sábado, 18 de junho de 2011

Zygmunt Bauman - Sobre a arte da vida.



A afirmação “a vida é uma obra de arte” não é um postulado ou advertência (do tipo “tente tornar sua vida bela, harmoniosa, sensata e cheia de significado – tal como os pintores tentam fazer suas pinturas, ou os músicos suas composições”), mas uma declaração de um fato. A vida não pode deixar de ser uma obra de arte se é uma vida humana – a vida de um ser dotado de vontade e liberdade de escolha. Vontade e escolha deixam suas marcas na forma da vida, a despeito de toda e qualquer tentativa de negar sua presença e/ou ocultar seu poder atribuindo o papel causal à pressão esmagadora de forças externas que impõem um “eu devo” onde deveria estar “eu quero”, e assim reduzem a escala das escolhas plausíveis.

Ser um indivíduo (ou seja, ser responsável por sua escolha de vida, sua escolha entre as escolhas, e pelas consequências das escolhas que fez) não é em si uma questão de escolha, mas um decreto do destino. Com muita frequência, porém, é preciso exercer essa responsabilidade em condições que fogem inteiramente ao nosso alcance, seja intelectual ou prático. A vida humana consiste num confronto perpétuo entre as “condições externas” (percebidas como “realidade”, por definição um assunto sempre resistente, e muitas vezes desafiador, à vontade do agente) e designa seus autores/atores: seu propósito de superar a resistência, o desafio e/ou inércia, ativos ou passivos, da matéria e reconstruir a realidade de acordo com a visão da “boa vida” que escolheram. Sobre essa visão, Paul Ricoeur diz que é uma “névoa de ideias e sonhos de realização”, sob cuja luz opaca o grau de sucesso ou fracasso na vida é registrado e determinado. Sob essa luz, certos passos e seus resultados, embora não outros, são avaliados como sensatos, e certos propósitos, mas não outros, destacados como não apenas úteis, mas “autotélicos”, ou seja, “bons por direito próprio”, sem necessidade de serem justificados e defendidos como meios de implementação de outro objetivo, mais elevado.

As visões da boa vida são comparadas por Ricoeur a uma nebulosa. As nebulosas são cheias de estrelas, não é possível contar todas elas, e incontáveis estrelas brilhando e cintilando atraem e encantam. Entre elas, as estrelas podem mitigar suficientemente a escuridão para permitir aos andarilhos traçar um caminho na imensidão – algum tipo de caminho. Mas que estrela deve orientar os passos de alguém? E em que ponto alguém deve decidir se selecionar essa estrela para guia entre uma multiplicidade delas foi uma escolha acertada ou infeliz? Quando se deve concluir que o caminho escolhido não leva a lugar algum, e que chegou a hora de abandoná-lo, voltar e fazer outra escolha melhor, espera-se? Não obstante os desconfortos já provocados por trilhar a rota previamente selecionada, tal resolução pode ser um passo imprudente: abandonar a estrela que até então se seguia pode revelar-se um erro ainda maior e mais lamentável, e você pode descobrir que o caminho alternativo conduz a dificuldades ainda maiores – você não sabe, nem é provável que saiba ao certo tudo isso. Cara ou coroa, suas chances de ganhar ou perder parecem iguais.

Não existe remédio direto ou inequívoco para esses dilemas. Não importa o quanto se tente em contrário, a vida se passa na companhia da incerteza. Cada decisão tende a permanecer arbitrária; ninguém estará livre de riscos e seguro contra o fracasso e desapontamentos posteriores. Para cada argumento em favor de uma escolha, pode-se encontrar um contra-argumento não menos considerável. Não importa o brilho da nebulosa, ele não vai nos assegurar contra a eventualidade de ser forçado a, ou querer, retornar ao ponto de partida. Ao embarcar em nossa jornada para uma vida decente, digna, satisfatória, valorosa (e,sim,feliz), tentamos evitar erros e fugir da incerteza confiando numa estrela, escolhida por seu brilho tranquilizador, para nos guiar. Tudo isso, porém, só para descobrir que nossa escolha da estrela-guia foi, no final das contas, nossa escolha, cheia de riscos como todas as escolhas foram e tendem a ser – e nossa escolha, feita por responsabilidade nossa, ela continuará sendo até o fim...

Fonte: BAUMAN, Zygmunt A arte da vida. tradução: Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar,2009
pp. 72-74

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Karl Philipp Moritz - Meditação sobre o esqueleto (1786)




É a ossatura do homem, despojada da carne, que nos apresenta a imagem da morte.
A natureza inteira parece ter empregado todas as suas forças para manter, durante um certo tempo, no âmbito deste crânio e desta estrutura óssea, a maravilhosa textura de pensamentos e sensações. Nisso ela como que excede a si própria, alcançando a culminação da sua beleza e perfeição, em um ser pensante, capaz de conceber a ideia e de alegrar-se por ela.
E agora a própria natureza destroçou este precioso espelho que, antes, reproduzia, de modo tão grandioso, sua formosura.
No lugar dos olhos que tantas vezes retratavam o semblante do sol, agora nos fitam duas aberturas ocas e horripilantes.
Os lábios, nos quais habitavam a alegria e o sorriso, desapareceram.
As fibras macias que recebiam as brandas impressões do mundo e as conduziam até a sede do pensar, já se desprenderam da dura matéria da ossatura, enquanto esta resiste, durante algum tempo, à destruição total, mostrando ainda nesta destruição resquícios da dignidade que reside no andar e na posição ereta do homem, igual às ruínas de um templo desmoronado que continuam inspirando admiração e respeito.
Aqui teríamos o ponto final da criação do homem?
Com esta triste metamorfose tudo estaria terminado?
A natureza, geralmente tão econômica, teria feito tantos esforços só para ter uma destruição mais imponente ainda?
Ela teria engendrado em cada indivíduo uma nova criação, apenas para destruí-la cada vez de novo?
Se fosse assim, os esqueletos humanos e animais seriam a última e permanente finalidade da criação perpétua da natureza. Apenas para acumular um número cada vez maior de esqueletos, ela faria nascer milhões de seres, todos destinados a serem devorados pela goela da tumba?
Será que a estrutura óssea dura mais que o homem pensante, a obra mestra da natureza?
O esqueleto faz surgir, como muralhas, as divisões mais radicais que existem no âmbito dos nossos pensamentos e ideias:

VIDA e MORTE

se defrontam num contraste medonho.
No esqueleto temos os escombros de um mundo sujeito à destruição.

INÍCIO e FIM

da existência,

ambos para nós estão igualmente envoltos em trevas.
Aqui, o nosso pensamento chega, de dois lados, ao seu ponto final.
Aqui o horizonte declina até o solo, impedindo a nossa visão.
Ao contemplarmos o esqueleto, tudo esvanece: torres, cidades, desejos, esperanças, ciências, artes, tudo desaparece na escuridão noturna, submerge no caos primitivo das coisas.
Perdemos os nossos pensamentos, ao imaginarmos-nos no lugar desta estrutura óssea.
Nosso espanto cresce sem cessar – não vemos possibilidade alguma para uma tal transformação do nosso ser.
Essa transformação radical nos parece em si, uma contradição.
Estamos inclinados a crer, que é apenas o envólucro do nosso ser íntimo, e não este ser que foi assim transformado.

HOMEM PENSANTE – ESQUELETO:

é inconcebível a transformação de um para o outro!
O que já chegou a pensar, nunca poderá ser transformado desta maneira.
Assim como da destruição exsurge a vida nova, a contemplação meditativa do esqueleto engendra, na alma, um pensamento sublime, um conceito novo que, de vez, afasta os terrores da morte.
O meu Eu pensante é tão diferente daquilo que vejo no esqueleto, que nunca se poderá trenasformar nele.
Aqui vejo um conjunto de matéria corpórea, rígida e dura, que se apresenta ao tato como se fosse madeira ou pedra; esta estrutura material foi removida do âmago do meu corpo e agora está diante de mim, como objeto da minha contemplação.
E estes pensamentos que vivem dentro de mim, isto é, no meu ato de contemplar e observar – como são infinitamente diferentes do objeto que está diante de mim!
Necessariamente, devo dar àquilo que, dentro de mim, está observando e contemplando um outro nome do que aquele que dou a esta materia corpórea tão rígida e dura.
Devo dar um nome cujo significado abranja: vida e movimento, poder de pensar e agir.
Sinto-me impelido a traçar, no âmbito das minhas ideias, uma linha divisória entre:

CORPO e ESPÍRITO

Nas trevas da meia-noite a aurora principia a brilhar; da destruição do mundo corpóreo surge:

O MUNDO DOS ESPÍRITOS

A contemplação meditativa da morte nos permite lançar um olhar para além da cortina que encobre, para o nosso olhar, o mistério daquilo que se encontra do outro lado da tumba.
Outra vez se amplia o nosso horizonte, e se descerram, ao longe, serenas perspectivas.
Será verdade, então, que a natureza edifica apenas para depois poder destruir?
Muito pelo contrário: ela destrói para depois edificar. Na edificação, ou seja, na formação, consiste a finalidade da natureza; a destruição é apenas seu meio.
Em cada outono as folhas tombam do jovem tronco da árvore, mas outras brotam, já na próxima primavera; o tronco, entrementes, cresce de ano em ano, cada vez mais sólido e vigoroso.
Seres humanos nascem e morrem; o pó em que se transformam se mistura ao pó de milhões que já morreram; mas em meio da destruição surge o Mundo dos Espíritos, lutando vitoriosamente para se arrebatar da esfera da morte e devastação, e crescendo de geração em geração.
O perpétuo aperfeiçoamento do Mundo dos Espíritos é o que chamamos de progresso da natureza. Sem este progresso os ciclos da evolução não teriam finalidade alguma e seriam apenas um jogo desprovido de intenções.
O que adianta a roda eternamente girar em torno de si, sem que o veículo avance?
O próprio globo terrestre possui um movimento duplo: perpetuamente gira em torno do seu eixo.
O eterno ciclo da natureza consiste em:

VIDA e MORTE,
JUVENTUDE e VELHICE,
FORMAÇÃO e DESTRUIÇÃO.

A isto corresponde na natureza a rotação em torno do eixo, ou ainda, a alternância de dia e noite.
Assim como a jovem aurora, com a juventude de um ser humano ascende um mundo jovem que, no fim do percurso, retorna à escuridão da tumba.
Em que consiste, então, o progresso deste ciclo eterno, dessa rotação em torno de um eixo? Aonde encontramos nisto o progresso, necessário para o universo não ser um mero jogo sem finalidade?
É isto: o perpétuo crescimento e aperfeiçoamento do Mundo dos Espíritos que se dá cada vez que um ciclo está consumado.
Aqui se abre o panorama de um campo imenso, a perspectiva consoladora de uma trama infinita, repleta tanto de diversidade como de unidade; na sua contemplação o espírito humano pode deter-se sem jamais se cansar.
Tradução: Gusmão de Oliveira Manzur


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Therion - The Invincible


Quinta faixa do álbum "Deggial", de 1999.



The blaze of northern light
Reflect the dawn of gods
Of ancient pantheons
Who rest no more in peace.

Faith of the old, the strong one from above:
The invincible.

All the gods of the sky and the earth
Proclaim this day, this day.
See the signs in the day and the night,
Foretell the one, the one.

Open up the runa of belief of the strong and the brave
Open up! let the gods of your heart and your soul show the way.

The eye of the high one
Have seen the dawn of gods
In the well of Mimer [Mimir]
(and) through the flight of ravens

A chama da luz do norte
reflete o amanhecer dos deuses
de antigos Panteões,
que não descansam mais em paz.

Fé no Antigo, o poderoso dos céus acima:
O Invencível

Todos os deuses do Céu e da Terra
proclamam este dia, este dia.
Veja os sinais que, de dia e à noite,
que predizem o único, o único.

Abra a Runa e a fé no Forte e destemido.
Se abra! Deixe os deuses do seu coração e sua mente mostrarem o caminho.

O olho do que está nas alturas
viu o amanhecer dos deuses
No poço de Mimer
(e) pelo voo dos Corvos.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Jean Hébrard - O objetivo da escola é a cultura, não a vida mesma.




"(...)A vida não é um objeto para a escola. O objeto da escola é a cultura, não é a vida. Você não pode trabalhar com a vida, a vida viva. A vida não serve para trabalhar. Na escola, é preciso haver um objeto fixo, que não mude demais. Não é a a vida. A vida é impossível."

Esta afirmação audaciosa é o título de uma entrevista concedida por J. Hébrard à revista mineira Presença Pedagógica, v.6, n. 33, maio/junho de 2000, que coloco a disposição dos leitores neste link.

O francês Jean Hébrard é um grande historiador da educação. Especializado no estudo da cultura escrita (em especial a história de práticas de leitura e de sua transmissão), é Professor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris, e da Universidade de Michigan (EUA), Hébrard já foi inspetor-geral da Educação Nacional da França. Possui laços profundos com o Brasil (seu neto é brasileiro), participou da elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais, o que não o impede de tecer críticas a estes documentos, como esta:

"Os parâmetros curriculares da educação fundamental da França foram reformulados após a elaboração dos parâmetros brasileiros. Aprendi muito com a experiência, as discussões e os problemas do Brasil. Sob muitos aspectos, o parâmetro francês é semelhante ao brasileiro. Mas o Parâmetro Curricular Nacional (PCN) do Brasil tem um defeito: é muito complexo. Parece ter sido formulado para o pesquisador universitário e não para o professor da escola básica. Além de ser muito teórico, ele não diz como preparar uma aula nem dá ao professor indicações seguras sobre o que fazer." 1

Por "cultura" estamos nos referindo ao patrimônio literário, artístico, filosófico e científico acumulado pela humanidade ao longo dos séculos. Cabe ao dispositivo escolar transmitir o que é mais significativo deste legado aos alunos, para que estes possam tomar conhecimento, apreendê-lo e reelaborá-lo de outras formas. Sem memória, não há educação, nem vida pública digna deste nome.

No entanto, a meu ver, Hébrard não leva sua premissa até as últimas consequências, tendendo para um tom mais conciliatório entre a cultura escolar e o mundo de fora. De qualquer forma é uma posição lúcida e diferenciada num ambiente educacional que de certa forma defende uma indistinção entre a escola e o mundo exterior (a “vida”e/ou “realidade”, ou ainda "o mercado"). Algo que acaba redundando em mesmice, conformismo e mediocridade... reiteração do que crianças e jovens já conhecem. Limitando suas oportunidades de formação intelectual mais ampla.

Pouco original é sua defesa da escola em tempo integral, algo de que não estou muito convencido, pois tende a ser mais um clichê de palanques, seminários e congressos, sem grande efeito prático. A experiência escolar deve ser algo significativo para a formação cultural do aluno e o dispositivo escolar deve fornecer aos educandos o que eles não encontrariam em outros lugares. O tempo de permanência na instituição é secundário. Além do mais, o cotidiano infantil e adolescente já é demasiadamente colonizado por elementos pedagógicos e psicológicos, dos mais explícitos aos mais sutis (jogos, brinquedos, passeios ditos "educativos", cursos, programas de televisão e outras mídias etc) que acaba transformando o lúdico e a necessária separção entre a escola, família, casa, rua em uma "educação eterna/interminável" que poucos progressos parece realizar, além de um estresse infantil, crianças e adolescentes sobrecarregados de atividades, para as quais vêem pouco sentido (não obstante seja uma mercadoria bastante lucrativa para esta indústria que não se quer nomear de indústria). Todavia, em sociedades precárias como a nossa, passar um tempo mais prolongado na escola é o preço a ser pago pelos mais pobres por causa da omissão pública.

Hébrard também escreveu um artigo importantíssimo, lamentavelmente inédito em português, entitulado “Instruction ou éducation.” no periódico Ornicar? Bulletin Périodique du Champ Fréudien, n. 26-27 (Paris:Seuil, s/d). Trata-se da questão do otimismo pedagógico da escola republicana francesa do século XIX, modelo do qual nossa educação pública é um espelho distorcido. Suas raízes se encontram na Ilustração e na Revolução Francesa. A função desta escola seria de instruir, ou seja, ensinar a ler, escrever e a contar, além de proporcionar elementos para que a criança se formasse através da leitura. Esta escola seria orientada por uma comunidade esclarecida, segundo o ideário de enciclopedistas como Diderot, Condorcet e Helvétius. Depois veio o discurso da filantropia, como crítica ao programa iluminista e revolucionário, tido como insuficiente. A escola deveria também educar, ou melhor, moralizar e disciplinar os pobres, prevenindo males oriundos da miséria e ignorância, como o alcoolismo e outros vícios, a falta de higiene, a vadiagem e a promiscuidade. Desse modo a escola republicana francesa de Jules Ferry seria uma síntese tensa entre estes dois projetos: a instrução e a educação.

Jean Hébrard em português:

"A escolarização dos saberes elementares na época moderna."  In Teoria &Educação, Porto Alegre, n. 2, p. 65-107, 1990

"Por uma bibliografia material das escritas ordinárias: o espaço gráfico do caderno escolar ." In  Revista Brasileira de História da Educação janeiro Junho de 2001 n.1 pp115-141

"A lição e o exercício: algumas reflexões sobre a história das práticas escolares de leitura e escrita." In
Revista do Centro de Educação. Vol 32, n. 1, 2007

Discursos sobre a leitura 1880-1980. São Paulo: Ática, 1995 (com Anne-Marie Chartier).
As bibliotecas escolares: entre leitura escolar e leitura pública na França do II Império e da III República. Porto Alegre: Mercado de Letras, 2009

Nota:
1 "O Brasil precisa de escolas" http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/revista-ch-2004/210/ch-210-entrevista-jean-hebrard



domingo, 5 de junho de 2011

Ancient Rites - Fatherland




Fatherland, da banda belga de Folk/Black Metal Ancient Rites é um dos meus álbuns preferidos. Consistente do princípio ao fim. Dificilmente pulo uma faixa quando coloco no cdplayer. A exemplo de vários grupos do Underground europeu e de outros continentes, o Ancient Rites não possui muita regularidade em termos de lançamentos, sempre com constantes mudanças na formação. No momento, salvo engano, está inativo.

Com origens no Black Metal, o Ancient Rites, a partir do Fatherland, passou a introduzir também elementos do Folk, Viking e Thrash. Um uso sábio e preciso do piano, flauta, teclados e o recurso à melodias medievais e renascentistas como introdução em algumas faixas. Esses elementos, somadas ao instrumental vigoroso, dão um toque mítico e sobrenatural às canções.

A parte lírica da banda, como sugere seu próprio nome, gira em torno do imaginário mítico e religioso dos povos europeus, em especial celtas e escandinavos (sempre em contraposição ao cristianismo). São ritos antigos/arcaicos de poder, fúria, êxtase e evocação de tempos gloriosos. As letras tratam basicamente de acontecimentos históricos, como as crenças dos templários, as lutas dos guerreiros celtas contra o domínio romano, as tiranias que atravessaram a história do Velho Mundo e o amor à pátria, à terra natal.

Entretanto, não existem sinais de extremismo político, chauvinismo e ideias racistas em Fatherland. Embora à época de seu lançamento tenha recebido estas acusações. O líder da banda, Gunther Theys gosta de História, conhecer culturas diferentes e ama seu país, algo que pode provocar mal-entendidos na difícil contemporaneidade européia, tensionada entre conflitos entre imigrantes extrema direita, nacionalismos e universalismos, dilemas universalistas/integracionistas e propostas de separação e afirmações identitárias radicais.

De qualquer maneira estamos diante de um passado idealizado, imaginário. O real é adaptado às concepções do letrista que sonha com a liberdade e pureza pagã em colisão com a opressiva e asfixiante cristandade. Todavia, os processos históricos são mais complexos e nuançados. Porém não se trata de um estudo histórico e antropológico, mas de uma obra de arte com sua legalidade própria. E que cumpre muito bem seu papel.


Günther Theys - bass/vocals.
Jan Yrlund and Erik Sprooten - guitars,
Walter van Cortemberg - drums,
Oliver Phillips - keyboards






Mother Europe

Oh remember the proud Hellenic civilisation
The cradle of Europe where it all began
Or the Portuguese and Spanish Armada
Overwhelming Thy power, a tribute to the south

Bruges, Antwerp, Ghent forever in my heart
Representing medieval Flemish pride
Brave Teutonic, French and English knights
Thy shining armour now long vanished
Thy glory, however, forever remains
Praised be the Scandinavian hordes
Once the nightmare of the Christian world

I talk of not of mercy
I talk not of fear
The hopeless warriors of a Willing Doom

Children of Italia
In ancient times "Roma Caput Mundi"
De Verenigde Nederlanden, parel van het noorden
Belgium and The Netherlands stood as one

Mother Europe born from your womb
Mother Europe on Your soil shall be my tomb

I talk of not of mercy
I talk not of fear
The hopeless warriors of a Willing Doom
Oh what that gallant spirit shall resume
Leap from Europe's bank and call Thee from the tomb

(Hail to the sons of eastern Europe
the Slavonian soul never fades)
Blessed are Scotland, Ireland and Bretagne
Where the Celtic dream still lives on

Shall be my tomb!

Mãe Europa

Ah, lembro da soberba civilização helênica
O berço da Europa, onde tudo começou
Oh Armada Portuguesa e Espanhola
Esmagador Teu poder, um tributo ao sul

Bruges, Antuérpia, Ghent sempre em meu coração
Representando o orgulho medieval flamengo
Admiráveis cavaleiros Teutônicos, Franceses e Ingleses
Tua armadura brilhante há muito desaparecida
Tua glória, no entanto, permanece para sempre
Louvado seja as hordas escandinavas
Outrora o pesadelo do mundo cristão

Eu não falo de misericórdia
Eu não falo de medo
Os guerreiros sem esperança de um Doom Disposto

Filhos da Itália
Em tempos antigos "Roma Caput Mundi"
De Verenigde Nederlanden, Noorden van het parel
Bélgica e Holanda manteve-se como um

Mãe Europa nascido de seu ventre
Mãe Europa seu solo será meu túmulo
Eu não falo de misericórdia
Eu não falo de medo
Os guerreiros sem esperança de um Doom Disposto
Oh, o que o espírito galante será retomada
Salto do banco da Europa e Ti chamada do túmulo

(Salve os filhos da Europa de Leste;
a alma eslava nunca se desvanece)
Bem-aventuradas são a Irlanda, Escócia e Bretanha
Onde o sonho celta ainda vive.

Será meu túmulo!



Download do álbum Fatherland




sábado, 4 de junho de 2011

Poemas de Georg Trakl (1887-1914) com ilustrações de Grzegorz Kmin.



HUMANIDADE

Humanidade posta ante abismos de chama,
Um rufo de tambores, frontes de guerreiros tenebrosos,
Passos pela névoa de sangue; negro ferro exclama;
Desespero, noite em cérebros pesarosos;
Aqui a sombra de Eva, caça e rubra dinheirama;
Nuvens que a luz atravessa, vespertina refeição.
Em pão e vinho deve um doce silêncio residir.
E aqueles lá reunidos, doze são.
À noite sob ramos de oliveira gritam ao dormir;
São Tomé mergulha na ferida a mão.



NASCIMENTO

Montanhas: negror, neblina e neve.
Vermelha, a caça desce a floresta;
Oh, os olhares de musgo da presa.
Silêncio da mãe; sob pinheiros negros
Abrem-se as mãos dormentes
Quando, vencida, aparece a fria lua.
Oh, o nascimento do Homem. Noturna murmura
A água azul no fundo da rocha;
O anjo decaído olha em suspiros sua imagem,
E pálido corpo desperta em câmara úmida.
Duas luas
Iluminam os olhos da anciã pétrea.
Dor, grito que dá à luz. Com asa negra
A noite toca a têmpora do menino,
Neve que desce de nuvem purpúrea.



AOS EMUDECIDOS

Oh, a loucura da cidade grande, quando ao entardecer
Árvores atrofiadas fitam inertes ao longo do muro negro
Que o espírito do mal observa com máscara prateada;
A luz, com açoite magnético, expulsa a noite pétrea.
Oh, o repicar perdido dos sinos da tarde.
A puta, em gélidos calafrios, pare uma criança morta.
A cólera de Deus chicoteia enfurecida a fronte do possesso,
Epidemia purpúrea, fome que despedaça olhos verdes.
Oh, o terrífico riso do ouro.
Mas quieta em caverna escura sangra muda a humanidade,
Constrói de duros metais a cabeça redentora.



SEBASTIÃO NO SONHO
Para Adolf Loos

A mãe teve a criança sob a lua branca,
À sombra da nogueira, do sabugueiro secular,
Embriagada pela seiva da papoula, do lamento do melro; .
E silencioso
Sobre elas inclinava-se piedoso um rosto barbado,
Discreto, na escuridão da janela; e velharias
Dos antepassados
Jaziam podres. arnor e fantasia outonal.
Escuro o dia do ano, triste infância,
Quando o rapaz desceu às águas frias, peixes prateados,
Quietude e semblante;
Quando petrificado jogou-se aos corcéis em disparada,
E em noite cinzenta sua estrela vinha sobre ele.
Ou quando pela mão fria da mãe
À tardinha passava pelo outonal cemitério de São Pedro;
Um frágil cadàver jazia inerte no escuro da câmara
E erguia sobre este as pálpebras geladas
Mas ele era um pequeno pássaro em galhos nus,
O sino ao longo do novembro da noite,
O silêncio do pai, dorrnindo ao descer a espiral crepuscular.
Paz da alma. Noite de invemo solitário,
As escuras sombras dos pastores no velho lago;
Criança na cabana de palha; quão discreta
Baixava o rosto em febre negra.

Noite sagrada.
Ou quando pela bruta mão do pai
Subi em silêncio o sinistro Monte Calvário
E em crepusculares nichos dos rochedos
A figura azul do Homem passava pela sua lenda,
E da ferida sob o coração corria o sangue purpúreo.
Oh, com que leveza erguia-se a cruz na alma sombria.
Amor; quando em recantos escuros derretia a neve,
Uma brisa azul aninhava-se alegre no velho sabugueiro,
Na abóbada de sombras da nogueira;
E à criança aparecia devagar um anjo rosado. .
Alegria quando em quartos frios soava uma sonata noturna
Nas vigas de madeira marrom '
Saía da crisálida prateada.
Oh, a proximidade da morte! Em muro de pedra
Inclinava-se uma cabeça amarela, a criança muda,
Quando naquele mês de março caía a lua.
Róseo sino de Páscoa na abóbada tumular da noite
E as vozes prateadas das estrelas
Fizeram descer da fronte do adormecido uma sombria loucura
[em calafrios.
Oh, tão silencioso um passeio pelo rio azul abaixo
Lembrandoo esquecido, quando nos galhos verdes
O melro chamava ao ocaso um desconhecido.
Ou quando pela magra mão do ancião
Passava à noite ante o muro em ruínas da cidade
E aquele de casaco negro levava uma criança rosada,
E à sombra da nogueira aparecia o espírito do mal.
Tatear os verdes degraus do verão. Oh, tão silenciosa
Ruína do jardim no silêncio marrom do outono,
Odor e melancolia do velho sabugueiro,
Quando na sombra de São Sebastião expirava a voz prateada do anjo.


AMÉM


Decomposição deslizando pelo quarto podre;
Sombras no papel de parede amarelo; em escuros espelhos se
Curva a tristeza ebúrnea de nossas mãos.
Pérolas marrons correm pelos dedos falecidos.
No silêncio
Abrem-se azuis os olhos-papoula de um anjo.
Azul é também a tarde;
O momento de nossa morte, a sombra de Azrael,
Que escurece um jardinzinho marrom.



DE PROFUNDIS


Há um restolhal, onde cai uma chuva negra.
Há uma árvore marrom;ali solitária.
Há um vento sibilante, que rodeia cabanas vazias.
Como é triste o entardecer
Passando pela aldeia
A terra órfã recolhe ainda raras espigas.
Seus olhos arregalam-se redondos e dourados no crepúsculo,
E seu colo espera o noivo divino.
Na volta
Os pastores acharam o doce corpo
Apodrecido no espinheiro.
Sou uma sombra distante de lugarejos escuros.
O silêncio de Deus
Bebi na fonte do bosque.
Na minha testa pisa metal frio
Aranhas procuram meu coração.
Há uma luz, que se apaga na minha boca.
À noite encontrei-me num pântano,
Pleno de lixo e pó das estrelas.
Na avelãzeira
Soaram de novo anjos cristalinos.



GRODEK


Ao entardecer, as florestas outonais
ecoam de armas mortíferas, e as planícies douradas
e os lagos azuis, por sobre os quais rola
um sol sombrio; a noite abraça
guerreiros moribundos, o lamento selvagem
das suas bocas destroçadas.
Mas, em silêncio, num fundo de salgueiros,
juntam-se nuvens rubras, onde um Deus irado habita;
e o sangue derramado, e frescura lunar;
todos os caminhos desembocam em negra podridão.
Sob dourada ramagem da noite e sob estrelas
a sombra da irmã vacila pelo bosque de silêncio,
para saudar os espíritos dos heróis, as cabeças
ensangüentadas;
e levemente, nos canaviais, soam as flautas sombrias do
outono.
Oh, dor orgulhosa! Vós, brônzeos altares,
Uma dor portentosa alimenta hoje a chama escaldante do
espírito,
Os filhos que ainda hão-de nascer.






Todas as traduções são de Cláudia Cavalcanti, do livro De Profundis e outros poemas, antologia do poeta publicada pela editora Iluminuras, com exceção de "Grodek", traduzido por João Barrento. As ilustrações são de Grzegorz Kmin, artista polonês contemporâneo.