sábado, 10 de setembro de 2016

Claude Kappler Monstros, demônios e encantamentos no fim da Idade Média.



Um presente para os meus leitores.

Monstros, demônios e encantamentos no fim da Idade Média, de Claude Kappler . (tradução: Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 1994; Coleção O Homem e a História) é um daqueles livros fundamentais que são sempre mencionados e recomendados mas que se encontram inexplicavelmente fora de catálogo.

Claude-Claire Kappler (n. em 1946) é uma  medievalista e orientalista francesa. Pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) na área de literatura medieval. Ela também é especializada em literatura persa clássica e sobre as relações entre o Oriente e o Ocidente.

A ideia deste livro teve origem na contemplação das pinturas de Hieronymus Bosch. A autora indagava: o que era o monstro na Idade Média? Como ele era compreendido? Que papel desempenhava?
O problema que orientou sua pesquisa, em suas palavras: “o que para nós é obscuro parece ter sido claro naqueles tempos” [pois] estavam inseridos num contexto que a esclarece e a explica.", p.3

Portanto, seu objeto de estudo consiste no monstro na imaginação, e não na natureza (pois a atitude adotada em relação ao primeiro item pode ser parcialmente explicada pelo segundo).
 A pesquisa foi realizada principalmente nas bibliotecas universitárias de Basiléia, Estrasburgo e Genebra. o enorme corpus documental abrangeu fontes literárias e iconográficas (muitas, até aquele momento inéditas). de modo que compreendia o seguinte:grandes obras/textos – o monstro aparece de forma esparsa e rara. Narrativas de viagens: “aparecem com uma constância e uma naturalidade que lhes conferem existência própria” p.4 --- séculos XIII-XIV-XVI... África e Ásia – "afinidades naturais entre viagens, contos e mitos: a imaginação é muito estimulada"., p.4

 Não havia uma definição de monstro, mas tentativas de defini-lo que variavam de acordo com os autores e fundamentalmente segundo às épocas. Geralmente o monstro é definido em relação à norma pp. 292-293; também o monstro é aquele cujo aspecto não estamos acostumados. É um desvio da forma... Na literatura o monstro pode ter várias funções: narrativa, simbólica (com finalidade moral) e uma função catártica. (que permite combater o mal e o excesso)

A palavra “monstro”, do latim monstrum: “prodígio / milagre” surgiu durante a primeira metade do século XII e é empregada para designar criaturas disformes que eram exibidas nos circos ou nas feiras.

No século XIX surge a teratologia, “ciência” dos seres monstruosos, ou mais precisamente estudo das anomalias do desenvolvimento embrionário. Segundo o zoólogo e naturalista francês Étienne Geoffory Saint-Hilaire (1772-1844) “o monstro é um homem inacabado”.

Na definição corrente: monstro é um ser vivo cuja conformação difere consideravelmente da dos indivíduos de sua espécie, por excesso, por falta ou pela posição anormal de certas partes de seu corpo.

Finalmente o termo “monstro” também remete às criaturas fantásticas e terríveis das lendas e das mitologias (Centauro, Quimera, Minotauro...). Sem olvidarmos do imaginário contemporâneo, cujo suporte é o cinema, a literatura de terror, as histórias em quadrinhos. Mas esse aspecto foge do livro em questão.

Para Claude Kappler a qualificação de “monstro” baseia-se em três tipos de argumentos:

O argumento genético, que leva em consideração as causas (Aristóteles, “Geração dos animais”; e também Ambrósio Paré)
O argumento teológico e estético, que se apoia na harmonia do universo (Santo Agostinho, “Cidade de Deus”; XVI,8)
O argumento exemplarista ou normativo, que se refere a modelos dos quais os monstros se afastariam como se fossem “más reproduções”.

O monstro existe em todos os níveis da Criação, tanto no reino humano, como nos reinos animal, vegetal e mineral.

Santo Agostinho interessava-se somente pelos monstros humanos. A questão que o mobiliza é saber se as raças monstruosas descendem de Adão, o que põe em dúvida a legitimidade da perfeição da Criação. O bispo de Hipona se vale de uma interessante noção de diversidade: nada ocorre ao acaso e Deus criou o Universo como um tecido onde a semelhança e a diversidade entre as partes se entrelaçam. Portanto o monstro representa uma espécie de contrapeso, enquanto criatura distinta do protótipo humano.

Segundo a perspectiva medieval os monstros são parte integrante da Criação, sendo contados entre a fervilhante população do Universo.
Quanto à atitude medieval com relação aos monstros. O imaginário medieval estabeleceu uma tipologia dos monstros que observa certos critérios:
  1. o monstro como símbolo do antiético, do “completamente outro”;
  2. o monstro como criatura “fraca” (a quem falta algo de essencial ou que apresenta uma deformidade dos órgãos;
  3. o monstro como fusão dos reinos animal, vegetal e mineral, ou ainda como fusão dos sexos;
  4. o monstro como criatura todo-poderosa ou destruidora.
Os modernos consideram o monstro um mistério, escândalo, espécie maldita e ligada a uma patologia.  

Enfim, uma obra muito rica de insights e muito bem escrita, constituindo excelente fonte de aprendizado sobre um imaginário sempre presente na contemporaneidade, via cinema, seriados, HQs e demais artes. 







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