culturas minoritárias, etc... Todavia, a fronteira do erudito e o popular não é rígida, e há diálogos e influências recíprocas. O receptor não é tão submisso, passivo ao sistema midiático, mesmo em relação à propaganda, embora seu grau de sedução seja grande e não deve de forma alguma ser subestimado. Ele reinterpreta as mensagens e, sob certas condições resistir frente a elas (como podemos observar nos estudos de Michel de Certeau). Em segundo lugar, um refinamento maior na percepção em torno do relacionamento indivíduo e sociedade poderia ser conseguido ao se apropriar da sociologia de Norbert Elias. Desse modo a análise poderia ser menos mecânica em algumas passagens: o sujeito nem sempre está eternamente constrangido pelo aparelho estatal e este nem sempre está a mercê de interesses particulares. Sem negar a força da burocracia e suas defesas e constrangimentos, o Estado é parte da sociedade e não externo à ela, podendo ser um campo de lutas, em que mobilização social, após muito esforço, pode conseguir fazer valer seu direitos. Portanto nada é homogêneo e há sempre conflito.

É corretor afirmar que "A Cultura do Narcisismo." envelheceu um pouco, mas isto não é um demérito no campo das ciências humanas. no geral, mantém-se perene, dialogando com autores mais em voga hoje como Pierre Bourdieu, Michel Foucault, Jean Baudrillard, Gilles Lipovetsky, Zygmunt Bauman, entre outros. Aliás, Lasch foi contemporâneo deste cinco pensadores 6 , ainda que não os cite todos nominalmente, é possível  encontrar ecos deles em seus escritos, sempre criticamente. Para concluir, um clássico altamente recomendável, a ser relido ou descoberto, apesar do sabor de desolação e de grandes oportunidades perdidas que ele deixa,  de maneira alguma produz imobilismo ou niilismo.

Post-scriptum - 13/02/2011: Escaneei um exemplar do livro. Neste link.
Post-scriptum - 08/02/2011 : Corrigi as falhas do arquivo. O link acima é o definitivo.
Post-scriptum - 27/01/2012: agora o link para download fica no DepositFiles.


Notas:
1. Dos livros de Christopher Lasch traduzidos para o português, além da Cultura do Narcisismo, também estão fora de catálogo:  Refúgio num mundo sem coração. A família: santuário ou instituição sitiada?  Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1991, O Mínimo Eu -  A Sobrevivência psíquica em tempos difíceis. São Paulo: Brasiliense, 1986,  A rebelião das elites e a traição da democracia. Rio de Janeiro: Ediouro, 1995. Somente A Mulher e a Vida Cotidiana: Amor, Casamento e Feminismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999 está disponível nas grandes livrarias.
2. A Cultura do Narcisismo: A vida americana numa época de esperanças em declínio, p.11
3. op. cit,  pp.15-16
4. op. cit., p.103
5. op. cit, p.227
6. É perceptível certa influência de Foucault, quando Lasch descreve a nova configuração do controle social.


4 comentários:

Max disse...

Marcelo, vc salvou a pátria scaneando esse livro! :D
Procurei em muitos lugares um exemplar e não achei.
Obrigado!

Tatiane Lacerda disse...

Perfeito!
Está difícil encontrar esse livro em todos os lugares, e você o disponibilizou para download!
muitíssimo obrigada.

Larissa Paixao disse...

Marcelo, estou profundamente grata por disponibilizar este livro! abraçs

MARCELO disse...

Obrigado pela visita Larissa!