quinta-feira, 5 de julho de 2012

Motörhead - Don't Let Daddy Kiss Me



Sexta faixa do Bastards, de 1993. Tema ousado e verdadeiro (abuso sexual de crianças) feito com a coragem que só Lemmy Kilmister tem. Um dos motivos pelos quais o Motörhead é uma das maiores bandas do mundo.




Little girl sleeping in dreams of peace,
Mommy´s been gone a long time,
Daddy comes home and she still sleeps,
Waiting for the world´s worst crime.
And he comes up the stairs like he always does,
And he never turns on the light,
And she´s wide awake, scared to death,
She smells his lust and she smells his sweat
Curled in a ball she holds her breath
Praying to a God that she´s never met
Don´t let daddy kiss me,
Don´t let daddy kiss me
Good night
Little girl lies by her daddy´s side
And she listens to him breathe
She knows there´s something awful wrong
That she´s far too young to see
And she knows she can´t tell anyone
She´s so full of guilt and shame,
And if she tells she´ll be all alone
They´d steal her daddy and they´d steal her home
And it´s not so bad when daddy leaves her alone
Praying to her God with his heart of stone
Don´t let daddy kiss me,
Don´t let daddy kiss me
Good night
Why, tell me why, the worst crime in the world
And daddy lies by his daughter´s side,
And he sleeps both deep and well
No nightmares come to him tonight,
Though his daughter lives in hell
For his seed is sown where it should not be
And the beast in his mind don´t care
And the only sounds are the tears that fall
Little girl turns her face to the wall
She knows that no one hears her call,
But it seems like God hears nothing at all
Don´t let daddy kiss me,
Don´t let daddy kiss me,
Don´t let daddy kiss me
Good night

Não deixe que papai me beije

Menina dormindo em sonhos de paz
Sua mãe se foi há muito tempo
Papai volta para casa e ela ainda dorme
Esperando pelo pior crime do mundo
E ele sobe as escadas como ele sempre faz
E ele nunca liga a luz
E ela está acordada, morrendo de medo
Ela cheira a sua luxúria e ela cheira o seu suor
Se encolhendo ela segura o fôlego
Rezando para um Deus que ela nunca conheceu

Não deixe que papai me beije
Não deixe que papai me beije
Boa noite

A pequena menina deita ao lado de seu pai
E ela ouve ele respirar
Ela sabe que há algo terrivelmente errado
Que ela é jovem demais para ver
E ela sabe que não pode contar a ninguém
Ela se sente tão culpada e envergonhada
E se ela contar ela ficará sozinha
Eles roubar-lhe-iam seu pai e roubar-lhe-iam sua casa
E não é tão ruim quando papai sai de casa
Rezando para o Deus dela com seu coração de pedra

Não deixe que papai me beije
Não deixe que papai me beije
Boa noite

Por quê, diga-me o por que, o pior crime do mundo

E papai deita ao lado de sua filha,
E ele dorme profundamente e bem
Nenhum pesadelo o assombrará a noite,
Porém sua filha vive o inferno
Pois sua semente foi plantada onde não devia ter sido
E a besta em sua mente não se importa
E os únicos sons ouvidos são as lágrimas que caem
Pequena menina vira o rosto para a parede
Ela sabe que ninguém ouvirá seus chamados,
Mas parece que Deus nunca ouve nada mesmo

Não deixe que papai me beije
Não deixe que papai me beije
Não deixe que papai me beije
Boa noite


quarta-feira, 4 de julho de 2012

Paradise Lost em quatro momentos.


Paradise Lost é uma de minhas bandas preferidas. Originária  da cidade inglesa de Halifax, no início de sua trajetória, em 1988, adotava o estilo Death Metal. Com o passar do tempo elementos de Doom foram adicionados amplificando a sonoridade sombria do grupo, que escapava à definições fáceis. Em 1993 surge uma de suas obras-primas, Icon, que afasta totalmente a influência do Death. Os vocais passam a ser mais limpos, bastante graves. Em 1995 aparece Draconian Times, um de seus álbuns mais celebrados. Na época havia uma comparação da banda com o Metallica. De fato, considero Paradise Lost uma espécie de Metallica da música sombria. Em especial por sua ousadia em experimentar elementos diferentes em cada álbum, sem perder sua identidade. Quesito em que foi bem mais sucedida do que as experimentações da banda thrash norte-americana. De qualquer forma acabou ganhando a incompreensão de alguns fãs e críticos; perdendo alguns e ganhando outros. Praticamente não produziu nenhum álbum ruim, apenas experiências diferentes entre cada trabalho lançando. 
Destaco aqui, faixas de Icon (1993), Draconian Times (1995), Symbol of Life (2002) e Paradise Lost (cd autointitulado de 2005), respectivamente. Junto com letras e traduções.






"Remembrance"




I am the one, to which you'll go
You are the one, from which I'll run...
Fading to grey, the wanton pray
You'll find shelter, I'll find none
I'll leave you pointless life undone
Breathing your days, my anguish stays
Fate of my face, I've seen your face
I turn and run, you'll have no place
Time is the father, in my corrupt mind
Pain, echoes, in the silent sky...
Remember life now?


Eu sou o único, para o qual você vai
Você é o único, do qual eu vou correr ...
Desaparecendo a cinza, a oração devassa
Você vai encontrar abrigo, eu vou encontrar nenhum
Eu vou deixar a inútil vida desfeita
Respirar os seus dias, a minha angústia permanece
O destino do meu rosto, eu vi seu rosto
Eu viro e corro, você não terá lugar
O tempo é o pai, em minha mente corrupta
Dor, ecoando no céu em silêncio ... Lembra-se da vida agora?
Lembra-se da vida agora?




"Enchantment"




Like a fever, fever - inside of me
Like a fever, fever - inside of me
Stand fast, faithful one
See the moon and not the sun but I...
All I need is a simple reminder
Breakdown frail affairs
Turn from the elusive starts but I...
All I need is a simple reminder
Guilt is feeding, feeding, inside I'm cold
In depth grasp the chains
Struggle as the waters gain but I....
All I need is a simple reminder
Observe the formation
Fight until the battle's won
But I... All I need is a simple reminder
There's no rule to say you'll cry alone
Just find the strength to help you carry the load
Reverse the frown and let the power surge
But when alone you cannot resist the urge
Can’t you feel it, feel it, like the pain of dying
Can’t you feel it, feel it, like the pain of dying
Hold on face to face damaged
By the sad disgrace but I...
All I need is a simple reminder
Twisting the knife in vain
End the grief but who will gain but I....
All I need is a simple excuse


Como uma febre, febre - dentro de mim
Como uma febre, febre - dentro de mim
Inabalável, fiel
Vejo a lua e não o sol mas eu...
Tudo que eu preciso é de um simples lembrete
Colapso, assuntos delicados
Transformam-se desde o início elusivo, mas eu...
Tudo que eu preciso é de um simples lembrete
A culpa está alimentando, por dentro eu sou frio
Nas profundezas agarro as correntes
Luto enquanto as águas vencem mas eu...
Tudo que eu preciso é de um simples lembrete
Observo a formação
Luto até ganhar a batalhaMas eu... Tudo que preciso é de um simples lembrete
Não há nenhuma regra que diz que você chorará sozinho
Apenas encontre a força para carregar o fardoMude esse olhar carrancudo e deixe o poder surgir
Mas quando sozinho, você não pode resistir ao impulso
Consegue senti-lo, senti-lo, como a dor na hora da morte
Consegue senti-lo, senti-lo, como a dor na hora da morte
Agüente, cara-a-cara, ferido
Pela triste desgraça mas eu....
Tudo que preciso é de um simples lembrete
Torcendo a faca em vão
Termina a aflição mas quem vencerá, pois eu....
Tudo que preciso é de uma simples desculpa






"Pray Nightfall"




In my head this all is, in my head this all is
In my head this all is, in my head this all is
In my head...

I hold on tight for this mortal ride
Rest my head 'til the morning's coming down on me
I realise my own sacrifice
Rest my head before somebody's going out

In my head this all is, in my head this all is
In my head this all is, in my head this all is
In my head...

Pray nightfall release me
Then I could wander, wander to deep sleep

Awake despite another mortal night
Rest my head for sun is shining down on me
I realise try to synchronize
Rest my head or somebody's going down

In my head this all is, in my head this all is
In my head this all is, in my head this all is
In my head...

Pray nightfall release me
Then I could wander, wander to deep sleep

Trying to make things work
Trying to make things right
Trying to make things work
Without serendipity in my life

It's in my head
Pray nightfall release me
Then I could wander, wander to deep sleep
Pray nightfall release me
Then I could wander, wander to deep sleep

Na minha cabeça, isso tudo está na minha cabeça
Na minha cabeça, isso tudo está na minha cabeça

Eu seguro firme para essa viagem mortal
Descanso minha cabeça até que a manhã chegue para mim
Eu percebo meu próprio sacrifício
Melhor descansar minha cabeça antes que alguém saia

Na minha cabeça, isso tudo está na minha cabeça
Na minha cabeça, isso tudo está na minha cabeça

Rezo para que o anoitecer me liberte
Então eu poderia vagar
vagar para o sono profundo

Acordo apesar de outra noite mortal
Descanso minha cabeça, pois o sol está brilhando sobre mim
Eu percebo e tento sincronizar
Descanso minha cabeça ou alguém vai cair

Tentando fazer as coisas funcionarem
Tentando fazer as coisas certas
Tentando fazer as coisas funcionarem




"Accept the pain"


Like a pill
Like a pill these dreams
Like a pill
Kill almost everything
Like a drop in the ocean
Life's a drop in the ocean
Like a pill it's all the same
Accept the pain, for all who ever tried
For all who tried
Overkill, Overkill it seems
Overkill, Feeding off all extremes
Loyalty through emotion
Cruelty kills devotion
Accept the pain, for all who ever tried
Accept the pain, as all our fears subside (our fears subside)
Like a pill
Like a pill these dreams
Like a pill
It's all the same, it's all the same
Accept the pain, for all who ever tried
Accept the pain, as spirits purify (purify)


Igual a uma pílula
Igual a uma pílula nestes sonhos
Igual a uma pílula
Mata quase tudo

Como uma gota no oceano
A vida é uma gota no oceano
como uma pílula, é tudo igual

Aceite o sofrimento, por todos que já tentaram
Por todos que tentaram

Matança, Matança é o que parece
Matança, alimentando todos os extremos
Fidelidade através emoção
Crueldade mata a devoção

Aceite o sofrimento, por todos que ja tentaram
Aceite o sofrimento, que todos os nossos medos diminuem (nossos medos diminuem)

Igual a uma pílula
Igual a uma pílula nestes sonhos
Igual a uma pílula
É tudo igual, é tudo igual

Aceite o sofrimento, por todos os que tentaram
Aceite o sofrimento, conforme os espíritos purificam (purificam)



terça-feira, 3 de julho de 2012

Michael Oakeshott: alguns fragmentos.




Michael Oakeshott (1901-1990), filósofo inglês, lecionou ciência política na Universidade de Oxford e na London School of Economics. Sua obra abrange reflexões sobre teoria da Histórica, Filosofia do Direito, Estética, Religião, Política e também assuntos ligados à educação.
Entre suas obras:

Experience and Its Modes. Cambridge University Press, 1933. 
Rationalism in Politics and Other Essays. Methuen 1962
 On Human Conduct. Clarendon Press , 1975.
On History and Other Essays. Basil Blackwell 1983 (edição brasileira: Sobre a História e outros ensaios. Rio de Janeiro: Topbooks, 2003)

A postura fundamental filosófica de Oakeshott combina elementos de ceticismo, idealismo e humanismo. Para ele, não existe filosofia, não existe garantia absoluta de que qualquer coisa que a gente diga ou faça seja justificada. A realidade é mediada para nós apenas por certo número de práticas humanas distintas, como história, moralidade, política, ciências, filosofia e poesia. Nenhuma visão da vida ou experiência deve ter precedência sobre o resto. O que temos é uma certa quantidade de distintas práticas e modos que provaram seu valor ao longo do tempo, apropriados aos papéis específicos para os quais foram preparados. Cada prática é uma realização humana específica. Cada qual revela apenas uma parte do todo, no entanto desvenda uma parte. A fim de descobrir qual poderia ser esta parte, temos de estar cientes da prática, e isso significa penetrar nela como algo que precisa ser vivido. O que uma prática oakeshottiana constitui não pode ser analisado em termos externos a ela, nem seus objetivos podem ser justificados em outros termos que não o seu próprio.”

Joy A. Palmer 50 grandes educadores modernos, de Piaget a Paulo Freire. São Paulo: Contexto, pp. 63-64


"Ser humano é reconhecer-se relacionado com outros, não como as partes de um organismo são relacionadas, não como membros de uma “sociedade única e inclusiva”, e sim em virtude de participação em múltiplos relacionamentos compreendidos e na fruição de linguagens históricas compreendidas de sensações, sentimentos, imaginações, desejos, reconhecimentos, crenças morais e religiosas, exercícios práticos e intelectuais, costumes, convenções, procedimentos e práticas, cânones, máximas e princípios de conduta, regras que denotam obrigações e funções que especificam deveres.

O habitante de um mundo composto não de “coisas”, mas de sentidos, isto é, de ocorrências em algumas maneiras de reconhecer, identificar, entender e responder de acordo com este entendimento. É um mundo de sentimentos e crenças, e inclui também artefatos humanos (como livros, retratos, composições musicais, instrumentos e utensílios). […] Não compreender isso é ser não um ser humano, mas um estrangeiro da condição humana.


“(...) Não há tal coisa designada como “natureza humana”; há apenas homens, mulheres e crianças respondendo alegremente ou de forma relutante, reflectidamente ou menos reflectidamente à experiência da consciência que existe como resultado da sua autocompreensão. Sermos humanos também não é “termos uma habilitação especial” como a de engenheiro eletrotécnico. Se a nossa principal preocupação é com a autoconsciência, então para que serve toda esta parafernália educativa? (...)”


“(...) A ideia de escola é a de um “lugar à parte” onde um neófito poderá encontrar-se com a sua herança de forma imparcial,sem sofrer as distorções e corrupções provocadas pela linguagem
corrente; é também um compromisso de aprendizagem feito não pelo acaso, mas pelo estudo em condições dirigidas com a finalidade de se criarem hábitos de atenção, concentração, exatidão,
coragem, paciência, discriminação e reconhecimento da excelência quer no pensamento quer na conduta; é um local onde a aprendizagem da vida adulta se faz de modo a haver o reconhecimento
e a identificação de si próprio noutros termos que não os das suas
circunstâncias imediatas. (...) ”

“É nesse mundo espiritual que a criança, mesmo nas aventuras mais precoces de sua consciência, se inicia; e iniciar seus alunos neste mundo é a tarefa do professor (…) O ensino é a iniciação deliberada e intencional de um aluno no mundo das relações humanas ou em uma certa parte dele. O professor é aquele cujas falas (ou silêncios) pretendem promover esta iniciação com respeito a um aluno (…) consequentemente, ele é também um agente de civilização. Mas sua relação direta é com o aluno. Seu compromisso é levar o aluno a conseguir o máximo de si mesmo, e a forma pela qual ele o faz e ensinando-o a reconhecer-se no espelho das realizações humanas que compõem sua herança espiritual.”

“(...) Sim, enquanto seres humanos somos todos self-made, mas não do nada e muito menos à luz da natureza(...)”.

“nascermos herdeiros e de só sermos capazes de compreensão do nosso legado, através da aprendizagem.”


terça-feira, 26 de junho de 2012

Michael Apple, observações sobre Paulo Freire.




O trabalho do professor Michael Apple nunca despertou muito minha atenção. Em que pese a chamada "americanização" do mundo e as ingerências de políticas neoliberais e do mundo corporativo no campo educacional. Autores nacionais, latino-americanos e europeus (especialmente os franceses) foram mais incisivos na minha formação. Deste modo sigo meu próprio caminho.Estou longe de ser antiamericano e reconheço a excelente qualidade de historiadores e cientistas sociais estadunidenses; todavia considero o pensamento educacional da esquerda norte-americana um tanto restrito ao seu próprio contexto e um tanto dogmático para o meu gosto. Somado-se a isto, existem minhas restrições ao pensamento pós-moderno e ao neo-pragmatismo. De qualquer maneira achei notáveis estas observações de Apple em torno dos limites das apropriações das ideias de Paulo Freire. Valem a pena serem transcritas, ainda mais porque existe um estereótipo muito recorrente, onde manifestar qualquer crítica ao pensamento freireano é tida como reacionária e mal informada. Michael Apple consegue manter um distanciamento crítico de um de seus mestres e atentar para possíveis leituras e usos equivocados de determinados construtos teóricos. Este é um trecho de uma entrevista que o autor concedeu em 1990 e foi incluída no seu livro Conhecimento Oficial: a educação democrática numa era conservadora. (Petrópolis: Vozes, 1999 2ª edição). O depoimento foi prestado a Carlos Torres (Universidade da Califórnia) e Raymond Morrow (Universidade de Alberta). Tomei conhecimento desta entrevista bem depois de escrever este texto, onde critico a ideia de educação bancária.

 "Carlos: Você explorou muito material de Freire. Qual seria a sua principal crítica à abordagem freireana? Qual a ideia que mais o impressionou?

Michael: Existem poucas pessoas de quem eu gostaria de ser aluno e Freire é uma delas. Ele é alguém que tenho o orgulho de conhecer. .as como em relação a todas as pessoas, existem certas coisas que temos que criticar. Temos a tendência de criar deuses. Sei que isso é desconfortável para Freire. Quando estive no Brasil, tornou-se bastante claro para mim que existem muitas pessoas progressistas que também discordam dele, e um dos desserviços que penso que prestamos, quando criamos deuses, é que esquecemos que existem debates sobre o seu trabalho, em sua própria nação. Portanto, a primeira coisa que gostaria de sugerir é a que descobríssemos quais são as discussões sobre as teorias pedagógicas de Freire, onde elas ocorreram. Deste modo, podemos ter certeza de que não importam ideias que poderiam ser reforçadas por suas relações com aquelas múltiplas tradições originárias, por vezes conflituosas. Poderíamos então compreender melhor seus pontos fortes e suas fragilidades, colocando-nos numa posição de não vê-las apenas como recursos políticos/pedagógicos, que podem ser usados em qualquer lugar, sem necessitarem ser reconstruídos e pensados em suas contradições. Tomar simplesmente estas coisas sem reconstruí-las é algo que se volta contra a próprias noção da pedagogia freireana.
Embora eu concorde em larga escala com a noção de que a pedagogia de alguém deve apoiar-se na experiência vivida dos atores e de que existem maneiras para estimular isso – e neste ponto Freire não tem paralelo no mundo – eu sou, em outros sentidos, provavelmente mais gramsciano porque penso que abrimos mão em demasia da questão do conteúdo. Estou principalmente preocupado com a ideia que algumas pessoas tem, quando interagem para criar um alfabetismo político, que é um processo lento, que o conhecimento que frequentemente chamamos de “burguês” não é essencial para aquele processo de alfabetismo. Supomos que os recursos necessários estão de algum modo já naquela comunidade e que “nós” não necessitamos levá-los até eles. Penso que todo este conhecimento, mesmo as disciplinas tradicionais, foi construído a partir do trabalho de todos. E ele pertence a essas pessoas, merece ser deles. Eu iria adiante – embora pense que a pedagogia possa ser a mesma – e levaria muito mais a sério a questão do conteúdo. Acredito, também, que corremos o perigo de nos apropriarmos e tornarmos politicamente não ameaçador, brilhante material que foi desenvolvido no Terceiro Mundo e em tipos práticos de luta. Deste modo, contribuímos para a perda de seu compromisso crítico com a libertação. Como disse, penso que não é fácil transladar isso para as nossas salas de aula e não creio que as condições são necessária e exatamente as mesmas. Portanto, penso que isto tem que ser reapropriado, reconstruído em torno de temas, de estruturas de vida das pessoas reais, nas nações industrializadas. Necessitamos ser muito cuidadosos para não criar simplesmente outra alegoria.
Acredito que, de fato, o que fazemos frequentemente é tomar Freire como um modelo simples, simplesmente uma técnica transferível, uma técnica que tiramos do bolso, esquecendo que ela foi construída na luta e que precisa ser reconstruída e reconectada com as pessoas. Assim vejo uma variedade de perigos. Mas, por outro lado, a abordagem freireana é um avanço sobre as formas como normalmente pensamos a educação não formal, sobre o conhecimento de que certos grupos é apropriado e sobre como podemos articular isto de modo bastante crítico, que seria um ato de má-fé não permitir que ela influenciasse muito do que fazemos.
Nosso trabalho é uma forma de política cultural. Envolve todos nós na tarefa que Williams chamou de “jornada da esperança” em direção à “longa revolução”. Fazer menos, não nos envolvermos nesta tarefa, é, ignorar as vidas de milhões de estudantes e professores em todo o mundo. Não agir é permitir aos poderosos que vençam. Podemos permitir que isso aconteça?"


quarta-feira, 13 de junho de 2012

Pierre Bourdieu: sobre os usos do "povo".


O culto da “cultura popular” não passa, no mais das vezes, de uma inversão verbal e inconsequente, portanto falsamente revolucionária, do racismo de classe que reduz as práticas populares à barbárie ou à vulgaridade. A exemplo do que sucede com certas comemorações da feminilidade que apenas reforçam ainda mais o domínio masculino, essa maneira um tanto confortável de respeitar o “povo”,
contribuindo, sob a aparência de exaltá-lo, para encerrá-lo ou enfurná-lo no que ele é, ao converter a privação em escolha ou em realização eletiva, acaba proporcionando todas as benesses de uma ostentação de generosidade subversiva e paradoxal, deixando as coisas como estão, ou seja, uns com sua cultura (ou língua) realmente cultivada e capaz de absorver sua própria subversão elegante, outros com sua cultura ou língua destituídas de qualquer valor social ou sujeitas a brutais desvalorizações (como o broken english a que se refere Labov), esses últimos ficticiamente reabilitados por uma espécie de foice fazendo as vezes de escrita teórica.


Isto significa que as “políticas culturais” em prol dos mais destituídos estão condenadas a oscilar entre duas formas de hipocrisia (como se pode constatar hoje pelo tratamento dispensado às minorias étnicas, sobretudo aos imigrantes): de um lado, em nome de um respeito ao mesmo tempo condescendente e inconsequente particularidades e particularismos “culturais” ferozmente impostos e vivenciados, que acabam assim constituídos em escolhas – refiro-me, por exemplo, ao manejo por parte de certo conservadorismo do “respeito pela diferença” ou a essa invenção inimitável de certos especialistas americanos dos guetos que vem a ser a noção de “cultura da pobreza” – , os destituídos são acorrentados a seu estado e impedidos de terem acesso aos meios reais de levar a cabo suas possibilidades mutiladas; de outro lado, impõe-se universalmente (como a instituição escolar hoje) as mesmas exigências sem qualquer preocupação de também distribuir universalmente os meios de satisfazê-las, contribuindo desse modo para legitimar a desigualdade que muitos se contentam em registrar e ratificar, exercendo, de lambujem, e primeiro na escola, a vilência simbólica associada aos efeitos da desigualdade real em meio à igualdade formal. (Eis uma constatação de fato bastante desesperadora quando se sabe que, ao menos nos Estados modernos, está completamente fora de cogitação a possibilidade de que os dominados se reapropriem eles mesmos de algo próximo a uma cultura própria no intuito de enobrecê-la, por conta do efeito exercido pelas forças de imposição cultural, e de desaculturação, a começar pela instituição escolar que se mostra bastante eficiente na tarefa de destruir as tradições culturais marginais – com elaboração dos meios de comunicação de massa – sem ser capaz de franquear amplamente o acesso à cultura central).

BOURDIEU, Pierre Meditações Pascalianas. Tradução: Sérgio Micelo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007 pp. 93-94



Em suma, a “cultura popular” é um saco de gatos. As próprias categorias empregadas para pensá-la, as questões que lhe são colocadas são inadequadas. Em vez de falar sobre a “cultura popular” em geral, darei o exemplo daquilo que é chamado de “linguagem popular”. Aqueles que se insurgem contra os efeitos de dominação exercidos através do emprego da língua legítima costumam chegar a uma espécie de inversão da relação de forças simbólicas e acreditam agir bem ao consagrar como tal a língua dominada – por exemplo, em sua forma mais autônoma, isto é, a gíria. Essa passagem do a favor para o contra, que também se observa em matéria de cultura quando se fala em “cultura popular”, ainda é um efeito da dominação. De fato, é paradoxal definir a língua dominada em relação à língua dominante. Efetivamente não há outra definição de língua legítima, senão que ela é uma recusa da língua dominada, com a qual ela institui uma relação que é a relação da cultura com a natureza: não é por acaso que se fala de palavras “cruas” e “língua verde”. Aquilo que é chamado de “língua popular” são modos de falar que, do ponto de vista da língua dominante, aparecem como naturais, selvagens, bárbaros, vulgares. E aqueles que por uma preocupação de reabilitação, falam de língua ou de cultura popular são vítimas da lógica que leva os grupos estigmatizados a reivindicar o estigma como razão de sua identidade. Forma distinta da língua “vulgar” - aos próprios olhos de alguns dos dominantes – a gíria é produto de uma busca de distinção, porém dominada, e condenada, por essa razão, a produzir efeitos paradoxais, que não podem ser compreendidos quando se quer encerrá-los na alternativa da resistência ou da submissão que comanda a reflexão sobre “língua popular”.
Quando a busca dominada de distinção leva os dominados a afirmarem o que os distingue, isto é, aquilo mesmo em nome do que eles são dominados e constituídos como vulgares, deve-se falar de resistência? Em outros termos, se, para resistir, não tenho outro recurso a não ser reivindicar aquilo em nome do que eu sou dominado, isso é resistência? Segunda questão: quando, ao contrário, os dominados se esforçam em perder aquilo que os marca como “vulgares” e por se apropriar daquilo em relação a que eles aparecem como vulgares (por exemplo, na França, o sotaque parisiense), isso é submissão? Acho que essa é uma contradição insolúvel: é uma contradição que está inscrita na própria lógica da dominação simbólica, mas as pessoas que falam de “cultura popular” não querem admiti-la. A resistência pode ser alienante e a submissão pode ser libertadora. Tal é o paradoxo dos dominados, e não há escapatória. De fato, e mais complicado ainda, mas creio que isso já é suficiente para embaralhar um pouco as categorias simples, em particular a oposição entre resistência e submissão, com as quais se costuma pensar essas questões. A resistência situa-se em terrenos muito diferentes do terreno da cultura em sentido estrito – onde ela nunca é obra dos mais despossuídos, o que testemunham todas as formas de contra-cultura, que, como eu poderia mostrar, supõe sempre um determinado capital cultural. E ela adquire as formas mais inesperadas, a ponto de permanecer quase invisível para um olho cultivado.

BOURDIEU, Pierre Coisas ditas. Tradução: Cássia R. da Silveira e Denise Moreno Pegorim; revisão técnica: Paula Montero. São Paul: Brasiliense, 1990 pp. 186-187

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Charles Taylor e a ambivalência dos ideais.



"Em nossos dias, como nos dele, muitos jovens são levados ao extremismo político, às vezes por condições realmente terríveis, mas também por uma necessidade de dar sentido à sua vida. E, como a falta de sentido costuma ser acompanhada de uma sensação de culpa, eles às vezes respondem a uma ideologia de polarização intensa, em que recuperam o senso de direção, assim como uma sensação de pureza, ao se alinhar numa oposição implacável às forças das trevas. Quanto mais implacável, e até mesmo violenta, a oposição, tanto mais a polaridade é apresentada como absoluta e tanto maior a sensação de distanciamento do mal e, por isso, de pureza. Os Demônios, de Dostoiévski, é um dos grandes documentos dos tempos modernos, porque põe a nu a forma pela qual um ideologia de liberdade e amor universal pode mascarar um ódio ardente, dirigido para fora contra um mundo regenerado e gerando destruição e despotismo.
(…) Há outras consequências da benevolência obrigatória, que Nietzsche não explorou. A ameaça da sensação da falta de valor também pode levar à projeção do mal no lado de fora; o mal, o fracasso, é identificado agora com algum outro povo ou grupo. Minha consciência está limpa porque me oponho a eles, mas o que posso fazer? Eles são o obstáculo à beneficência universal; precisam ser liquidados. Isto se torna particularmente virulento nos extremos do espectro político, de uma forma que Dostoiévski explorou com uma profundidade sem paralelo.
(…) A meu ver, de todos esses exemplos emerge uma verdade geral: os mais elevados ideais e aspirações espirituais também ameaçam impor as cargas mais esmagadoras à humanidade. As grandes visões espirituais da história também foram cálices envenenados, causas de miséria indescritível, e até de selvageria. Desde os primórdios da história humana, a religião, nosso vínculo com o mais elevado, esteve repetidas vezes associada a sacrifício e até mutilações, como se algo em nós tivesse de ser destruído ou imolado, forma pela qual se quiséssemos agradar aos deuses (…) O que precisamos é de um humanismo sóbrio, secular e científico."

As Fontes Do Self: A Construção da Identidade Moderna. tradução de Adail Ubirajara Sobral. São Paulo: Loyola, 1997 pp.658,659,661